Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIRCO DA NOTíCIA > EXPLOSÃO ÁRABE

O leitor que sabe de menos

Por Carlos Brickmann em 15/03/2011 na edição 633

No dia 17 de dezembro, iniciaram-se as manifestações populares na Tunísia. Em 14 de janeiro o presidente Ben Ali fugiu do país.

No dia 25 de janeiro, iniciaram-se as manifestações populares no Egito. Dezoito dias depois o presidente Hosni Mubarak renunciou.

Já se passou bastante tempo de fevereiro para cá. Que tendências dividem o poder na Tunísia e no Egito? Que tipo de reestruturação política se anuncia? Considerando-se que os países vizinhos e as grandes potências têm interesses na região, quem apóia quem nos novos governos tunisiano e egípcio?

Os meios de comunicação foram apanhados de surpresa (como o mundo inteiro) pelas revoltas vitoriosas da Tunísia e do Egito, pelos protestos no Iêmen, no Bahrein e na Arábia Saudita, pela guerra civil na Líbia, tudo quase ao mesmo tempo, ocupando full time todos os repórteres especializados em política médio-oriental. Só que até agora não reforçaram o suficiente sua estrutura: a julgar pelo noticiário aqui disponível, pode estar acontecendo qualquer coisa da qual não temos a menor idéia. Os temidos fundamentalistas islâmicos, por exemplo, integram os novos governos? Qual sua influência nos novos rumos da Tunísia e do Egito? Cobrir guerras não é apenas acompanhar movimentos de tropas e de civis armados; é, principalmente, tentar descobrir como será o futuro.

E a Líbia, então? Nos primeiros dias, parecia que, para os meios de comunicação, os movimentos no mundo árabe eram automáticos: iniciava-se uma rebelião e, menos de um mês depois, o governo caía. Poucos deram importância à formação histórica da Líbia, junção recente de três países, com profundas ligações e rivalidades tribais e de clãs, tudo influindo diretamente no desenrolar da luta.

Kadafi pode ser o que for, mas tem base tribal, ao longo dos anos fez o possível para manter a divisão entre tribos e clãs de fora de seu grupo, e lidera sem discussões um dos três países que deram origem à Líbia, a Tripolitânia. Além disso, tem armas pesadas e não tem o menor escrúpulo em usá-las nos combates internos. Os rebeldes, para derrubá-lo, precisariam estar infiltrados na Tripolitânia (o que parece não ter ocorrido), dispor de fundos e fontes de fornecimento de armas ou, no mínimo, de uma intervenção internacional que bloqueasse o uso do equipamento pesado de Kadafi na luta.

Talvez ainda o consigam; e é por isso que Kadafi procura liquidar rapidamente os inimigos, atacando-os com ferocidade, para não dar tempo a potências estrangeiras que queiram intervir. Buscou mercenários, sim; mas não esqueçamos que esta é uma tradição da área. Que era a Legião Estrangeira francesa, senão um agrupamento de mercenários do mundo inteiro?

 

Os vários lados

Outra coisa que faz falta, na cobertura dos conflitos do Norte da África, é o ponto de vista não-ocidental. Há publicações russas, como o veteraníssimo Pravda, que sobreviveu à queda do comunismo, chinesas, portuguesas (Portugal é um dos países em que o Partido Comunista continua vivo e atuante) que trazem uma visão diferente. Para este colunista, contêm exageros e opiniões fora de propósito, como considerar Kadafi ‘o maior benfeitor da Humanidade’. Mas, de qualquer maneira, é interessante que o leitor brasileiro tenha acesso a outro ponto de vista, por mais estranho que lhe pareça. Democracia exige diversidade de opiniões. Sejam quais forem as opiniões contrárias, o choque é enriquecedor.

 

O mundo em que vivemos

Está sendo anunciado na internet ‘o melhor programa de gravação de conversas em celulares’ – um tal Yukess S60 Tools 2011 –, com link que este colunista não abriu por dois motivos: primeiro, porque não tem o menor interesse em ouvir conversas alheias e, segundo, porque teme os vírus de computador.

O material bisbilhotado, conforme o anúncio, será enviado por e-mail para o endereço eletrônico indicado pelo cliente.

