Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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CIRCO DA NOTíCIA > CANUDO DE PAPEL

O diploma e as orelhas

Por Carlos Brickmann em 21/11/2006 na edição 408

Aparício Torelly, ou Aporelli, ou o Barão de Itararé, foi um dos grandes humoristas brasileiros. Membro do Partido Comunista (na ilegalidade), e sabendo que a truculenta polícia política poderia invadir sua redação, colocou na porta um cartaz histórico: ‘Entre sem bater’. É dele também a frase definitiva: ‘Diploma não encurta a orelha de ninguém’.


O debate sobre o diploma de jornalista parece partir do princípio de que, obtido o diploma, as orelhas se reduzem e o cavalheiro pára de zurrar. Gente como Ricardo Kotscho, como este colunista, como Boris Casoy, como Eduardo Suplicy, como Joelmir Beting, sem diploma de jornalista, está condenada à mais profunda ignorância. Se souber duas línguas, uma será o zurro; outra, o relincho.


O Brasil teve normas regulatórias antes de ser um país; teve censura antes de ter imprensa. Talvez por isso, imagina-se que uma profissão, não sendo amparada por um diploma, será forçosamente mal exercida. Só que não será, não: pode-se perfeitamente trabalhar em jornal sem um papel assinado – e assinado por gente que, muitas vezes, jamais deu a honra de sua presença numa Redação.


Diploma de jornalista não é ruim: é bom. Pode ser ótimo. É desejável. Mas não é essencial. E nem vamos entrar naquela conversa mole de que os patrões querem abrir o mercado para pagar menos. Patrão, por definição, sempre procura pagar menos. E os exemplos citados, de jornalistas sem diploma, sempre estiveram entre os maiores salários das redações em que se engajaram.


Talvez o motivo da luta pelo diploma seja outro, mais feio: a reserva de mercado. Porque, não haja dúvida, as empresas sempre vão procurar os profissionais que julgarem mais competentes; e, se não houver lei, rigidamente fiscalizada, com penas severíssimas, escolherão os melhores, com diploma ou sem ele.



PT sem ódio


‘Nunca antes nesse país’, como diria um famoso político, alguém ganhou as eleições e saiu da vitória com tanta raiva. Normalmente, o vitorioso acha tudo fantástico; os derrotados é que procuram culpar alguém pela derrota – em geral, a imprensa, que já se acostumou a ser atacada e nem se importa mais com isso.


Mas surgiu finalmente, no PT, uma voz sensata: a do senador Delcídio Amaral, que comandou a CPI dos Correios, lidando com a imprensa todos os dias; e se candidatou ao governo de Mato Grosso do Sul, perdendo as eleições. ‘A imprensa’, diz Delcídio, ‘desenvolveu um papel fundamental nesses últimos 18 meses. Dias difíceis enfrentamos, e a imprensa nada inventou: registrou o que acontecia. Ela não é responsável pelos escândalos.’


Pois é: Delcídio vai na contramão do partido. Mas que fazer, se o comando petista decidiu culpar os mensageiros pelas más notícias que recebe?



Má notícia


A possível saída de Eugênio Bucci da Radiobrás não é boa para o governo nem para o país: ele montou uma estrutura profissional que vem funcionando direito, tão corretamente quanto uma empresa estatal de informações pode funcionar. Por isso mesmo, é criticadíssimo por companheiros, que gostariam de ver uma Radiobrás mais ‘positiva e operante’. Se Bucci sair, será difícil conter as pressões para distribuir empregos de maneira mais político-partidária.



Os defeitos da imprensa


Humberto Werneck, excelente jornalista, de texto precioso e preciso, observa que a frase ‘o editor é quem separa o joio do trigo, e publica o joio’ talvez não seja de Adlai Stevenson, político democrata por duas vezes derrotado quando tentou chegar à presidência dos Estados Unidos. Em suas pesquisas, Werneck concluiu que Stevenson pode ter adaptado uma frase de Elbert Hubbard (1856-1951), jornalista e escritor americano, muito parecida – ‘Editor: pessoa empregada por um jornal, cuja tarefa é separar o joio do trigo e garantir que o joio seja impresso’.


