Terça-feira, 21 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > O ESTADÃO, QUEM DIRIA

Nos braços do achincalhe

Por Alberto Dines em 23/01/2006 na edição 364

Há dez dias consecutivos o repórter especial do Estado de S.Paulo Lourival Sant’Anna, um dos melhores do país, vem sendo alvo de uma sórdida cruzada pessoal desfechada por Nelson Tanure por intermédio do Jornal do Brasil e da Gazeta Mercantil. O Estadão até hoje [segunda, 23/1] não conseguiu acordar da letargia estival que o acometeu e sair em defesa do repórter que publicou em suas páginas uma reportagem amplamente destacada pelos editores [ver ‘JB insiste em campanha vingativa‘]


Apesar desta vexatória omissão, no domingo (22/1) o centenário jornalão entregou-se com visível prazer ao Rei do Achincalhe, Diogo Mainardi.


Faz sentido. A reportagem de página dupla assinada por Melchíades Cunha Jr. – ‘O insuportável Diogo Mainardi’ (pág. D 14) – pretende ser imparcial, isenta, equilibrada. Foi encomendada para parecer objetiva. Não foi. A prova está escancarada logo no primeiro parágrafo, no qual o atilado repórter confessa que submeteu ao entrevistado o título da matéria. E, de quebra, admite que os editores também se submeteram à chantagem.


Pior do que isso: a matéria ‘isenta’ foi ineditamente promovida na nobilíssima Página Dois do jornalão com uma charge produzida pelo desenhista de plantão. Ordem de cima, tudo combinadinho, acertado. O Estadão quer roubar Mainardi da Veja, depois da gorada reforma gráfica que criou o ‘Estilo Armani de Jornalismo’.


Problema deles. O troca-troca não pode ser feito através da encampação das sórdidas aleivosias produzidas por aquele que confessou sem qualquer pudor sua condição de alcagüete e mercenário.


Crítica à mídia


Os autores da matéria imaginaram que ao oferecer alguns elogios a este Observador estariam livres para perfilhar as vilanias covardemente veiculadas pela ex-vedete de Veja (que, de repente, deixou de ser o campeão das ‘Cartas à Redação’).


Em seguida a uma menção a este Observador, os autores da matéria insinuam que ‘jornalistas traem sua missão quando se comprometem com o governo de plantão’. Mainardi foi menos cauteloso quando tentou ligar o projeto do Observatório da Imprensa às emissoras públicas.


O adulado e o seu adulador ignoram que o projeto do Observatório da Imprensa completa em 2006 o seu décimo aniversário, começou na internet e dois anos depois, a convite da TVE, criou a sua versão televisiva. Nos quatro anos da gestão tucana e nos quase quatro da gestão petista jamais se questionou o seu foco eminentemente jornalístico. Não se discute política mas a cobertura política, não os partidos mas os veículos jornalísticos que veiculam suas idéias.


Adulado e adulador ignoram que a TVE pertence ao governo federal e a TV Cultura (que retransmite o Observatório praticamente desde a sua criação) pertence à Fundação Padre Anchieta, financiada pelo governo estadual. Teoricamente adversárias em matéria política jamais reclamaram contra a orientação, escolha de assuntos e opiniões emitidas por este Observador na abertura do programa.


** Tanto assim que no semestre passado concordaram em partilhar a hospedagem do seu apresentador (embora a geração continue na TVE).


** Tanto assim que o Observatório da Imprensa radiofônico é gerado pela rádio Cultura FM (leia-se governo estadual) mas retransmitido diariamente pelas rádios MEC do Rio de Janeiro (leia-se governo federal).


** Tanto assim que o eminente jornalista Ruy Mesquita, representante da família dos fundadores do Grupo Estado, já participou diversas vezes das emissões (a última como homenagem ao 80º aniversário). Não faria isso com um veículo suspeito.


É impossível produzir um programa de crítica à mídia numa emissora comercial. A CNN tenta mas não consegue, fica no meio do caminho. A Globonews tentou durante alguns meses e desistiu. E a gigantesca corporação pública BBC sequer aventurou-se porque a mídia comercial britânica alegará que o dinheiro do contribuinte não pode ser utilizado para deslustrá-la. O Observatório conseguiu porque seu moto e sua intenção é mostrar que é preciso ler o jornal de outro jeito. O jeito crítico, respeitoso, mas cético.


Biografia autorizada


A matéria do Estadão é visivelmente encomiástica, áulica – puxa-saco (para quem não entendeu os adjetivos precedentes). Se o assunto é um polemista, por que não se ouve aqueles com quem polemizou?


E por que foi omitido o tema que alavancou a polêmica – a Opus Dei? Na sua primeira resposta, este Observador indagou do criador do macartismo mainardiano porque não se ocupava com a infiltração desta poderosa ordem na imprensa ibero-americana. O homem pediu socorro, não entendia do assunto, em seguida tentou desqualificar, gozou.


Quebrou a cara. Depois da magnífica capa de Época [ver ‘Bastidores do ‘pool espiritual’ na mídia‘], quando foram expostas as perigosas relações da Opus Dei com a política e a imprensa, Mainardi deu uma marcha-ré e, na última Veja (edição 1940, pág. 111) desmentiu-se abertamente: investiu contra um dos baluartes da linha auxiliar do opus-deismo paulista. Vai receber outro puxão-de-orelhas, desta vez por valorizar a capa do concorrente.


O caso do invencível polemista que se atrapalhou numa das últimas polêmicas não deveria ser enfocado numa extensa matéria de duas páginas pretensamente equilibrada? Não numa biografia autorizada, oficial, escrita para conquistar o biografado.


‘Objetividade é patifaria’ escreveu Joseph Roth, um dos maiores autores alemães e uma das estrelas do jornalismo alemão nos anos 20 do século passado. Só que ao qualificar a objetividade utilizou o substantivo Schweinerei.


Schwein é porco. Neste caso, patifaria é pouco.

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