Sábado, 25 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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Nota dez para a imprensa

Por Deonisio da Silva em 14/04/2009 na edição 533

Eis que Jesus me premeia, o verso de Cartola na canção Fiz por você o que pude, e Assim castiga ou premeia Deus, advertência do Padre Antônio Vieira sobre Dom Sebastião, não estão errados. O Acordo Ortográfico aceita as duas formas: ‘premia’ e ‘premeia’. Assim como, pela mesma regra, o Acordo aceita também ‘premeio’ e ‘premio’; ‘negocia’ e ‘negoceia’; ‘negocio’ e ‘negoceio’. Mas o substantivo ‘prêmio’, sinônimo de recompensa, continua com acento circunflexo. Também ‘negócio’ segue com acento. Não nos aflijamos! Um bom corretor eletrônico é ferramenta que descomplica a revisão ortográfica. Eis alguns exemplos citados em Guia da Nova Ortografia, número especial da revista Língua Portuguesa (São Paulo, Editora Segmento, 2009).

Cerca de 240 milhões de pessoas foram afetadas pelo Acordo Ortográfico: 190 milhões no Brasil; 20 milhões em Moçambique; 16 milhões em Angola; 10 milhões em Portugal; e menos de três milhões na Guiné-Bissau, no Timor Leste, em Cabo Verde e em São Tomé e Príncipe.

A unificação da escrita da língua portuguesa já mexeu no mercado editorial e vai mexer muito mais. No Brasil, somente o poder público compra 130 milhões de livros para distribuir nos circuitos escolares. A Câmara Brasileira do Livro (CBL) avalia que as editoras vão investir R$ 60 milhões para aplicar o Acordo em suas publicações. O setor faturou R$ 1,4 bilhão em 2008. Portanto, gastará 4% disso nos ajustes. Terá ainda que fazer modificações também nos 26 mil títulos de livros que estão sendo reeditados.

Avanços são concretos

Desde janeiro de 2009, jornais e revistas vêm cumprindo importante papel na aplicação do Acordo Ortográfico. Enquanto ainda se dizia que Portugal teria de dar mostras públicas de que aceitava a unificação da grafia da língua portuguesa, para que as outras nações lusófonas o seguissem, as revistas e os jornais brasileiros trataram de fazer valer a reforma, na prática, embora legalmente ainda pudessem esperar até 2012. Escolas, universidades e diversas outras instituições também estão aplicando o Acordo, embora para elas o prazo fosse o mesmo.

Infelizmente, a aplicação da reforma deu-se por decreto, mas que esperar desse Congresso? Se antes a língua escrita já sofria nas mãos deles, de uns tempos para cá também a língua falada tem passado por maus bocados. Provavelmente em tempo algum tivemos parlamentares tão despreparados para o uso da principal ferramenta de trabalho com que nos representam, a língua portuguesa.

Espíritos mais pessimistas gostam de proclamar que o Brasil piora a cada dia em tudo, mas é preciso lembrar que os avanços no campo da escrita da língua portuguesa são concretos, evidentes. Não temos ainda regras tão claras para nossa grafia como têm a Alemanha para o alemão e a Itália para o italiano, para citar duas das línguas que, de modos diferentes, souberam resolver seus problemas de escrita nos respectivos idiomas oficiais, mas já avançamos muito.

Exemplos servem de consolo

Se Portugal, entretanto, rejeitar a aplicação do Acordo Ortográfico que subscreveu, estará repetindo o que o Brasil fez em 1945, quando aceitou e não aplicou aquela unificação, mantendo o de 1943, que, aliás, receberia pequenas alterações em 1971.

Indicar problemas de grafia em outras línguas pode servir de consolo, como o faz John Robert Schmitz, da Unicamp, que lembra os exemplos do inglês ‘sorvete’ e ‘chorão’, grafados antes ice-cream e cry-baby. Os dois perderam o hífen e já estão sendo escritos ice cream e crybaby.

Bill Gates já avisou que a Microsoft adaptará todo o pacote do Office até o segundo semestre de 2009, dando poderosa ajuda ao Acordo.

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Escritor, doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é coordenador de Letras e de teleaulas de Língua Portuguesa; seus livros mais recentes são o romance Goethe e Barrabás e A Língua Nossa de Cada Dia (ambos da Editora Novo Século)

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