Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CIRCO DA NOTíCIA > IMPRENSA OMISSA

O nome do tradutor

Por Lia Wyler em 26/02/2008 na edição 474

Na esteira do plágio de traduções antigas que provocou protestos da intelectualidade brasileira, tornou-se mais evidente um hábito da nossa imprensa que facilita a repetição de tais abusos. Refiro-me à constante omissão do nome do tradutor na citação de obras traduzidas que são objeto de notícias, entrevistas e resenhas.

O Prosa & Verso de 29 de dezembro de 2007, em uma matéria de página inteira sobre o escritor Nathan Englander, reproduz um trecho da tradução de sua obra, lançada nos últimos dias de dezembro pela Editora Rocco, no qual omite o crédito devido ao tradutor.

Por sua vez , O Estado de S. Paulo inicia sua matéria, também de página inteira, afirmando: ‘Logo que seu livro de contos Para alívio dos impulsos insuportáveis foi publicado, em 2000, o americano Nathan Englander impressionou a crítica especializada.’ Ora, o livro não foi publicado no Brasil no ano 2000, mas em 2007, e Nathan Englander jamais escreveu um livro em português.

Benefício para todos

O livro lançado no Brasil foi escrito por um segundo autor, o seu tradutor, cuja tarefa é exatamente essa: construir pontes entre culturas, tornar acessíveis ao leitor brasileiro obras escritas em línguas estrangeiras.

Quando um tradutor ou um grupo de tradutores reclama do desrespeito à lei dos Direitos Autorais e às normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, o editor responde que a citação iria contrariar a diretriz do jornal. Como pode a diretriz de um jornal se sobrepor à Lei Federal no 9.610, de 19 de novembro de 1998, que determina em seu Título III, Capítulo II, Art. 24 que é direito moral do tradutor (I) o de reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra; (II) o de ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional indicado ou anunciado, como sendo o autor, na utilização da sua obra?

Acatar a lei, portanto, beneficia o leitor, respeita a lei, protege o tradutor e o editor e impede novas investidas contra o patrimônio cultural do país.

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Tradutora, Rio de Janeiro, RJ

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/03/2008 Jacqueline Thompson

    Cara Lya,
    Obrigada pela informação. Estou me profissionalizando na área e não sabia disso. O que eu sabia era que somos considerados co-autores.
    Muito obrigada mesmo!
    Um grande abraço
    Jacqueline

  2. Comentou em 14/03/2008 Jacqueline Thompson

    Cara Lya,
    Obrigada pela informação. Estou me profissionalizando na área e não sabia disso. O que eu sabia era que somos considerados co-autores.
    Muito obrigada mesmo!
    Um grande abraço
    Jacqueline

  3. Comentou em 07/03/2008 ABRATES - Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes Sheyla Barretto de Carvalho, Presidente

    Querida Lia,
    Além de excelente profissional (tecnicamente), você é (sempre foi) uma grande ativista na defesa da nossa categoria profissional (eticamente). Nós, da ABRATES (Associação Brasilieira de Tradutores e Intérpretes) , apoiamos enfaticamente a sua louvável iniciativa de denunciar ilegalidades cometidas contra tradutores.
    É uma luta difícil e demorada que depende da participação ativa dos tradutores para ser bem-sucedida. Você certamente está fazendo a sua parte, parabéns pela iniciativa!
    Conte conosco!
    Grande abraço da
    Sheyla Barretto de Carvalho
    Presidente da ABRATES
    abrates@abrates.com.br
    http://www.abrates.com.br

  4. Comentou em 01/03/2008 Lia Wyler

    Aos que estão indagando quem foi o tradutor de’Para alívio dos impulsos insuportáveis’ esclareço que foi a autora da denúncia e que as minhas únicas credenciais para traduzir Nathan Englander são: escrever português fluentemente, já ter traduzido Isaac Bachevis Singer, conviver com membros da colônia judaica e ser casada com um homem de cultura judaica. Contudo, o livro não pretende ser um compêndio sobre judaísmo, mas narrativas poéticas sobre as qualidades e defeitos de seres humanos que poderiam pertencer a qualquer credo, sexo ou etnia. A lei faculta que o tradutor reclame e foi o que fiz no artigo desta página do Observatório da Imprensa.

  5. Comentou em 01/03/2008 Lia Wyler

    Aos que estão indagando quem foi o tradutor de’Para alívio dos impulsos insuportáveis’ esclareço que foi a autora da denúncia e que as minhas únicas credenciais para traduzir Nathan Englander são: escrever português fluentemente, já ter traduzido Isaac Bachevis Singer, conviver com membros da colônia judaica e ser casada com um homem de cultura judaica. Contudo, o livro não pretende ser um compêndio sobre judaísmo, mas narrativas poéticas sobre as qualidades e defeitos de seres humanos que poderiam pertencer a qualquer credo, sexo ou etnia. A lei faculta que o tradutor reclame e foi o que fiz no artigo desta página do Observatório da Imprensa.

  6. Comentou em 01/03/2008 Ten Israe Junior

    Creio que o artigo escrito foi bem pertinente, e como há uma lei regulamentando o assunto, temos que nos fazer ouvir e reivindicar nossos direitos.

  7. Comentou em 28/02/2008 Lota Moncada

    Obrigada Lya, pelo excelente artigo e iniciativa! Preservar nossos direitos é preservar nossa cultura e identidade.
    Esta será uma luta árdua, mas vale a pena.

  8. Comentou em 28/02/2008 Flávio Steffen

    Muitas vezes, o trabalho do tradutor é mais difícil do que o do autor da obra, pois freqüentemente deparamo-nos com descrições que são exclusivas do idioma da cultura de origem da obra, o que na maioria das vezes implica na recriação da obra no idioma de destino.
    Isso sem contar, que a seu modo o tradutor também é um escritor, na qualidade de co-autor da obra traduzida para o idioma de destino.
    A não identificação do tradutor nas obras traduzidas implica em desrespeito à pessoa do tradutor em si e também dewscumpre a legislação de direitos autorais.

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