Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > FONTES (SEMPRE) DISPONÍVEIS

O jornalismo dos especialistas

Por Carlos Brickmann em 29/03/2011 na edição 635

‘Especialista é quem sabe cada vez mais sobre cada vez menos, e no fim acaba sabendo tudo sobre nada.’

A definição de George Bernard Shaw hoje é incompleta: especialista também é aquele sujeito que aparece na TV com os botões do paletó explodindo, braços cruzados no peito, olhando bravo para os telespectadores (ou, pior ainda, com condescendência) e dizendo tudo, de lugares-comuns a bobagens, com ar professoral, como se fossem pensamentos originais e profundos.

Outro dia, na TV, um desses especialistas com o armário cheio de diplomas e pós-graduações pontificava a respeito da Líbia. Em sua opinião, melhor do que atacar as tropas de Kadafi seria armar os civis rebeldes, para que pudessem defender-se. Claro: e qualquer cavalheiro que até o mês passado era advogado, jornalista ou professor saberia pilotar um caça supersônico, não é verdade? Ou até mesmo dirigir um tanque pesado. Pois, se fosse para dar-lhes fuzis e revólveres, a coisa seria diferente:

1. Eles têm fuzis e revólveres, comprados no mercado negro, ou apreendidos nos quartéis que, no inicio da rebelião, conseguiram tomar;

2. Armas leves não adiantam nada, enfrentando blindados e ataques aéreos.

Essa história de chamar os universitários funciona bem no Show do Milhão. Mas sem o Sílvio Santos, fica mais difícil, perde o charme. Outro dia, uma especialista, professora numa das mais conceituadas universidades do país, disse que o problema da Líbia eram os soldados da vizinha Arábia Saudita que lá estavam para derrubar Kadafi e evitar que os xiitas dominassem os sunitas. Seria uma boa explicação, se pudéssemos esquecer alguns fatos:

1. Na Líbia, se houver xiitas, são pouquíssimos;

2. Lá não há soldados sauditas;

3. A Arábia Saudita tem fronteiras com Iraque, Jordânia, Omã, Qatar, Emirados Árabes Unidos, Iêmen e Kuwait, não com ‘a vizinha’ Líbia;

4. A Líbia fica na África e a Arábia Saudita na Ásia.

É ótimo quando o pessoal deixa de inventar e faz apenas o que deve. As explicações de William Waack são normalmente claras e precisas. E, ao contrário de alguns especialistas, não confunde Líbia e Líbano. O Diário de S.Paulo apresentou duas páginas impecáveis sobre a crise líbia – feitas por jornalistas.

Durante algum tempo, este colunista achou que talvez estivesse implicando demais com os universitários. Afinal de contas, entre eles há um Mário Sérgio Cortella, divertido, culto, sorridente, capaz de esclarecer sem ser prepotente.

Mas eis que Ricardo Kotscho, sempre direto, matou a charada (ver ‘TV invadida por onda de ‘especialistas’‘): ele também não aguenta mais ouvir frases feitas como se fossem gotas de suprema sabedoria distribuídas aos boquiabertos telespectadores. E cita Ivan Lessa, que também não aguenta: a praga da sapiência chegou ao Reino Unido.

 

As equivalências

Há pouco tempo, ainda irritado com a decisão brasileira de apoiar as investigações sobre direitos humanos no Irã, um Mestre (dos mais antiimperialistas) desferiu aquela frase que imagina definitiva, comparando a situação iraniana àquela coisa horrorosa da PM, que jogou spray de pimenta numa criancinha.

Claro, a situação de direitos humanos no Brasil é terrível; só que o desrespeito aos direitos humanos não é política de governo. Pode haver, e há, agressões a gays – mas não há leis que determinem a pena de morte aos homossexuais. Também não há, entre nossas autoridades, quem diga aquela besteirada iraniana de que lá não existem homossexuais. Pode haver, e há, assassínios cometidos por agentes governamentais, mas são crimes, e não estão amparados pela lei. Os idiotas bárbaros que jogaram spray de pimenta na criancinha (bem como os selvagens que atiraram no garoto, em Manaus) são criminosos, sujeitos a processo, e não heróis nacionais. Há mulheres agredidas (e a Lei Maria da Penha, para vergonha nossa, é ainda recente), mas Sakineh Ashtiani é um evento iraniano, não brasileiro. Aqui não existe pena de morte nem de lapidação. E sexo entre adultos, de comum acordo, não é um assunto de Estado.

