Terça-feira, 18 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1018
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CIRCO DA NOTíCIA >

Nelson de Sá

20/04/2004 na edição 273

‘A Globo News entrou com a história à meia-noite:

– Corpos de garimpeiros são encontrados em Rondônia.

O que na semana havia soado como fantasia de garimpeiros ganhava contorno de chacina, com dezenas de corpos.

Para a Globo News, ‘é um dos maiores massacres da região, onde garimpeiros e índios estão em conflito por causa de jazidas de diamante na reserva, as maiores do Brasil’.

A informação foi da Polícia Militar de Rondônia. De manhã, a Polícia Federal não acreditava, ainda. Na estatal Agência Brasil, o superintendente da PF em Rondônia tratava a notícia por ‘especulação’:

– A PM não tem autorização para atuar na área.

Não era especulação, como a Funai afirmou depois, na Globo, dizendo ter encontrado ‘por volta de 20’ corpos.

A emissora reafirmou que por trás do conflito está a ‘disputa por uma mina de diamantes descoberta em 2001’.

Agências registraram que, se por um lado os garimpeiros atuam ilegalmente na reserva, por outro existem caciques que enriqueceram cobrando pelo acesso aos diamantes.

Na semana, jornais de todo o mundo deram a informação dos garimpeiros de que até 35 deles teriam morrido, mas também a notícia da tortura de um índio pelos garimpeiros.

Sites ambientalistas foram além e responsabilizaram Lula. Do Oneworld.net:

– Violência explode no Brasil enquanto o governo Lula trai os povos indígenas.

Para a ONG Survival Int., em declaração registrada pela BBC Brasil e por vários sites:

– Apesar de compromissos claros na campanha eleitoral, de defender os direitos dos índios, Lula não enfrentou problemas graves que agora levam a uma explosão dos confrontos.

Mas a Survival não cedeu, quanto aos índios. Os mesmos garimpeiros mortos seriam ‘responsáveis pelo assassinato de muitos índios cinta-larga em 2003, na reserva’.

E o índio torturado só estaria vivo por causa da ‘intervenção da polícia’.

Às vésperas do Dia do Índio, correm pelo mundo notícias em favor dos indígenas brasileiros. O ‘Washington Post’ publicou uma extensa reportagem sobre o suicídio dos kaiowás.

Relatou o mais recente deles, de Jaqueline, 13:

– Ela brincava com o irmão bebê, cantava enquanto lavava os pratos. Mas então, antes do meio-dia, Jaqueline subiu em sua cama, prendeu uma corda de nylon no teto e em volta do pescoço. E pulou.

O suicídio recorrente dos kaiowás, segundo o jornal, se deve à tomada de suas terras por posseiros.

SOLDADO BUSH

George W. Bush nunca foi a uma guerra, mas já pode dizer que pegou em armas, pelo menos virtualmente. O site miniclip.com, apoiado por comerciais republicanos, tem como destaque o game ‘Bush Shoot-Out’. A fase inicial traz o presidente sozinho na Casa Branca, reagindo com metralhadora à invasão por terroristas.

A publicidade de sua campanha, que surge colada ao game, como destacou o ‘Washington Post’, mostra o democrata John Kerry supostamente defendendo ‘abandonar os soldados’ dos Estados Unidos no Iraque.

Nova Jersey

A revista ‘Época’ encontrou a ex-ministra Benedita da Silva em Nova Jersey (EUA), onde ela estuda inglês e fala a grupos evangélicos locais. Sobre o caso Waldomiro, declarou:

– Acho que está tudo muito esclarecido, principalmente no que diz respeito a mim. Ele já era do quadro do governo (do Rio, quando ela assumiu). O assunto está encerrado.

Não caiu

A revista ‘Veja’ diz que uma pesquisa feita na última semana mostra que, ‘pela primeira vez desde janeiro, a popularidade do presidente Lula não caiu’.

Plano de ataque

A agência Associated Press, na sexta, estragou a festa que o ‘Washington Post’ e a rede CBS haviam preparado para hoje, para o novo livro do jornalista Bob Woodward (de Watergate) sobre George W. Bush, ‘Plan of Attack’, plano de ataque.