E daí? Daí que, como este colunista, os pauteiros dos meios de comunicação devem ter recebido este mesmo anúncio. Há uma meia dúzia de promessas de irregularidades ou até mesmo crimes, que incluem, além da interceptação das conversas por celular, a escuta ambiente. Um bom repórter pode descobrir rapidamente se é um caso de introdução de vírus ou de espionagem propriamente dita, e acabar de uma vez com essa pouca-vergonha.

 

Filmando…

Pegou fogo a guerra entre várias alas do governo paulista em torno da Secretaria de Segurança, com o envolvimento do secretário, de um grande shopping center, de um importante jornal e de um repórter muito bem conceituado. E tem tudo a ver com bastidores de imprensa.

As alas do governo paulista são todas tucanas: uma delas defende o secretário da Segurança, Antônio Ferreira Pinto, nomeado ainda na gestão de José Serra e que foi mantido por Geraldo Alckmin. Outras, unidas na luta contra o secretário, tucanamente se dividem quanto aos objetivos futuros. Um grupo, que fez parte do Núcleo de Segurança Pública da campanha de Alckmin, deseja indicar um de seus integrantes para o secretariado; outro, formado por chuchuzistas juramentados (alusão ao histórico apelido do governador, Picolé de Chuchu), gostaria de ter de volta o secretário da Segurança do último governo Alckmin, Saulo Abreu, hoje secretário dos Transportes, ou alguém indicado por ele; um terceiro reúne líderes de delegados da Polícia Civil, que acusam Ferreira Pinto de persegui-los (há em São Paulo uma persistente guerra entre a PM e a Polícia Civil). Efetivamente, Ferreira Pinto abriu sindicância contra pouco menos de duas centenas de delegados, que segundo seus partidários seriam a ‘banda podre’ da polícia; mas também é verdade que boa parte das sindicâncias envolveria questões burocráticas, tipo choque de viaturas. Logo após a eleição de Alckmin, uns três secretários da Segurança apareceram, e nenhum deles foi o escolhido.

 

E fotografando

No meio desta briga, o secretário foi visto num grande shopping center em companhia do repórter Mário César Carvalho, da Folha de S.Paulo. Ambos foram fotografados. E, mais tarde, pessoas que se identificaram como policiais (e provavelmente o são, já que sem credenciais não conseguiriam seu objetivo) obtiveram cópias das imagens das câmeras de segurança do shopping. As imagens mostram o secretário chegando com uma pasta na mão. Poucos dias depois, uma devastadora matéria de Mário César Carvalho acusou o sociólogo Túlio Kahn, que cuidava do mapeamento de crimes em São Paulo, de vender dados sigilosos a particulares. Kahn, que havia sido nomeado por Saulo, na gestão anterior de Alckmin, caiu em seguida. Sua queda foi interpretada como um golpe em Saulo. O caso teve destaque até no Jornal Nacional.

Foi então que apareceu o vídeo das câmeras do shopping, com sugestões de que o secretário tinha vazado informações contra seu auxiliar para derrubá-lo e golpear o antecessor. Para aumentar a confusão, quem divulgou o vídeo foi um primo do governador (com quem tem relações frias), João Alckimin, radialista de São José dos Campos, já conhecido por seu combate aos bingos, às máquinas caça-níqueis e a policiais que, segundo acusa, lhes dão cobertura e compartilham os lucros (e que, por causa disso, já sofreu atentados a bala, nenhum deles esclarecido pela polícia, e constantemente sofre ameaças de morte).

 

E agora?

1. O shopping informa que entregou a fita ‘a policiais’.

2. Segundo a OAB, não há lei que proíba a divulgação das imagens de segurança;

3. A guerra interna da polícia continua. O secretário acusa os adversários de espioná-lo, os adversários insistem em dizer que, se irregularidade houve, foi o vazamento de informações oficiais pelo responsável por sua guarda. Blogs especializados em noticiário policial estão usando um linguajar pouco comum em textos escritos. Digamos que, perto deles, uma torcida de futebol irritada com o juiz usa palavras civilizadíssimas;

4. Há uma unanimidade: todos reconhecem o desempenho correto da profissão pelo repórter Mário César Carvalho. E, efetivamente, ele agiu certo: foi buscar as informações onde elas estavam e divulgou-as, cumprindo a tarefa que se espera de um repórter. Se a fonte tinha ou não autorização para liberar as informações, é problema da fonte com seus superiores ou com a lei. O compromisso do repórter é com seus leitores, e foi cumprido.

