Terça-feira, 21 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1038
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CIRCO DA NOTíCIA >

O dia-a-dia do jornalista

Por Carlos Brickmann em 21/04/2009 na edição 534

Como tragédia: uma jornalista americana nascida no Irã, Roxana Saberi, foi julgada e condenada a oito anos de prisão, em Teerã,  por espionagem para os Estados Unidos. Roxana é free-lancer; já trabalhou para a BBC e a National Public Radio. E por que foi acusada de espionagem? Porque sua credencial de imprensa já tinha expirado. Por este terrível crime, Roxana Saberi esteve ameaçada até com pena de morte. O Irã promete tratamento humano à jornalista, enquanto seus recursos correm na Justiça; o governo americano negou as acusações contra Roxana e exigiu sua libertação imediata. O caso da jornalista provavelmente foi incluído na lista de assuntos urgentes que devem abrir as negociações entre EUA e Irã.

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, deve chegar ao Brasil, em visita oficial, no dia 6 de maio.

Como farsa: diante das sucessivas acusações de irregularidades na Casa, a Mesa do Senado, em Brasília, começou enfim a tomar providências. Nada para moralizar nada, claro: só para dificultar a descoberta daquilo que eles prefeririam que permanecesse encoberto. A primeira, já anunciada, foi exigir que os repórteres peçam informações por ofício, com prazo de pelo menos cinco dias para a resposta. A outra foi o corte de dez linhas telefônicas e de boa parte das cadeiras do Comitê de Imprensa. Está também em projeto uma parede de vidro para impedir que a bancada de imprensa ouça as conversas em plenário.

O pessoal do Senado está ficando velho: não há repórter sem celular. O corte dos telefones não fará diferença alguma. E há muito tempo os repórteres não ouvem a conversa no plenário: sempre há algum senador louco por aparecer que conta tudo o que está acontecendo lá dentro (e às vezes conta até o que não acontece). A maneira mais eficiente de manter o Senado livre das más notícias ainda não foi tentada: fechar as brechas usadas para malfeitorias.

Como violência: Betim, na Grande Belo Horizonte. O fotógrafo Nelson Batista, do jornal O Tempo, foi preso por registrar o mau estado do posto do Instituto Médico Legal da cidade. São geladeiras que não funcionam, corpos em estado de decomposição, coisas desse tipo. O delegado Uenderson Vilela Macedo o prendeu. Outro fotógrafo, João Lêus, teve a máquina apreendida.

Se a polícia tem recursos para prender fotógrafos que estão em serviço, se tem gente para evitar que a imprensa mostre o descaso com os mortos, por que não usa esses recursos e esse pessoal para melhorar a segurança pública?

 

Lei de imprensa

Na semana que vem, o Supremo Tribunal Federal deve retomar o julgamento da Lei de Imprensa, que tem uma série de dispositivos suspensos pelo Judiciário. Se a decisão for anular a lei, caberá ao Congresso decidir se deve ou não votar uma nova Lei de Imprensa. Prepare-se: haverá muito debate entre os jornalistas sobre a conveniência ou não de uma lei específica sobre delitos cometidos pela imprensa – e, especialmente, sobre a utilização do direito de resposta.

 

A resposta, hoje

Nos grandes jornais, normalmente não há problemas: pode haver alguns solavancos, mas em geral a resposta sai. Pode não sair do mesmo tamanho, pode cair na seção de Cartas, longe de onde foi publicada a matéria que exigiu resposta, pode ser insatisfatória; mas sai. Em veículos de comunicação menos escrupulosos, o consumidor de notícias é ignorado: publica-se qualquer coisa e se ignora o direito de resposta. Quando há recurso à Justiça, a decisão demora tanto que a resposta é publicada quando ninguém mais se lembra da matéria que a motivou. Pior: como, em geral, a Justiça determina a publicação da sentença, a linguagem jurídica afasta o leitor normal do que aconteceu.

E, pior que tudo, temos a frase do grande jornalista Zuenir Ventura, um daqueles que já viram tudo acontecer, e ao contrário também: o desmentido nunca terá a força do mentido.

