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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CIRCO DA NOTíCIA > GREVES OPERÁRIAS

Luta por condições mínimas

Por Mauro Malin em 27/12/2012 na edição 726

O Estado de S. Paulo forçou a barra ao somar dias de greve de três diferentes obras para “totalizar” seis meses de paralisações nas obras da hidrelétrica de Belo Monte e da refinaria Abreu e Lima e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, Comperj (manchete de quarta-feira, 26/12).

Há muitos e muitos anos foi identificada uma “tara” dos jornais, instigada pelo advento da televisão, que usa e abusa da imagem para dar um tom sensacionalista ao noticiário: consiste em dar manchete mesmo quando não há o que jornalisticamente a justifique.

A digna exceção era a Gazeta Mercantil, com sua estética vetusta, mas ela não sobreviveu. Seu sucessor, o Valor, tem uma diagramação de primeira página que força a publicação de manchete, quase sempre na medida de três colunas (num total de cinco). É uma camisa-de-força gráfica, como tantas outras que parecem ser um mal necessário porque organizam o projeto da edição cotidiana.

Todos esses jornais dependem muito pouco da venda em banca. Portanto, não disputam espaço, não são obrigados a exibir títulos que gritem.

Em 2008, cesta básica de R$ 25

A manchete do Estadão conduz a um conjunto de reportagens interessante, não obstante o malabarismo aritmético que a engendrou (somar tudo é a maneira como tecnicamente se contam os dias de greve, mas a lógica jornalística é diferente). É uma janela para visualizar processos sociais que marcam e são marcados pela democratização do país iniciada há mais de trinta anos.

Ironias da história: após quatro mandatos de governos chefiados por personagens das greves do ABC que mudaram a organização dos trabalhadores e da vida política — Fernando Henrique Cardoso, apoiador, e Lula, o líder —, operários precisam entrar em greve, acompanhadas de quebra-quebras, em vários casos, para conquistar, se tanto, um mínimo aceitável de direitos.

Na obra da refinaria, uma das reivindicações foi o aumento da cesta básica, que valia R$ 25 há quatro anos. O jornal se apegou à porcentagem de aumento que conduziu esse valor a R$ 260: 940%. Não teria sido mais esclarecedor informar o que era possível comprar com o valor original?

Longe da família

Outra pauta que o Estadão ficou devendo tem relação com o intervalo entre visitas à família permitido pelas empresas: em Belo Monte, era de 180 dias. O que acontece com uma família que fica seis meses sem o homem ou a mulher da casa? Os trabalhadores conseguiram reduzir o tempo de ausência para três meses.

Teria sido sugestivo, também, fazer um apanhado das trajetórias profissionais de alguns operários, especialmente os que orgulhosamente se intitulam barrageiros. Quem saiu da lavoura, da construção civil, de outras obras públicas. Quem foi recrutado na região da obra. Saber que a maioria é trazida de fora indica a existência de vazios demográficos, ou, mais precisamente, dá ideia da geografia da oferta de mão de obra com as qualificações mínimas requeridas.

Apenas se conseguem entrever disputas sindicais que compõem o cenário dos movimentos reivindicatórios. O líder mais graduado ouvido pelo Estado é Paulo Pereira da Silva. “Vai haver muita confusão nas obras do PAC em 2013”, diz o presidente da Força Sindical.

Até o advento da era Lula, que agora encerra seu décimo ano, a CUT estaria disputando a primazia. Mas sindicatos onde o PT e o PC do B são hegemônicos não seguem os preceitos aprovados no Encontro Sindical Nacional petista de abril: as organizações não deveriam aceitar “ser transformadas em ‘correia de transmissão’ da ação partidária ou estatal”. Entretanto, aceitam. E, cá entre nós, prazerosamente.

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