O ‘Post’ correu para adiantar, ontem, trechos do livro. E a CBS deu na sexta partes da entrevista de Woodward ao ‘60 Minutes’, que vai ao ar hoje.

Mas a AP já tinha informado ao mundo a revelação que mais importava -que Bush pediu um plano de invasão do Iraque logo após o 11/9 e que o esforço diplomático na ONU não teria passado de jogo de cena.

Conspiração

A oferta da União Européia ao Mercosul, de favorecimento na compra de produtos agrícolas, abriu uma barragem de pressões ainda não muito claras.

O ‘Financial Times’ atacou, em reportagens e editorial. Em seguida, reportagens e editorial da revista ‘The Economist’ ecoaram que é golpe da UE para manter seus subsídios agrícolas nas negociações da Organização Mundial do Comércio.

Para a revista, ‘o Mercosul conspira com a UE’.

Propostas

Segundo a Agência Brasil, as propostas de UE e Mercosul vão ser apresentadas publicamente hoje, em Buenos Aires.

Reação

Os EUA reagiram às conversas UE/Mercosul convidando Brasil e outros para retomar em nível ministerial as negociações sobre produtos agrícolas na OMC.

Segundo o indiano ‘Economic Times’, a Índia avisou que será difícil comparecer. Já a África do Sul confirmou presença, diz o sul-africano ‘Business Day’.

A Índia vem aí

O indiano Deepikaglobal.com noticiou que em junho chega ao Brasil ‘missão de alto nível’ da Índia, para ver ‘oportunidades comerciais e industriais’.’

***

‘Não vale a pena’, copyright Folha de S. Paulo, 16/04/04

‘UOL e Globo Online, depois também o Jornal Nacional, destacaram nas manchetes de ontem:

– Um terço dos brasileiros é miserável.

É o que aponta uma pesquisa de nome Mapa do Fim da Fome. Não é um choque -e pode ser visto até como argumento em favor do Fome Zero.

Mas coincidiu com cenas de impacto na TV. Como milhares de desempregados em revolta depois de ‘um mal-entendido’, segundo a Globo:

– É só correr que a empresa está contratando que a multidão se apresenta. O desespero é tal que no Rio um boato mobilizou milhares.

Passaram toda a noite diante de um canteiro de obras, em busca de supostas vagas para pedreiro e servente. Em outro programa da Globo:

– Duas mil pessoas de várias partes do Estado chegaram à noite e, de madrugada, foram mandados embora. Muitos se recusaram, fecharam a rodovia. A polícia foi chamada.

Não é coisa restrita ao Rio. Em São Paulo:

– Mais de oito mil ficaram horas na fila, em busca de vagas na área de serviços essenciais, como limpeza de ruas.

De volta às estatísticas, o SPTV deu uma pesquisa de transporte metropolitano com ‘um dado assustador’:

– Quase metade das famílias perderam oportunidades de emprego por problemas com transporte. Os maiores são o preço alto e a falta de transporte nos bairros distantes.

Aí vem José Dirceu e, sempre na Globo, diz que ‘sem reduzir as desigualdades não vale a pena governar’.

SANTO EM WALL STREET

Santo Expedito foi parar na primeira página do ‘Wall Street Journal’. Sob o título ‘brasileiros sem emprego, precisando de ação rápida, apelam para santo Expedito’, o vetusto jornal de finanças expôs a veneração no país -em São Paulo e no bairro do Jaçanã em especial.

Falou de Maria Aparecia Pichirilo, dona-de-casa que saiu a campo depois que seu marido foi demitido:

– Após procurar durante semanas, não recebeu uma única oferta de emprego. A senhora Pichirilo teve uma atitude desesperada: rezou para santo Expedito, tido por muitos brasileiros como patrono das causas urgentes. Sem demora, recebeu um telefonema. Uma importadora precisava de vendedor para começar imediatamente.

Reação de Maria Aparecia, segundo o jornal:

– Conseguir emprego no Brasil é quase um milagre.

