Segunda-feira, 25 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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CIRCO DA NOTíCIA > PALAVRAS PROIBIDAS

Isso não *ode

Por Carlos Brickmann em 11/01/2005 na edição 311

A história é uma delícia: o Chicago Tribune, numa reportagem sobre a palavra ‘cunt’ (palavrão que designa o órgão sexual feminino), resolveu fazer um título de duplo sentido. Saiu ‘You c_nt say that’ – algo como ‘você não pode dizer isso’. Aí veio aquela coisa típica de jornal: primeiro a matéria foi impressa e depois discutida na reunião de pauta, que a vetou. Resultado: editores e repórteres de primeira linha do Chicago Tribune, mergulhados em centenas de milhares de jornais, retirando de um por um o caderno condenado e colocando outro, menos controvertido, em seu lugar.

Deu galho, claro: não foi possível retirar o ‘cunt report’ de todos os jornais. O Chicago Tribune pediu desculpas aos leitores que receberam a matéria proibida e aos demais, que receberiam de novo o caderno que a substituiu. A propósito, não foi o próprio jornal que revelou a história toda: foi o Wall Street Journal, numa reportagem muito engraçada.

Cada país é um país, claro. Lá eles recolhem o jornal. Aqui, depende: na Folha, o editor Hélio Pompeu certa vez parou a rodagem para trocar um título feito por seu sobrinho, o brilhante Renato Pompeu, a propósito de um ovo gigante, de 160 gramas: ‘E a galinha penou’. A mesma empresa, quando um deputado do PCdoB foi apanhado em flagrante com uma policial (casada, aliás, e com outro policial), permitiu que Notícias Populares desse a manchete histórica: ‘PCdoB mete o pau na repressão’.



Quem é quem

A Folha de S.Paulo foi a primeira a divulgar a formação da holding Folha-UOL, da qual 21% pertencEm à Portugal Telecom. Foi uma matéria boa, considerando-se que quem a publicou foi o principal interessado. Os outros jornais publicaram a mesma coisa, só que mais tarde. A grande reportagem até agora não saiu: por que a venda de parte do controle da empresa, qual o interesse de uma empresa de telecomunicações em ter uma editora de jornais, qual o montante da transação. Como é que se fala de uma operação de compra e venda sem mencionar os valores envolvidos?



Os americanos, claro

Até que demorou: o semanário direitista egípcio al-Usbu identificou os culpados pela onda gigante. Os americanos, claro; e os israelenses, claro. Ambos, informa o al-Usbu , uniram-se à Índia (que, por se inimiga do Paquistão, é considerada também antimuçulmana) e fizeram um teste atômico submarino que provocou o tsunami. Adverte o jornal: ‘Os três países se preparam para aniquilar a Humanidade’.

Claro que os EUA e a França já cansaram de explodir bombas atômicas no mar, nos atóis de Eniwetock, Bikini e Mururoa, sem nenhum tsunami e com um só maremoto, a roupa de banho que ganhou o nome de biquíni. E daí? Já não publicaram (no Brasil!) que Israel desenvolveu uma bomba capaz de distinguir israelenses de palestinos, e matar apenas os palestinos?



Preciosidades

O jogo do jornalismo é duro. E veja, tudo saiu em uma só semana!

1. Uma revista usou as palavras ‘exitou’ e ‘descançou’ e ainda as atribuiu a um mestre do jornalismo. E como é que ele vai se defender?

2. Outra revista, especializada em armas, fala na capa em ‘percursso’. Ô, gente! Faltou a cedilha nos dois ‘esses’!

3. Esta é de um jornal importante: ‘Liminar pede que colégio continue aberto’. Veja só: este colunista é do tempo em que sentença judicial não era pedido, era ordem.

4. Também de publicação importante: ‘Google Library’, ou Biblioteca do Google, é traduzida como ‘Livraria Google’. Library é aquilo que se chama de ‘falso cognato’ de livraria: as palavras são parecidas, mas não querem dizer a mesma coisa.

5. Por falar em falso cognato, veja que título curioso saiu na Folha: ‘Lesão cerebral na amígdala (…)’ O texto explica: ‘amígdala’, além de ser aquela campainha no fundo da garganta, é o nome de uma área do cérebro.

6. A modelo inglesa Naomi Campbell é apresentada como ‘americana’. Pior: numa publicação que tem tempo para corrigir esses erros.

7. E agora, a melhor de todas: ‘Após afetar o fornecimento de energia durante cerca de duas horas, terminou o blecaute que atingiu desde o final da tarde de hoje todo o Estado do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, além de cidades de Minas Gerais’. Antigamente, blecaute era medida de defesa contra bombardeios, apelido de um grande cantor negro e conseqüência de falta de energia (do inglês black-out). Desde quando blecaute virou causa do mau fornecimento de energia?



Fato e opinião

Esta é brava: não apenas a notícia é velha, de mais de um mês, como o repórter abre a matéria não com os fatos, mas com sua opinião. É o seguinte: há tempos, algum hacker conseguiu colocar no Google a associação entre ‘déspota cachaceiro’ e o presidente Lula. Brincadeira boba e que, além de tudo, não era original: algo semelhante já havia sido feito com os presidentes americanos Bill Clinton e George W. Bush. Um grande jornal eletrônico só agora descobriu que Colombo chegou à América e inicia a matéria com a seguinte frase: ‘São Paulo – Lula deveria imediatamente entrar com um processo contra o Google’. Depois da opinião, segue-se a notícia velha. E o erro não foi de um só: houve chamada de primeira página!

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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