E aguarde: deve haver novos capítulos.

 

Gol contra

Curiosíssimo o caso da ministra da Comunicação, Helena Chagas. Ela recebeu um tweet de @bonettinterado falando o diabo de políticos internacionais e de vários grão-duques petistas. E retuitou para todos seus seguidores. Veja só:

@helenachagas  ganhar menos.que esta raça devoradora,politicos,como sarney,mubarak,kadaf,buch,lula,dirceu,genuino,me envergonham,que nojo.xau 8:15 AM Mar 6th  via web Retweeted by helenachagas 

Helena Chagas primeiro disse que não sabia de nada, depois se surpreendeu ao ver a mensagem que saiu de seu aparelho e brincou, dizendo que não tinha coordenação motora. Só que as coisas não são assim: declarações de ministros de Estado, como de diplomatas, não podem depender de coordenação motora ou de expressões imprecisas. Têm de significar exatamente aquilo que se quer que signifiquem. É por isso que, nos foros internacionais, é hábito que diplomatas e presidentes, por melhor que falem outras línguas, usem seu idioma natal, deixando a tradutores profissionais as versões em outras línguas.

O chanceler soviético Andrei Gromyko, depois de 25 anos como embaixador em Washington, falava inglês melhor que a maioria dos americanos instruídos; mas, na ONU, seus discursos eram em russo. Aquelas histórias de Fernando Henrique discursar em inglês, francês, espanhol, croata antigo, turco medieval, ou de Rui Barbosa colocar uma plaquinha na porta de sua casa, em Londres, oferecendo-se para ensinar inglês, podem massagear o ego, mas não são posturas profissionais.

E de uma ministra da Comunicação não se espera que seja extraordinariamente hábil no IPhone, ou conheça todos os truques de blogueiro para colocar imagens criativas na tela: exige-se que seja confiável e que se possa acreditar em suas palavras. Claro que Helena Chagas é muito melhor que Franklin Martins, e nele o pior de tudo é que se podia acreditar em suas palavras. Mas dela se espera muito mais do que dele.

 

Luciana x Veja

A ex-deputada federal Luciana Genro, do PSOL, filha do governador gaúcho Tarso Genro, do PT, rebate a nota aqui publicada na semana anterior e anuncia que processará a revista Veja, que acusa de mentir a seu respeito, por dano moral. Luciana Genro foi acusada de montar um curso utilizando instalações públicas e de obter patrocínio de uma seguradora que tem um grande contrato com o banco estatal do governo gaúcho.

Segundo Luciana Genro, o Projeto Emancipa, ao qual se referiu a matéria, é um sucesso, com mais inscritos do que vagas disponíveis e apoio na imprensa gaúcha. Ninguém poderia, sustenta, ‘detonar’ um projeto que oferece preparação para vestibular e Enem gratuitamente, para estudantes de escolas públicas. Afirma que não foi ouvida pela revista Veja e que a reportagem publicada sobre o Projeto Emancipa foi ‘absolutamente fantasiosa’.

Diz Luciana Genro que não tem qualquer privilégio no uso de dependências de colégios estaduais, pois paga aluguel: R$ 600 mensais por duas salas. Que os professores ‘não serão bem remunerados’, como diz a reportagem, mas receberão R$ 20 a hora-aula, o que lhes garantirá algo como R$ 300 mensais. Garante, finalmente, que ao contrário do que diz a revista, não está ‘na vida empresarial’ nem está lucrando. E quer que a revista se explique na Justiça.

 

Boa notícia

A Rede de Escritoras Brasileiras, Rebra, lança nesta sexta, em Paris, O Grande Espetáculo Brasileiro das Escritoras. O livro traz textos em prosa e verso de 62 escritoras brasileiras, em francês, e estará à venda nas grandes livrarias parisienses a partir de abril. Boa parte da edição será distribuída a bibliotecas e universidades francesas, para difundir a literatura brasileira como parte da literatura universal, e não apenas de língua portuguesa. O livro de 192 páginas, organizado por Joyce Cavalcante, custará 20 euros.