Talvez alguém despreparado possa confundir as situações. Mas um professor universitário, com todos os MBAs e PhDs que as universidades podem oferecer?

 

As profissões

O problema é que os meios de comunicação estão confundindo as coisas: professores e especialistas têm de ser utilizados sempre que possível, mas para que o jornalista ganhe precisão e conteúdo na matéria que está preparando. Não pode haver uma substituição. Repórter não é o sujeito que sabe tudo: ele precisa apenas ter o telefone de quem sabe e dispor de cultura geral suficiente para entender as explicações técnicas. Raríssimo é o repórter que pode escrever sobre física quântica sem assessoria especializada; e mais raro ainda é o especialista em física quântica que consegue traduzir seu conhecimento para que seja entendido pelos consumidores de informação.

E é preciso tomar cuidado para evitar que o espaço noticioso seja monopolizado por quem sabe tudo sobre o Kama-Sutra, mas nunca viu gente pelada.

 

A ficha do Supremo

Muita gente ficou indignada com a decisão do Supremo Tribunal Federal segundo a qual a Lei da Ficha Limpa não poderia ter entrado em vigor nas últimas eleições, por desrespeitar o artigo da Constituição que impede que modificações nas leis eleitorais entrem em vigor a menos que a eleição seguinte ocorra no mínimo um ano depois.

Há dois fatos a analisar: primeiro, o dispositivo constitucional; segundo, a tentativa de tutelar o voto da população. Acusa-se o Supremo de, por um voto de vantagem, desrespeitar a vontade do eleitorado. Só que o Supremo não tem de respeitar ou desrespeitar a vontade do eleitorado: tem de verificar se a lei está ou não de acordo com a Constituição. Segundo, que história é essa de desrespeitar a vontade do eleitorado? O eleitor votou em Jader Barbalho, sim; esta foi sua vontade. A opinião deste colunista sobre Jader Barbalho não tem a menor importância: importante é a opinião da maioria do eleitorado do Pará. João Capiberibe, no Amapá, teve mais votos do que Gilvan Rocha; a vontade do eleitorado local, certa ou errada, é tê-lo no Senado, enquanto Gilvan perdeu as eleições.

Os meios de comunicação jogaram para a arquibancada. Colocaram-se como paladinos do combate à corrupção, com a Constituição ou contra a Constituição. Faltou noticiar o fato principal: havia, na Constituição, desde 1988, um dispositivo que provavelmente faria com que a Lei da Ficha Limpa fosse viável apenas nas eleições de 2012. Esquecer este fato foi faltar ao compromisso jornalístico com Sua Excelência, o consumidor de informações.

 

Perguntar não ofende

1. Por que, numa manifestação pacífica, com ampla presença de crianças, a PM fluminense tinha à disposição sprays de pimenta?

2. Por que, no caso de barbárie explícita ocorrido em Manaus, a notícia de que um jovem de 14 anos sem qualquer antecedente foi alvejado várias vezes, ficou alguns meses na gaveta? Por que o caso escandaloso demorou tanto tempo a ser divulgado?

3. Por que os meios de comunicação, até o momento em que esta coluna era escrita, não levantaram as estatísticas de ‘mortes por resistência à prisão’, diante da evidência de que, pelo menos no caso deste garoto, a alegação era falsa?

4. Em outubro do ano passado, a Rota, polícia de choque da PM paulista, distribuiu títulos de Amigo da Rota a uma série de empresas, ‘por sua colaboração’. Entre elas, quatro grandes cervejarias: Ambev (Brahma, Antarctica, Skol e outras), Schincariol (Schincariol e Devassa), Femsa (Kaiser) e Heineken.

Esta coluna perguntou, várias vezes, que colaboração foi essa que mereceu um gesto público de gratidão. Terá sido alguma doação em dinheiro? Tudo bem: faz parte do jogo, desde que esteja legalizada. Fardamento, armas, veículos? A Secretaria de Segurança Pública paulistana, a Polícia Militar e a Rota jamais responderam. Agora, que a secretaria tem um serviço eficiente de assessoria de imprensa, profissional e bem-feito, que tal contar que colaboração foi essa?