Escorrendo ironia, a reportagem mostrou que a Igreja Católica até ‘questiona se o santo existiu, mas não o seu apelo de massa’. Já espera 200 mil para celebrar seu dia em São Paulo, segunda que vem, e não vê problema em copiar assim a ‘teologia da prosperidade’ evangélica.

O ‘WSJ’ disse que a devoção começou a crescer nos anos 90 e registrou a visão de um professor de teologia, Lawrence Cunningham, da universidade Notre Dame:

– As pessoas que rezam para Expedito estão menos interessadas em história religiosa do que em encontrar uma âncora na incerta economia global de hoje.

Quarta via

O espanhol ‘El País’ publicou um editorial desencantado com o Brasil, ‘Lula contra o muro’. Deu crédito a Lula, que não é de ‘emparedar problemas’ como queriam na Rocinha:

– Mas sua busca de uma quarta via, que respeitando equilíbrio fiscal trará emprego e crescimento, não produziu, até agora, resultados.

Escolhas

Em meio ao desencanto, Lula terá que decidir entre crescer ou elevar o salário mínimo, para Míriam Leitão, na Globo:

– Governar é fazer escolhas, é bem mais difícil que oposição.

Dividir e unir

O britânico ‘Financial Times’ disse que a União Européia quer ‘dividir e comandar’ com sua proposta ao Mercosul, rachando os países em desenvolvimento quanto à liberalização agrícola.

Mas o jornal acha que a jogada pode servir, no fim, para acordar os EUA para a necessidade de também ceder. (Horas depois a Casa Branca convidava Brasil e outros a negociar.)

Mais México

Chefe do Mercosul, Eduardo Duhalde diz ao ‘La Nacion’ que o México quer para julho sua ‘incorporação plena, no nível de Brasil e Argentina’.

DOENTE

Osama bin Laden enviou gravação à Al Jazira (acima), oferecendo ‘tratado de paz’ à Europa. Num discurso que está em inglês no site Memri. org, ele lembra o americano Unabomber na insana coerência de sua retórica.

Põe-se ao lado dos europeus. Amaldiçoa os EUA pela ‘guerra que dá milhões às grandes corporações, como a Halliburton’, que era dirigida pelo vice de Bush. Chama o 11/9 de Batalha de Nova York. Saudita, diz que a guerra começou com a ‘invasão da península árabe’.

Na Fox, depois, o secretário Donald Rumsfeld voltou a dizer que a cobertura da Al Jazira é ‘doente’.’

***

‘Nenhuma ironia’, copyright Folha de S. Paulo, 15/04/04

‘Depois de uma semana de guerra, Garotinho respirou quando sites e canais de notícia passaram a noticiar a morte de Lulu, o líder na Rocinha. Foi manchete até no JN:

– Chefe do tráfico morre em troca de tiros com policiais.

Mas foi um alívio que já veio carregado de ameaça, ao menos no relato da Globo Online:

– O comércio está fechando as suas portas e o clima é tenso. A polícia começa a se preparar para a reação popular.

O problema é que Lulu, de ‘perfil assistencialista’, era ‘querido pelo moradores’ da comunidade sem Estado.

O secretário de Segurança do Rio havia atravessado o dia todo -e também os anteriores- sob pedidos para sua demissão e até intervenção no Estado.

Segundo a Globo, de manhã, ‘no Congresso, deputados do Rio pediram a intervenção’. Do tucano Eduardo Paes:

– A intervenção federal se faz mais do que necessária.

Na rádio Jovem Pan, mais uma tucana, Denise Frossard:

– O Rio de Janeiro virou uma terra de ninguém. Garotinho é um irresponsável.

No RJTV, regional da Globo, o secretário teria dito que ‘não tem interesse pessoal em se manter no cargo’ -e que, ‘se entenderem que é preciso’, está ‘pronto para colaborar’.

Quanto ao próprio, Garotinho foi a Brasília criticar o governo federal e, de quebra, a Globo. Disse que ‘desde o início’ ele achava que a história ‘não era o que estava sendo retratado’, que uma parte da mídia estava exagerando na cobertura.

Sem mencionar o JN, insistiu que não fez ‘ironia nenhuma’, como descreveu anteontem o telejornal. Dele, na Globo:

– Estão querendo dar caráter político ao que não tem. Tudo foi tratado tecnicamente.

