Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > LEITURAS DE ‘VEJA SÃO PAULO’

Médicos, pacientes e curandeiros na grande enfermaria da Ilha Fiscal

Por Alberto Dines em 19/05/2015 na edição 851

Sucesso editorial ímpar, a Vejinha – o encarte de serviços que circula na Paulicéia e em outras praças do país – raramente ultrapassa os limites que se impôs. Às vezes, porém, o material colhido é tão rico, tão bem escrito e documentado que mereceria estar na revista-matriz.

É o que aconteceu com a edição de 20/5 e a reportagem “Ah, se esse altar falasse” (págs. 28-30), primorosa peça mundana, elegantemente irônica, que os comentaristas políticos dos jornalões adorariam ter escrito se tivessem liberdade para tirar a política da redoma onde foi enfiada e mofa, ininteligível.

Na realidade, comemorava-se uma relação que, embora discutida todas as noites, resiste impávida há dez anos protagonizada pelo famozérrimo cardiologista das zelites, consultor terapêutico e espiritual dos alérgicos e gripados, Dr. Roberto Kalil, com a estrelíssima endocrinologista Dra. Cláudia Cozer.

Compareceram ao suntuoso Leopolldo, no nova-iorquino bairro do Itaim-Bibi (a Ilha Fiscal da Paulicéia Desvairada), nossa magérrima presidenta, o neo-obeso ex-presidente, chefes do Legislativo, cochichando com a mão na boca como manda o figurino global, governador, ex-governadores, prefeito, ex-prefeitos, ministros palacianos e de segunda linha com crachás porque ninguém lembra os nomes, também ex-primeiras-damas de diversas esferas e poderes, extraordinariamente assemelhadas. Convidado, Roger Abdelmassih não compareceu.

Festança histórica

Esquerda, radicais, centro-direita, milicianos da Opus Dei abraçados a evangélicos, católicos de diferentes ordens irmanados num evento civilizado, rigorosamente ecumênico e sincrético, verdadeira união nacional para exibir a estabilidade das nossas instituições e o insuportável vazio de Brasília.

La creme de la creme, a nata dos pacientes que sem recorrer ao SUS sobreviveram a cirurgias, safenas, dietas, lipos, liftings etc., etc., desfilando numa passarela e exibindo orgulhosamente suas radiografias e ultrassonografias para comprovar os respectivos milagres.

Os que não sobreviveram, apesar do atendimento de primeiro mundo, pediram desculpas pela ausência por força maior e/ou foram atendidos pelo médium-curandeiro João de Deus, um dos mais assediados da festa (segundo informam os repórteres Alecsandra Zapparoli e Daniel Bergamasco).

Alguns celulares desapareceram, felizmente desativados. Ninguém foi revistado. A turma da Lava Jato descansa num resort de Curitiba. Em compensação, as más línguas estiveram ativíssimas durante toda a noite e por meio delas soube-se de novidades que o Jornal das Dez da Globonews jamais poderia apresentar. João de Deus garantia aos presentes e ausentes que tem mais pacientes do que os nubentes juntos, não raro é visto nas salas de cirurgia e consultórios brandindo um bisturi, just in case.

A histórica festança custou a bagatela de 1 milhão de reais, porém valeu. Exibe a pujança da nossa medicina e a nossa capacidade de dispensar os médicos cubanos, únicos responsáveis pela epidemia de dengue.

Saravá.

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