 

Tarda mas não falha

Embora, como dirá qualquer especialista, Justiça que tarda já falhou. Veja este caso, que interessante: o Superior Tribunal de Justiça decidiu por unanimidade que as alíquotas da Resolução CIEX 02/79 podem ser adotadas para o cálculo do crédito-prêmio do IPI. Até aí, tudo bem. Mas a questão foi levada à Justiça em 1969 e resolvida em 2011. A definição demorou 42 anos!

A propósito, este colunista certamente fez uma pesquisa falha. Não encontrou nenhuma crítica nos meios de comunicação à demora em decidir o caso.

 

Loucura geral

Um anúncio via internet chama a atenção: uma empresa chamada ImportBR oferece ‘o melhor programa de gravação de conversas em celulares’, em que ‘nada fica registrado ou aparece no celular espionado’. A empresa aponta, como CNPJ, o número 00.873.512/0001-62.

Anúncio falso ou não? Este colunista não tem a menor idéia e não vai colocar seu computador em risco de vírus tentando comprar um programa ilegal. Mas anunciar isso é uma pouca vergonha, na melhor das hipóteses. Alô, polícia!

 

Enxerimento

Mais uma reportagem inteiramente baseada nos rendimentos de um técnico de futebol – e o técnico palmeirense, Luís Felipe Scolari, explosivo, diz que vai caçar ‘até no inferno’ quem divulgar seu salário.

Os colegas jornalistas que desculpem este colunista, mas Scolari está coberto de razão. Ele não recebe dinheiro público. Como cidadão, fez um acerto com uma entidade privada e, tirando ele, o clube e as autoridades da Receita Federal, ninguém tem nada com isso. Se ganha mais do que o time inteiro do Xaxupiranga, isto não é problema nem do consumidor de informação nem do repórter: no máximo, do Xaxupiranga e seus jogadores. Felipão, campeão do mundo com a seleção brasileira, técnico com boa campanha na seleção portuguesa, amplamente vitorioso na profissão, é um astro, e tem de ganhar mais do que quem não é astro. Quanto? Quanto conseguir; quanto um clube ou federação estiver disposto a pagar.

Ninguém é obrigado a contratar um técnico do nível salarial de Felipão, ou de Mano Menezes, ou de Muricy Ramalho, ou de Vanderlei Luxemburgo. Há outros técnicos no mercado que, por uma série de circunstâncias (até por não terem ainda atingido o estrelato), custam menos. O Corinthians já foi bicampeão paulista com Rato, técnico dos juvenis, no comando do time profissional; e também com o estreante Eduardo Amorim. O Flamengo foi campeão com o estreante Andrade. É questão de opção, apenas isso.

Quanto às matérias sobre salários, além da invasão da intimidade do assalariado, trazem um risco extra: expô-lo, e expor sua família, à ação de criminosos. E para que: para defender uma tese ridícula a respeito de custos, tão científica quanto aquelas que provam que determinado time perde sempre que enfrenta outro cujo goleiro tem o nome iniciado pela letra M?

Não esqueçamos: a mãe de Robinho foi sequestrada exatamente quando a imprensa começou a divulgar que os salários do jogador estavam crescendo.

 

Gringo é rei

A imprensa deu quase sem críticas o estupro à soberania brasileira que foi a ação dos seguranças americanos na visita do presidente Barack Obama. Mas aí ainda se pode encontrar alguma explicação – esdrúxula, mas existente. Duro mesmo é o caso Shakira: a polícia brasileira, em massa, protegendo o hotel paulistano em que se hospedava a cantora colombiana. E protegendo do que? De quinze ou vinte fãs que queriam vê-la e pedir autógrafos, essas coisas perigosíssimas. OK, a gente entende, é mais confortável ficar parado na porta de um hotel de luxo do que fazer ronda nas perigosas ruas da cidade. Mas isso tem de mudar. São Paulo, imagina-se, é uma cidade cosmopolita. Se a cada gringo ilustre que a visitar a população tiver de mudar seus hábitos e evitar lugares bloqueados, as coisas na cidade vão ficar cada vez mais difíceis.