 

Denunciando o legal

Por falar em mentido, a imprensa brasileira tem-se especializado nos últimos tempos em denunciar fatos conhecidos, públicos e legais. Uma investigação da Polícia Federal revelou ‘indício de doação legal’ de uma grande empresa a um grande partido. E a imprensa noticiou!

Gente, não há indício nenhum: há documentos públicos, há declarações à Justiça Eleitoral, há recibos. E, estando tudo dentro da lei, por que a notícia de que a Polícia Federal ‘encontra indícios de doação legal’? Se a Polícia Federal investigar uma empresa de comunicações absolutamente respeitadora das leis, encontrará indícios de pagamento de salários, de pagamento de impostos, de compra de equipamentos – um horror!

 

Para os amigos…

É curioso, também, observar os meios de comunicação criticando as empresas por doar recursos legais para os candidatos que atuam na sua área. Por mais capitalista que alguém seja, dificilmente imaginará que os empresários sejam freirinhas inocentes: pessoas mais maliciosas certamente pensarão que os empresários, até ao doar recursos, pensam nas vantagens que possam auferir. E sabe que essas pessoas mais maliciosas têm razão?

 

…tudo

É por isso que o setor imobiliário doa recursos aos parlamentares, seja de que partido sejam, que atuem na área imobiliária; que os laboratórios doam à bancada médica; e assim por diante. Aliás, durante muitos anos, alguns jornais fizeram campanha sistemática por determinados candidatos, que pautaram sua carreira parlamentar na defesa da permissão do governo para que fossem abertas novas fábricas de papel no país (na época, sem o OK do governo, não seria possível pensar em fábricas de papel). E os donos das fábricas de papel já existentes financiavam candidatos que lutavam contra o desperdício de recursos escassos em novas fábricas. É do jogo. Se a lei permite, qual o problema?

 

Última…

Uma delícia de texto, publicada num portal informativo que se notabiliza por, digamos, inovações criativas na língua portuguesa. Trata-se de um ‘suposto’ crime no qual uma pessoa recebeu dois tiros nas costas e um na cabeça.

Analisemos: levar três tiros dificilmente pode ser considerado um acidente. E, se dois desses tiros foram nas costas, a menos que a vítima seja um contorcionista de nível internacional, não houve tentativa de suicídio. Se não foi um acidente, se não foi tentativa de suicídio, e se uma pessoa furou a outra com três tiros, por que o crime é ‘suposto’?

 

…Flor…

A propósito, não estaria na hora de dar uma reciclada de Português nas redações? A regência está uma confusão: ‘ele foi lhe cumprimentar’, ‘eu vou o dar’, daqui a pouco não dá mais para entender. Um exemplo desta semana, referente ao depoimento que seria prestado pelo banqueiro Daniel Dantas na CPI dos Grampos da Câmara dos Deputados:

** ‘Protegido por um habeas corpus que o permitia inclusive mentir…’

Que o permitia é um pouco meio muito. Alô, chefes de Redação!

 

…do Lácio

Mário Lima, excelente jornalista e locutor de primeiro time, comenta nota da semana passada sobre a mania do pessoal de Esportes de se referir ao time uruguaio como ‘Defênsor’ (assim mesmo: masculino de ‘Defênsora’ e singular de ‘Defênsores’). Lembra que Oscar de la Hoya é tratado, no Brasil, como ‘de la Roya’ – isso quando não mudam seu prenome para Óscar. O duplo ‘ll’ só vale à maneira argentina, como ‘j’. Na Espanha, o Villareal (pronuncia-se, à moda castelhana, ‘Vilharreal’) se transforma em ‘Vijarreal’, que ninguém lá sabe de que se trata. E o ‘z’ no fim é uma complicação: ‘Álvarez’ vira ‘Alvarês’, ‘Martínez’ se transforma em ‘Martinêz’.

Cá entre nós, não é implicância, não. O Heron Domingues, quando apresentava o Repórter Esso, se informava sobre a pronúncia correta de todos os nomes estrangeiros. O Boris Casoy sempre foi extremamente cuidadoso na busca da pronúncia correta. Por que não pesquisar um pouco para chamar o San Lorenzo de ‘San Lorenço’, como é correto, em vez de ‘Lorenzo’, que não é?

