Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1034
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Mudar é ruim?

Por Fernando Schweitzer, de Buenos Aires em 10/02/2009 na edição 524

Às vezes, pensamos que uma mudança é algo ruim. Em entrevista a uma revista mato-grossense e compilada pelo portal Na Telinha, a autora de Chamas da Vida me fez reflexibilizar este pensar sócio-normativo de que uma mudança sempre é algo ruim. A ex-autora global, que emplaca por primeira vez uma trama assinada solo, está causando frisson entre a cúpula da Rede Record e no Ibope.

Durante a entrevista, Cristianne Fridman também admitiu que toma cuidado com a dosagem que vem dando à novela que iria ao ar às 21h, porém, devido ao prolongamento do projeto de Caminhos do Coração, acabou sendo deslocada para as 22h, trazendo algumas mudanças na sinopse, que era mais leve. Temas como pedofilia e o HIV se tornaram temas centrais de alguns capítulos. Em muito colaboraram para o êxito da trama e são responsáveis por picos de índices.Gosto de pensar que de vez em quando a mudança pode ser positiva, partindo do prisma d a segurança falsa que muitos utilizam para argumentar a favor que as coisas sejam estáticas. O movimento estático da sociedade é um mal congênito, ou melhor, a falta de mobilidade social e dos indivíduos da sociedade chega a ser cruel arma contra a evolução do ser humano.

O abjeto fugaz que a TV mundial se tornou é um reflexo no cotidiano. Aqui na Argentina muito se critica a mega-industrialização dos produtos de entretenimento. Uma crítica que tem surgido – e não sei se posso opinar com propriedade – é de que os desenhos e séries americanas, por exemplo, são dublados em um dito’espanhol neutro’ e as crianças estão começando a não falar o espanhol argentino, mas sim, um outro espanhol.

Mudar de canal, às vezes faz bem

Me parece salutar quando um produto de mídia de massa vai além do’preencher o horário’. Como quando a polêmica Vidas Opostas inundou o Brasil com doses de realismos nunca vistos na TV do país. Mostrar e filmar em uma favela foi um dos milhares de pontos em favor da trama.

Pois – como o espanhol padrão que preocupa nuestros hermanos por descolar da realidade particular da cultura do país em questão – no Brasil as favelas de mentira, sem miscigenação e pobreza, deveriam ser uma preocupação e fator para debates das tais entidades e ONGs que dizem defender a cultura do país. Baianos que, interpretados por péssimos atores de’teste de sofá’, falam como maranhenses, outros como pernambucanos e quiçá com sotaque do Rio de Janeiro. Esses últimos geralmente são os’não-atores’ do momento. Jamais me esquecerei da novela Da Cor do Pecado, na qual Taís Araújo fazia uma maranhense que nunca havia saído na vida da cidade de São Luiz, pasmem, e tinha sotaque rasgado de carioca. Ou seja, o sotaque da atriz estava em cena, não o da personagem. Caberia um pedido do estado do Maranhão em nota de imprensa rechaçando este ocorrido contra a cultura de seu estado, no mínimo.

Cristianne em sua tele se sai bem, pois além de realismo e temas de interesse ao público, traz honestidade em seu trabalho. A maior prova de que existe fidelidade ao que a trama se propõe é seu sucesso absoluto no Rio, como não me faz mentir esta nota da Folha On-line:

‘Segundo os índices da última quarta (28/01), a novela de Cristianne Fridman bateu o Campeonato Carioca, exibido pela Globo, e liderou de forma isolada. Enquanto Carolina, de Juliana Silveira, e os outros empregados da fictícia G&G Sorvetes tentavam escapar de mais um incêndio criminoso, a Record emplacava 25 pontos de média com 28 de pico.

Na faixa entre 22h01 e 22h59, Madureira x Fluminense ficou em segundo lugar, com 23 pontos.’

Os cariocas se reconhecem na tela desta trama, realmente. E algo seria bom que muito mais gente reconhecesse, que mudar nem sempre é ruim. E mudar de canal, às vezes faz bem. Para a autora de Chamas da Vida já fez.

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Ator, diretor teatral, cantor, escritor e jornalista

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