Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CIRCO DA NOTíCIA > LEITURAS DE VEJA

Malandro demais se atrapalha

Por Fernando Soares Campos em 09/10/2007 na edição 454

A revista Veja (edição 2022, de 22/08/2007) publicou uma ‘pesquisa’ cujo propósito seria ‘…verificar a percepção dos brasileiros em relação às diferentes cores de pele’. A revista informa que ‘…o autor da pesquisa submeteu os entrevistados a um questionário em que eram apresentadas fotografias de brancos, negros e pardos. As pessoas tinham de associar atributos positivos e negativos aos indivíduos retratados’.

Eis o resultado:

** Inteligência: Brancos (42%), Negros (22%) e Pardos (10%)

** Honestidade: Brancos (30%), Negros (26%) e Pardos (14%)

** Modos educados: Brancos (44%), Negros (22%) e Pardos (9%)

** Preguiça: Brancos (35%), Pardos (23%) e Negros (9%)

** Criminalidade: Pardos (29%), Negros (16%) e Brancos (8%)

** Malandragem: Negros (23%) Pardos (22%) e Brancos (15%)

Diante disso, pergunto eu aqui, fazendo pesquisa como o tal sociólogo: se as fotos fossem expostas num estande de tiro, no lugar dos alvos, qual delas viraria peneira?

Porém, vamos analisar a tal ‘pesquisa’ que a Veja nos apresentou. Vejamos a correlação entre esses três itens:

Inteligência: Brancos (42%), Negros (22%) e Pardos (10%)

Preguiçoso: Brancos (35%), Pardos (23%) e Negros (9%)

Malandro: Negros (23%) Pardos (22%) e Brancos (15%)

Só na chibata!

Agora vamos abrir o Houaiss e os aurélios em geral. Se considerarmos ‘malandro’ interpretando apenas através de algumas de suas acepções, como, por exemplo, ‘que ou aquele que não trabalha, que emprega recursos engenhosos para sobreviver; vadio’ ou ‘que ou aquele que leva a vida em diversões, prazeres’, ou ainda ‘que ou aquele que tem preguiça; mandrião, indolente’, então os negros deveriam estar na frente dos brancos no item preguiça, preguiçosos disparados! Pois foram considerados ‘malandros’. E malandro aqui é sinônimo de vadio. No entanto, os negros aparecem como menos preguiçosos, e com uma diferença gritante: Brancos, 39% preguiçosos x Negros, apenas 9% indolentes.

Se considerarmos outros significados da palavra ‘malandro’, como aquele que é ‘sagaz, arguto, dotado de sagacidade; perspicaz, fino; que não se deixa enganar; esperto’, aí, então, por mais que queiramos dissociar essas qualidades da ‘inteligência’, não podemos. Inteligente e otário não combinam numa mesma pessoa. E os negros, neste caso, deveriam estar ganhando no item ‘inteligência’, pois ganham em ‘malandro’; portanto, considerando-se este significado da palavra, seriam muito mais inteligentes que os brancos.

Acontece que, ao invés de perguntar qual o mais ‘laborioso’, o sujeito preferiu perguntar qual o mais ‘preguiçoso’, do contrário ficaria difícil associar os negros ao ‘malandro’. Sim, claro, se são os menos preguiçosos, teriam ganhado como os mais trabalhadores, lógico! Então seria como dizer que um diligente trabalhador poderia ser o ‘malandro’ que agora está escondendo o jogo. Aí, só vai na chibata! Certamente a pergunta sobre preguiçoso está relacionada àquelas primeiras conotações de ‘malandro’, as que concluem em ‘vadio’. Portanto, o ‘malandro’ também está relacionado ao ‘vadio’, ao ‘preguiçoso’. Se o tal pesquisador tivesse perguntado qual o mais trabalhador, então ganharia o negro, pois a tal ‘pesquisa’ indica que são os ‘menos preguiçosos’.

‘Honestidade’ na redação

Malandro, no sentido de ‘sagaz, arguto, dotado de sagacidade; perspicaz, fino; que não se deixa enganar; esperto’, é o que o negro, na nossa sociedade, muitas vezes é obrigado a ser; pois, sem isso, a maioria dificilmente sobreviveria. A malandragem do negro se diferencia daquela do branco, que sempre teve o poder da grana que ergue e destrói coisas belas (favor ouvir Homenagem ao Malandro, Chico Buarque).

Malandro no sentido de ‘que ou aquele que não trabalha, que emprega recursos engenhosos para sobreviver; vadio’ ou ‘que ou aquele que leva a vida em diversões, prazeres’, ou ainda ‘que ou aquele que tem preguiça; mandrião, indolente’, isso ficou ‘provado’ que é o branco, pois aparece como o mais ‘preguiçoso’.

Bom, pelo visto, se o item ‘honestidade’ fosse feito entre os que fazem a revista Veja, provavelmente os brancos perderiam para os negros de nove a zero, pois na redação da Veja devem existir, pelo menos, 10% de negros. Idem para a questão ‘modos educados’. Quanto a ‘criminoso’, prefiro deixar por conta da Justiça.

Mas que paradoxo!

Eu disse ‘paradoxo’? Bom, foi só um eufemismo. É malandragem mesmo!

Pois todo mundo sabe: malandro demais se atrapalha.

******

Escritor, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/10/2007 Fernando Soares Campos

    1 – Oh, meu Deus! Patrícia, é evidente que os pesquisados não “…tiraram um Houaiss de debaixo do braço a cada pergunta e fizeram um longo debate intelectual interno para decidir qual significado seria ético-filosófico-social-politicamente mais correto”. Este cuidado caberia ao pesquisador. Ele deveria saber que as respostas se fundamentam no significado que predomina no entender de cada pesquisado. Eu perguntaria: “o que você quer dizer com ‘malandro’ “, mas, quantos perguntariam? Creio que muito poucos. E por que eu perguntaria? Porque já debati sobre isso em diversas regiões do País, exatamente sobre a palavra “malandro”, em rodas de botequim e entre acadêmicos, onde, de enxerido, me meti. E é aí que entram os significados “…que o povão acredita que têm as palavras usadas na pesquisa”.

  2. Comentou em 12/10/2007 Fernando Soares Campos

    1 – Oh, meu Deus! Patrícia, é evidente que os pesquisados não “…tiraram um Houaiss de debaixo do braço a cada pergunta e fizeram um longo debate intelectual interno para decidir qual significado seria ético-filosófico-social-politicamente mais correto”. Este cuidado caberia ao pesquisador. Ele deveria saber que as respostas se fundamentam no significado que predomina no entender de cada pesquisado. Eu perguntaria: “o que você quer dizer com ‘malandro’ “, mas, quantos perguntariam? Creio que muito poucos. E por que eu perguntaria? Porque já debati sobre isso em diversas regiões do País, exatamente sobre a palavra “malandro”, em rodas de botequim e entre acadêmicos, onde, de enxerido, me meti. E é aí que entram os significados “…que o povão acredita que têm as palavras usadas na pesquisa”.

  3. Comentou em 11/10/2007 Dilma Alves

    Olá, Fernando…
    Vc como sempre emitindo muito bem a sua opinião…
    Como vc tb acho um absurdo esse tipo de pesquisa, pois reforça a discriminação e o preconceito.
    Um abraço

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