 

Como…

De um grande jornal:

** ‘Eagle que caiu na Líbia lançou antes duas bombas de 500 toneladas’.

O problema é que o peso máximo de decolagem do Eagle é de 31 toneladas – o que inclui armamento, o avião, o combustível, os pilotos. Como colocar mil toneladas de bombas aí dentro é um mistério!

 

…é…

De uma nota oficial do Ministério da Justiça:

** ‘Prorrogado prazo para participação em prêmios sobre tráfico de pessoas’

Antigamente essas coisas não davam prêmio, não: davam é cadeia.

 

…mesmo?

De um grande jornal regional:

** ‘Teve início nesta terça-feira as aulas do curso em malha para bebê’

Lembra quando havia concordância e o predicado concordava com o sujeito?

 

Mundo, mundo

É uma notícia inacreditável: trata normalmente de uma tentativa de burla à lei do país, como se nada houvesse de estranho; e, como o título não cabia, foi cortadinho até entrar no espaço. Mais ou menos como o Crime da Mala.

Primeiro, o título:

** ‘Primeira-dama Guatemala pede divórcio para disputar presidência’

Agora, a tentativa de burla: como esposa é parente, a primeira-dama não poderia ser candidata à Presidência da República. Então, forja-se um divórcio e, como ex-primeira-dama, talvez consiga convencer o Judiciário de que está agindo de boa-fé.

Não parece um país mais ao sul, que conhecemos tão bem?

 

E eu com isso?

Maremoto, tsunami, Líbia, terrorismo – tudo pesado demais. É preciso saber de coisas mais leves. De Maísa, por exemplo, ou de Charlie Sheen (Charlie Sheen, leve? Vá lá). Ou ainda de um vídeo de casamento que rendeu processo.

** ‘Menina Maisa cozinha brigadeiro na TV e fala da carreira’

** ‘Ex-namorada de Lindsay Lohan é vista aos beijos com outra garota’

** ‘Fotógrafo flagra casal de sapos em ato sexual’

** ‘Cinegrafista é condenado após fazer ‘pior vídeo de casamento do mundo’’

Ele caprichou: todo mundo de costas, filmados da cintura para baixo. Até que vai pagar pouco: R$ 1.600 de multa.

** ‘Revista italiana flagra beijo de Pato e filha de Berlusconi’

Se ela puxou o pai, ele não terá preparo físico para jogar bola.

** ‘Amy Winehouse é clicada descalça na rua em Londres’

** ‘Croatas esquiam montanha de cueca’

** ‘Ivete Sangalo vai casar com pai de seu filho em abril’

** ‘Charlie Sheen perdeu a virgindade com prostituta’

** ‘‘Eu fazia sexo 20 vezes por semana’, diz Russell Brand’

Dizem que ele também mentia muito.

 

O grande título

Há dois excelentes títulos nesta semana – mas o vitorioso é óbvio. É impossível concorrer com ele. Comecemos pelo segundo lugar:

Comida:

** ‘País deve passar EUA em consumo de café’

Este colunista é do tempo em que café se bebia.

E o grande, imbatível título:

** ‘Embaixador dos EUA requerido pré-posicionado de Armamento para ajudar golpistas; Reconhecido operações encobertas apoio as manifestações de rua, as forças cívicas e grupos de resistência’

Eis uma legítima Tradução do Google Doido, só que foi publicada como título normal. Haverá alguém que consiga entender o que está dito?

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 29/03/2011 Marco Antonio Zanfra

    Já que você não deu uma nota, Carlinhos, permita-me divulgar por minha conta: nesta quinta-feira, 31, na livraria da Editora Brasiliense (rua Mourato Coelho, 111, Pinheiros, São Paulo), não percam o lançamento do livro As covas gêmeas , um policial de primeira.

  2. Comentou em 29/03/2011 Marco Antonio Zanfra

    Já que você não deu uma nota, Carlinhos, permita-me divulgar por minha conta: nesta quinta-feira, 31, na livraria da Editora Brasiliense (rua Mourato Coelho, 111, Pinheiros, São Paulo), não percam o lançamento do livro As covas gêmeas , um policial de primeira.

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