 

O imperador do pedaço

Curiosíssima a cobertura do caso Adriano. Os meios de comunicação em geral elogiaram a decisão do centroavante de abandonar o Internacional de Milão, clube com o qual tem contrato, porque quer voltar a ficar de bermudas e chinelos na Favela de Vila Cruzeiro.

OK, Adriano faz o que quiser de sua vida. Mas não pode ser elogiado por abandonar um contrato em vigor e que assinou de livre e espontânea vontade. E essa história de ‘meu amor e uma cabana’ é linda quando não há criminosos nas proximidades. A favela de Vila Cruzeiro, no Rio, é violentíssima. Admitamos que Adriano não pense em viver na favela, mas apenas em visitá-la. Há condições para que o faça, sabendo-se que os traficantes e os bandidos que os cercam podem sentir-se tentados a apropriar-se de seus bens?

Adriano ganhou muito dinheiro, é certo. Outros jogadores também ganharam muito dinheiro, embora nem tanto, e terminaram a vida na miséria. Quantos jornalistas desses que acham lindo desistir de uma fortuna para viver de chinelos e bermuda se moveram para ajudar Jorge Mendonça, que foi titular da Seleção brasileira na Copa de 1978, teve muitos imóveis em Campinas e no Recife, teve empresas, e morreu na miséria em 2006?

 

Acompanhe!

Um belo blog esportivo na praça: veja aqui. É muito bem escrito, feito por um jornalista de primeiro time, experiente, de caráter a toda prova, Mário Marinho, ex-Jornal da Tarde; e, melhor ainda, é um blog que trata de jogos, de jogadores, dos personagens do jogo, não de cartolas e de política futebolística. É futebol para quem gosta de futebol.

 

Acompanhe! – 2

Outro blog está para surgir nos próximos dias: o Blog do Lula (que talvez tenha o nome de Blog do Planalto). O blog é parte de um projeto maior, que envolve toda a internet: portal de relacionamento, twitter, interatividade. A inspiração vem dos Estados Unidos, onde Barack Obama usa a internet desde que lançou sua candidatura à Presidência.

 

Como…

De um grande jornal:

** ‘…ele dormia quando familiares perceberam, por volta das 21h30min, que ele falecera.’

 

…é mesmo?

De um portal noticioso importante:

** ‘Fornecimento começa a ser normalizado; um milhão ficam sem água amanhã’

Conforme a cidade, o título está perfeito: situação normal é quando falta água.

 

E eu com isso?

Há um leitor desta coluna que vê televisão o mínimo possível, não lê histórias em quadrinhos, não folheia revistas de fofocas. Mas mesmo ele terá de se render às notícias que mais circulam na praça, sem as quais não conseguiríamos dormir. Como se pode viver sem saber que…

** ‘Gianne Albertoni anda de bicicleta em frente ao mar’

** ‘Beyonce sai com Jay-Z de casaco `Napoleão´’

** ‘Ex-BBB Priscila colocará piercing genital de ouro branco’

** ‘Chris Martin, do Coldplay, leva os filhos para a Disney’

** ‘Kate Moss reúne receitas para livro de culinária’

** ‘Juliana Didone e Eri Johnson correm juntos no Rio’

** ‘Harrison Ford dá comida para hipopótamo’

** ‘Gisele Bündchen beija cachorra Vida em passeio com marido’

E o marido, quem o beijará?

 

O grande título

Há coisas interessantes: por exemplo, um título absolutamente enigmático, já que não consta que exista facada virtual:

** ‘Duelo entre adolescentes na web termina com facada’

Lendo o texto, a gente descobre que a tecnologia ainda não foi tão longe: eles só usaram a internet para marcar o lugar da briga. E a faca não era virtual, não.

Há aqueles títulos que, como não cabiam na página, entraram mesmo sem caber:

** ‘Indonésia realiza eleições favoráveis ao poder e adversas…’

E o melhor de todos:

** ‘Israelense morre após cápsula de cocaína explodir em sua…’

Onde terá explodido a tal da cápsula?

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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