Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIRCO DA NOTíCIA > CASO FRANCENILDO

Inventário dos nossos erros

Por Carlos Brickmann em 03/04/2006 na edição 375

O grande jornalista José Roberto Alencar enviou-me um preciso bilhete a respeito da reportagem que tornou público o extrato bancário do caseiro Francenildo. ‘Carlinhos, fosse meu, o texto teria começado assim: `Dois jornalistas divulgaram a prova de um crime – um extrato bancário obtido fraudulentamente – mas confundiram-se com a autoria (nos dois sentidos)´’.


Alencar tem razão: se o caseiro fez algo errado, violou uma lei. Os responsáveis pela quebra e divulgação de seu sigilo bancário violaram as garantias constitucionais, patrimônio de cada um de nós. A proteção da fonte é essencial, mas sua função é evitar que os informantes sejam perseguidos. Não é, em hipótese alguma, um artifício para acobertar criminosos.


Nosso jornalismo não falhou apenas aí. Não investigou a fundo a história contada pelo empresário que, segundo o caseiro, é seu pai biológico. É uma história interessante: se Nildo falou a verdade, fica ainda mais claro que, ao divulgar seu extrato, a reportagem deixou de lado um tema importante, a explicação da origem do dinheiro. Se o empresário falou a verdade, o caseiro o extorquiu; e suas declarações, inclusive as que envolvem o ministro, devem ser vistas com cautela.


Nosso jornalismo falhou outras vezes. Até agora não indicou, por exemplo, quem entregou o extrato bancário à reportagem. Houve acusações ao assessor de imprensa de Palocci, Marcelo Netto; mas sempre desacompanhadas de provas.


Não é tão difícil. Um bom repórter, com trânsito nos meios bancários, traça o roteiro do extrato em poucos minutos. O prazo enorme que o governo pediu para investigar só serve para uma coisa: tentar montar uma história mais aceitável.




Teje @ preso!


E o computador portátil da Caixa Econômica Federal, aquele que foi usado para violar o sigilo de Nildo, e que em seguida foi passear? Pois é: o notebook foi descansar alguns dias em São Paulo, e voltou preso para Brasília. Preso mesmo, com escolta e tudo. Foi injusto: o notebook era desnecessário. O sistema de computação da Caixa Econômica Federal tinha todos os dados guardadinhos no arquivo.




Volta, Stalin!


Há certos temas que não podem passar em branco. Na capa da caixa ‘Capitol volume Z’, dos Beatles, os cigarros de John Lennon, Paul McCartney e George Harrison foram apagados. O argumento é comercial: a reprovação ao fumo é cada vez maior no Reino Unido, e os cigarros seriam politicamente incorretos.


Traduzindo: a capa foi digitalmente falsificada. Por melhores que sejam os motivos (e este colunista detesta cigarros), é uma capa falsa. Lembra aquelas fotos da União Soviética, em que os dirigentes que caíam em desgraça eram apagados das fotos oficiais. Falsificar a verdade num meio de comunicação – e tanto o disco como sua capa são media – é inaceitável. Na opinião deste colunista, Lennon, Harrison e McCartney tinham um hábito deplorável, o de fumar. Mas esse hábito existia, e não pode ser ocultado. Ou teremos também de mudar o título de ‘Lucy in the sky with diamonds’, para ocultar a referência ao LSD?




Crítica à imprensa


A deputada petista Angela Guadagnin se queixa da imprensa pela excessiva exploração de seus saracoteios no plenário. A nobre parlamentar não tem razão: primeiro, o plenário de uma casa legislativa é local para debater e votar, não para sassaricar; segundo, seu gesto se tornou um símbolo. Quando o astronauta Yuri Gagarin disse que a Terra é azul, não expressou nada de muito profundo; quando outro astronauta, Neil Armstrong, disse que era um pequeno passo para ele, mas um grande passo para a Humanidade, não criou nenhum primor literário. Mas ainda hoje, tantos anos depois, suas frases simbólicas continuam lembradas.




Não é bem assim


De um grande jornal, na internet: ‘O título de nota enviada nesta manhã informou incorretamente que uma pedra havia caído e matado um operário. O trabalhador foi ferido mas não morreu’. E o repórter, gente? Não sabe a diferença?




Da série ‘E eu com isso?’


De outro jornal: ‘Isabel Fillardis curte inauguração de pizzaria com o marido’.




Quem entende?


1. Título de um grande portal: ‘Messe Frankfurt realiza Musikmesse na Alemanha com participação de 15 empresas brasileiras’. O título, para quem não fala alemão, significa que a empresa Feira de Frankfurt, dona do gigantesco salão de exposições da cidade, promoverá uma Feira de Música. Ufa! Este colunista teve de recorrer à competente jornalista e amiga Bia Bansen, que die Deutsch spricht (e, quando fala português, até dobra os erres, igualzinho ao ministro Mantega, só que com muito mais charme), para traduzir o título.


2. De um portal de internet: ‘Presidente do Uruguai comparece ao sepultamento de desaparecido’.


3. De outro portal de internet: ‘Ao lado do marido indiano, Elizabeth Hurley exibe decote’. Curiosíssimo: qual a relação entre o decote e a nacionalidade do marido? E, naturalmente, não é o decote que Elizabeth Hurley exibe. Aliás, seria mais apropriado dizer que o decote é que exibe Elizabeth Hurley.




Como é mesmo?


Primoroso: um dos grandes portais da internet, ao anunciar a prisão de uma libanesa suspeita de participação em atos de terror, declarou que ela poderia estar envolvida no assassínio do primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin. Na verdade, o primeiro-ministro a que se refere a notícia é o do Líbano, Rafic Hariri.


Mas, enfim, é tudo Oriente Médio. Quem é que sabe a diferença?

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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