 

Livro bom e fácil

Poucos jornalistas viveram tanto em tão pouco tempo quanto Henrique Veltman: da imprensa judaica a um cargo importante em O Globo, trabalhou nos mais diversos setores da comunicação. Agora seu livro de memórias, Do Beco da Mãe a Santa Teresa, uma delícia de leitura, está disponível pela internet. É só encomendá-lo pelo e-mail hbveltman@gmail.com, por R$ 30,00. Vale o preço.

 

Como…

De uma grande colunista:

** ‘José Alencar volta ao Sírio-Libanês para fazer químio’.

A notícia está quase correta: ele fez quimioterapia no Sírio-Libanês. Só que ele não tinha chegado a sair do hospital – portanto, não podia voltar.

 

…é…

Do noticiário sobre TV:

** ‘Tsunami: Elenco de Crepúculo é evacuado’

O elenco estava na área de risco e saiu – mas, apesar do volume de água, talvez seja indelicado dizer que foi evacuado. Aliás, o nome da novela definitivamente não é ‘Crepúculo’.

 

…mesmo?

De um delicioso press-release, que anuncia um seminário:

** ‘Será servido aos participantes: café da manhã, almoço, café da tarde, jantar, Diploma de Conclusão do Seminário’.

Não é ótimo servir um diploma às refeições?

 

Mundo, mundo

Isto é que é falta de imaginação:

** ‘Americana esconde US$ 170 mil na calcinha para não pagar impostos’

Claire Abdeldaim vendeu uma propriedade no Sudão e colocou o dinheiro no cofrinho. Fez besteira: desde certos acontecimentos num determinado país do Hemisfério Sul, dinheiro em cueca e calcinha é coisa comum. A polícia já começa procurando por aí. Se bem que, neste determinado país, o transportador do dinheiro continua livre, leve e solto, seu chefe virou até membro de comissão no Congresso e a polícia não conseguiu nem descobrir de onde veio o dinheiro.

 

E eu com isso?

Tsunami? Terremoto? São temas trágicos: valem um início de conversa, mas não servem para falar muito tempo. Líbia? Mortes demais. Vale um papinho, uma troca de palpites, mas continua havendo muito tempo vago para conversar. Vamos à luta, então!

** ‘Polícia apreende jacaré que protegia 2.285 pés de maconha nos EUA’

Não deve ter sido difícil: dizem que jacaré chapado nem tem muita idéia do que está acontecendo por perto.

** ‘Hebe Camargo pede e recebe selinho do ator Jude Law’

** ‘Sem calcinha, ex-BBB fica fora do desfile e chora’

Engraçado: alguém se lembra de ter visto a Globeleza de calcinha?

** ‘Leandra Leal passeia com o namorado e o cachorro no aeroporto’

** ‘Em entrevista, cantora Shakira diz que ainda não sabe se é boa ou não’

Depende do ponto de vista. Pode ser. Pode não ser.

** ‘Renata Ceribelli e Zeca Camargo farão dieta em frente às câmeras’

Já fora das câmeras, quem sabe?

** ‘Cauã deixa Salvador com fama de antipático’

** ‘Talula e Rodrigo engatam namoro fora do BBB’

** ‘Manicures da Globo estão descontentes com a atriz Paola Oliveira’

** ‘Nos EUA, atriz Christina Ricci tira seu cachorro de uma bolsa’

Grande novidade: em todos os filmes Legalmente Loira, onde é que a estrela guardava seu cachorrinho?

 

O grande título

A variedade é grande: coisas meio incompreensíveis…

** ‘Jornal: Bombom e Ceará, do ‘Pânico’, estão ficando’

…títulos com erros…

** ‘Nobel do iraniana prevê revolta popular em seu país’

…mais títulos com erros…

** ‘Manifestantes tenta invadir prédio da polícia no Cairo’

…e um título maravilhoso, referente a uma fantasia de banana no desfile do Salgueiro:

‘Waleska Popozuda na mão do King Kong’

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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