Nem tanto. Dele novamente, dizendo por que pediu milhares de soldados, mas declarou que eles não são necessários:

– Para amanhã não virem acusar Rosinha de ter recusado.

O MÉXICO APÓIA

O chanceler mexicano pode ter passado despercebido ou quase pelo Brasil, mas não para o próprio México. Jornais como o ‘El Universal’ ou ‘La Crónica de Hoy’ destacavam ontem que ‘o México quer se integrar ao Mercosul’, não só como sócio comercial, mas político. Que ‘o México apóia a proposta de Brasil e Argentina para reformar o FMI’. Que ‘o México apóia o Brasil na disputa das inspeções nucleares’. Que ‘o presidente Fox visitará o Brasil em julho para se reunir com Lula’.

A ‘Voz da América’, do governo americano, destacou em especial a declaração do chanceler mexicano de que o Brasil ‘não precisa dar mais nenhuma demonstração de que (o programa nuclear) é para fins pacíficos’.

Quem alimenta?

O Brasil assusta os EUA. Ou pelo menos a Carolina do Norte.

Um jornal regional, ‘News & Observer’, publicou três longas reportagens com o título geral ‘quem alimenta o mundo?’. Resposta: ‘Você pode pensar que somos nós. Tente Brasil’.

Um dos protagonistas locais, para o grande jornal da Carolina do Norte, é o Mato Grosso. É lá que estaria sendo pavimentada ‘a estrada que leva à cesta de pães do mundo no futuro’.

Conseqüências

Do ‘News & Observer’:

– O Brasil já ameaça os EUA como a superpotência agrícola do mundo -acontecimento que poderá ter conseqüências profundas para a América rural.

Para a Carolina do Norte.

Para todos

Segundo o jornal, fazendeiros americanos já seguem para o novo oeste, caso de um tal John Neusch, que saiu de Minnesota para o Centro-Oeste.

Mas um especialista ouvido, enquanto listava as vantagens do Brasil, garantia:

– O que é bom para o Brasil será bom para todos.

Bioceânico

Não é só o governo federal que avança pela América do Sul.

Um jornal regional argentino, ‘El Tribuno’, destacava ontem em manchete o ‘forte impulso para o Corredor Bioceânico’, dado por províncias argentinas, paraguaias e bolivianas, mais o Mato Grosso do Sul.

O corredor deverá articular ferrovias, estradas, rios etc.

Zicosul

Representantes das províncias e estados lançaram ontem, diz o jornal, a Zona de Integração do Centro-Oeste Sul-americano. Zicosul ou Zicosur, no acrônimo original em espanhol.

Liderança

O ‘Miami Herald’ publicou há semanas, mas o argentino ‘La Nacion’ só foi reproduzir ontem um apocalíptico artigo em que o economista Jeffrey Sachs anuncia ‘a decadência dos Estados Unidos’.

Argumento dele, além dos costumeiros (déficit externo, crise orçamentária):

– O mundo está chegando perto. A liderança tecnológica americana diminuirá em relação a Brasil, China, Índia e outros.

GOOGLE x MICROSOFT

Uma ‘guerra’ virtual vem se desenvolvendo nas últimas semanas. O anúncio pela Google, que tem o principal serviço de busca da internet no mundo, de que passaria a concorrer também na faixa de e-mail dominada hoje pelo Hotmail, da Microsoft, iniciou um jogo de pressão que já entra pela política americana.

O ‘Los Angeles Times’ destacava ontem o ‘desafio’ da Google à Microsoft, mas o conflito é notícia há semanas em sites como ‘Wired’ e canais como BBC.

A vantagem do novo e-mail (logotipo acima) é tornar desnecessários serviços de anti-spam. A desvantagem é a leitura das mensagens pelos computadores da Google, para direcionar publicidade nas próprias mensagens.

Em meio ao choque de gigantes entraram grupos de direitos virtuais como o Fórum Mundial de Privacidade e, agora, políticos americanos. O ‘Wall Street Journal’ noticiou ontem que a Google já estuda mudanças.’

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