Guerra ideológica com a história do 'Che' | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Sábado, 18 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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Guerra ideológica com a história do ‘Che’

Por Henrik Silter em 09/10/2007 na edição 454

Não sou leitor da revista Veja, nem faço questão de ser. Gostaria de deixar isso claro. Mas fiquei curioso em ver o que poderia ter ali naquelas páginas para comprometer o revolucionário Guevara Lynch de la Serna (vulgo ‘Che’) quarenta anos depois de sua morte – a serem completados nesta 2ª semana de outubro.

Realmente fiquei curioso em saber que revelações a revista traria a respeito de um sujeito que poderia ter vivido uma boa vida na Argentina, ‘num ambiente cultural razoavelmente requintado’, como escreveu o sociólogo Eder Sader, mas que renunciou a tudo isso e preferiu viver em prol de causas sociais e lutas por ideais de justiça. De fato, queria saber que máculas eram essas que colocariam à tona a ‘farsa do herói’.

Depois de folhear a revista por alguns minutos, percebi que em poucas linhas de ódio e rancor a edição apenas delineava acusações de cunho puramente ideológico. O propósito de Veja é tentar conter a crescente simpatia que a juventude nutre pelo ‘ser humano mais completo de nossa era’, como o definiu um dos maiores escritores do século 20, Jean-Paul Sartre.

Falta de credibilidade

Com exceção da entrevista de um dos algozes de ‘Che’, Félix Rodríguez – soldado cubano que se tornou estadunidense e foi enviado pela CIA à Bolívia para ajudar a assassinar Guevara –, não havia nada de novo.

É uma pena Guevara não estar vivo para processar a revista por calúnia e difamação.

Fiquei pensando em me atrever a escrever alguma coisa em nome do ‘Che’ para responder às infâmias produzidas naquela edição da semana passada.

Por alguns momentos pensava que era melhor não. ‘É perda de tempo’, resignava-me. Como conclusão, cheguei a pensar que a revista é escrita para um público de classe alta e média boboca, que tem tudo do bom o do melhor e vive reclamando pateticamente da vida e dos pobres.

Jogada no chão do quarto uma semana depois, a capa da edição me chamou a atenção e acabei revendo-a. Fiquei olhando com certa indiferença o exemplar até que me ocorreram alguns pensamentos. Imediatamente me surgiu na cabeça o cunho ideológico da revista. Depois veio a tamanha falta de credibilidade que a revista tem em função de sua parcialidade descarada.

Decisão irrevogável

Nem mesmos os senadores e deputados da esfacelada direita usam a revista como parâmetro para fazer barulho com o denuncismo da revista Veja. Somente a turma do falido Cansei ainda levanta a voz para dizer bobagens do tipo: ‘Isso é verdade, eu vi na Veja.’

Mas ao revê-la hoje, percebi de imediato que o texto traz um erro logo nas primeiras linhas. A revista deixa a entender que ‘Che’ Guevara havia morrido no dia 8 de outubro de 1967. O que não é verdade. Che foi assassinado um dia depois.

Olhe o que a revista escreveu sobre o depoimento de um dos algozes de Che, Félix Rodríguez. Num cinismo descarado, o algoz diz, a respeito do assassinato de Guevara:

‘As instruções que recebi dos Estados Unidos eram para poupar sua vida (…) A ordem para sua execução veio por rádio, de uma alta autoridade boliviana. Era uma mensagem em código: `500´, `600´. O primeiro número, 500, significava Guevara. O segundo, que ele deveria ser morto. Tentei em vão convencer os militares bolivianos a permitir que ele fosse levado para ser interrogado no Panamá. Eles negaram meu pedido e me deram um prazo. Eu deveria entregar o corpo de Guevara até as 2 horas da tarde. Perto das 11h30, uma senhora aproximou-se de mim e perguntou quando iríamos matá-lo, pois ouvira no rádio que ‘Che’ havia morrido em combate. Naquele momento compreendi que a decisão de executá-lo era irrevogável’ (declaração do algoz ao repórter da revista, Duda Teixeira).

Pouco mais de uma hora e meia depois do anúncio da tal senhora, ‘Che’ seria assassinado com tiros na cabeça, no tórax e nas pernas. Segundo o algoz Rodríguez, Guevara foi executado sumariamente às 13h10, no fatídico 9 de outubro de 1967.