Werneck aproveitou a pesquisa e levantou outras frases sobre jornalismo:


** ‘O editor é o sujeito que chega ao campo de batalha no final da guerra e atira nos feridos.’ (E. B. White, da revista The New Yorker)


** ‘O editor é uma lixa passada em todas as manifestações de originalidade.’ (Elbert Hubbard)


** ‘O editor é um repórter cujas pernas começam a andar para trás.’ (Anônimo)


E, já que o nosso Werneck descolou estas excelentes citações sobre falhas da imprensa, vamos em frente.



Os defeitos da imprensa – números


Jornalista brasileiro e números dificilmente se acertam. Na imprensa, os preços caem 257% (tente fazer a conta: se caírem 100%, chegam a zero), milhão e bilhão viram sinônimos, essas coisas. Agora saiu um exemplo maravilhoso, a respeito de uma fábrica de tubos de plástico: ‘Em quatro meses de campanha, a (…) triplicou o nível de conhecimento de marca do consumidor final, passando de 10% para 54%’.


Nos tempos em que dona Eneida Leme de Oliveira corrigia severamente a matemática da classe deste colunista, na Caetano de Campos, triplicar era outra coisa.



Os defeitos da imprensa – preguiça


Trata-se de uma ampla reportagem sobre diversos produtos à disposição no mercado. Diz o texto: ‘Segundo (…), o produto de metal custa 20% mais caro (…)’. Isso é o que se chama de jornalismo declaratório: ouve-se uma pessoa, botam-se as aspas, e a matéria está pronta. Mas bons chefes de reportagem, como Ulysses Alves de Souza, Adilson Laranjeira ou Laerte Fernandes, protestariam: qual o problema de passar por uma ou duas lojas e perguntar o preço de cada produto? Ficaria bem mais preciso!



Os defeitos da imprensa – imprecisão


Veja este título: ‘Aeronáutica vai suspender buscas a última vítima da Gol’. Quem é vítima da Gol, cara-pálida? O avião da empresa está voando certinho, de acordo com os planos, é atingido por outro avião. As investigações começaram apontando o outro avião como responsável, agora apontam a possibilidade de erro no controle de tráfego aéreo, ou falha de equipamento. Por que ‘vítima da Gol’? Qual o prejuízo à imagem da empresa que um título destes pode causar?



Os defeitos da imprensa – texto


‘Jovens negros morrem duas vezes mais do que brancos em São Paulo, aponta estudo’. E este colunista, imaginando que só nos filmes de 007 é que se vive duas vezes!



Os defeitos da imprensa – o óbvio


Esta frase magnífica é da TV: ‘Ela (a moça que patinava) está em 4º lugar, logo atrás das três primeiras’.



Os defeitos dos outros


O problema é que os defeitos se espalham. Durante muito tempo, o texto publicitário era bem menos sujeito a erros do que o jornalístico: havia mais tempo para pensá-lo, havia revisores, até mesmo profissionais como o Telmo Martino, dono de formação requintada, para uma análise final. Erros sempre houve, coisas como ‘acorda Brasil’ em vez de ‘acorda, Brasil’, mas nada muito sério.


Agora as coisas estão mudando: um texto de agência informa que ‘os anúncios veiculam nos jornais (…)’. Ou seja, os anúncios ganharam vontade própria: eles é que veiculam! Aquelas anúncios que eram veiculados provavelmente ficaram muito antiquados, não é mesmo?



Dúvida cruel


O marido, dizendo-se enganado pela esposa, seqüestrou o ônibus em que ela estava e ameaçou matá-la. Incompreensível: se ser enganado era para ele tão humilhante, por que se expôs à maior rede de TV do país, para que toda a população o identificasse como corno?