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Jornalista, editor do blog ‘Mídia Alternativa: A Hora e Vez’, Brasília, DF

Todos os comentários

  1. Comentou em 15/02/2009 Marielle Vaz

    Olá, gostaria de saber se vocês podem me explicar o que é Feature no jornalismo?
    Obrigada

  2. Comentou em 15/04/2008 Thiago Sampaio

    Caro Amigos,

    Sou fã do programa e do site de vocês.
    Queria perguntar a vocês o que acham da influência da mídia na economia de modo geral: mercado consumidor, mercado de trabalho e de investimentos.
    Vocês acham que os principais meios de comunicações manipulam as informações de acordo com os seus próprios interesses?

    Obrigado

    Thiago Sampaio

  3. Comentou em 10/10/2007 Paulo de Tarso

    Não, Doutor Bandarra, as minhas palavras abaixo não fazem a justificação do fascismo japonês. Fracassos bélicos ocorrem para quem ousa, mesmo que a divisa reze ‘quem ousa,vence’. Mais emblemático e não menos nefasto foi o sacrifício de toda uma geração de jovens ianques no Vietnã, movidos pela duvidosa “american freedom” e que hoje outros meninos e meninas matam e morrem no Iraque (Iraq Freedom!) por barris de petróleo em troca de um rio de sangue. Quando chegar o tempo em que eles comecem a isolar a pretensa Amazônia Internacional, já detectada por vários estrategistas e estudiosos em geopolítica, encontraremos a triste quinta coluna tupi com seu comitê de boas vindas ao Império. E talvez alguns avatares de Zumbi,Araribóia,
    Anita Garibaldi e outros heróis que não fugirão à luta.

  4. Comentou em 10/10/2007 Paulo de Tarso

    Brilhante Dr .Bandarra,longe de contestar sua erudição,continuo afirmando que a direita iconoclata (ou vandalismo intelectual?) que o sr. representa nunca se volta para as formas reais de injustiça,pois com certeza envolveriam seus privilégios de classe. Preferem ataques aos mortos que parecem bem vivos. Fascistas perseguem o conceito de liberdade de credo,assim como os totalitários de esquerda,é a mesma velha intolerância,semelhante a sua.

  5. Comentou em 10/10/2007 Paulo Bandarra

    ‘Quando o Che foi assassinado, no mato boliviano, tinha dois Rolex. Um, modelo GMT Master, era dele. O outro, marcado com um X, era uma lembrança que tirara do pulso de um combatente agonizante. (O índice de com-Rolex dos guerrilheiros cubanos na Bolívia era de 12%, certamente um dos mais altos do mundo.)’ ELIO GASPARI. Pelo menos dá para saber que os similares produzidos pela Rússia e China comunistas não eram considerados confiáveis aos olhos dos guerrilheiros!

  6. Comentou em 09/10/2007 Paulo de Tarso

    Lá vem o nosso Médico,que é de direita,mas é ateu;atropela o conceito de liberdade religiosa,tripudiando de xiitas e católicos, porém diz que Fidel é um monstro… Che para esse senhor era apenas um bin laden vermelho,e os homens da Bomba no Japão salvadores da Humanidade,os representantes da maior civilização que o planeta já viu…(EEUU).
    Como dizia o bruxo do Cosme Velho’as contradições são deste mundo.’

  7. Comentou em 09/10/2007 Alice Góes de Paula

    Bandarra, o patrulhador-mor do OI, sempre a postos! Que sectarismo é esse que está surgindo no Brasil? Revisionista, oportunista, mistificador. Vive de factóides anti-esquerdistas, não problematiza nada, nem se interessa em ir ao cerne das questões. Defende ardorosamente quem critica a esquerda, mas se omite de questionar as incoerências da direita. Insiste numa guerra ideológica superada, anacrônica. Aff, vade retro!

  8. Comentou em 08/06/2005 Anderson Brandão

    Acredito que os servidores devem sim, denunciar falcatruas em orgãos públicos. Quero deixar claro que também acredito que a mídia não deve revelar jamais sua fonte, como no caso do garganta profunda. Escândalo Water Gates que culminou na renuncia do presidente Richard Nixon. Para a mída é mais interessante preservar suas fontes, deixando esta informação morrer aos envolvidos no meio, mídia impressa no caso. A população cabe somente o acesso À informação e mesmo com o concensso do informante, ou mesmo a compra da informação por parte de outro meio de informação. Os jornalistas deveriam agir com mais ética.

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