Globalização


Portugal já criou muitos problemas para o cantor Sérgio Reis: seu sucesso da época era Panela Velha (‘não interessa se ela é coroa/ panela velha é que faz comida boa’). ‘Panela velha’, em Portugal, é gíria para uma parte do corpo que não fica bem mencionar em público.


O Brasil por enquanto resistiu bem às investidas vocabulares da globalização: o Ford Pinto não foi vendido por aqui, embora o motor fosse fabricado em Taubaté, mas o Picasso circula normalmente. E estão chegando dois novos modelos: a Chana, chinesa, e o Picanto, coreano.



E eu com isso?


O primeiro computador, a válvula, era do tamanho de um prédio; e consumia energia como uma cidade. O presidente mundial da IBM achava que no mundo talvez houvesse mercado para três ou quatro computadores.


Deu no que deu: o computador gasta pouco, está ao alcance de muita gente, ficou pequenininho. É muito mais potente que seus antepassados imensos. E, ao contrário destes, ganharam a capacidade de comunicar-se entre si.


É por isso que sabemos hoje, instantaneamente, que…


1. ‘Paris Hilton vai à premiação de música em Londres’


2. ‘Xuxa faz sua primeira vilã e apanha no cinema’


Sabemos de notícias absolutamente indispensáveis:


3. ‘Deborah Secco vai desfilar no Carnaval carioca de 2007’


Coisa que, como sabemos, é inédita: desde quando as estrelas de TV desfilam no Carnaval carioca?



Os grandes títulos


Este, em qualquer semana, seria premiado:


** ‘Motociclista é em Maringá participando de um racha’


É o quê? O título mantém o suspense: você só saberá que aconteceu lendo o texto completo.


Este normalmente seria premiado, mas nesta semana topou com algo notável:


** ‘Capcom levará GTA: San Andreas ao Japão’


Certamente quer dizer alguma coisa. Um dia, este colunista promete, descobrirá do que se trata.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 24/11/2006 Clayton Vidal

    Bom! Já que no país da POUCA-VERGONHA tá tudo liberado, que tal vender diploma de médico em botequim? Olha! Avisem-me quando começar a vender que eu quero compar um.

  2. Comentou em 22/11/2006 Ivan Moraes

    ”O editor é o sujeito que chega ao campo de batalha no final da guerra e atira nos feridos.’ (E. B. White, da revista The New Yorker)’: ‘Atira’ = ‘shoot’ (tira fotos) O jogo de palavras se perde em portugues.

  3. Comentou em 21/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    Nos primóridios da IMPRENSA, como não havia jornalistas, nem outras tantas profissões, eram os LETRADOS que escreviam nos jornais. Mais tarde, e o Brasil não é exceção, outros profissionais escreviam em jornais, tais como advogados, médicos, engenheiros, professores e tantos outros. Este fenômeno também existiu e persistiu também no ENSINO PÚBLICO até que fosse obrigado o curso de magistério aos profissionais do ensino. É a trajetória de formação da IMPRENSA que explica a não profissionalização de seus empregados por meio de um diploma de JORNALISMO e não o divino e sagrado direito à informação
    e à opinião. Mas, todos nós que não acreditamos em CEGONHA, sabemos que informação é a comodity mais cara do mundo, logo, não vem de graça e aqueles que na mídia têm direito à opinião, são uma elite de privilegiados, até ganham fortunas para dizer o que qualquer um diz em butecos e com os mesmos termos chulos. Hoje temos jornalistas palpiteiros e pitaqueiros, sem o mínimo de análise síntese, sem dialética e cheios de um ódio que para uns é engraçadinho, mas, para a maioria com educação de berço, aquela que ensina a respeitar os outros, não tem graça nenhuma. É o Carlos Brickman é bem engraçadinho na pior acepção do termo.

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