Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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O racismo e o crime

Por Carlos Brickmann em 06/07/2004 na edição 284

É curioso: na tentativa de denunciar um crime, o jornalista muitas vezes comete dois. O primeiro, ao apontar como criminoso alguém que é meramente suspeito; o segundo, ao identificá-lo de maneira racista.

Um caso interessante é o de Law Kim Chong, que a polícia aponta como suspeito do crime de contrabando e que está detido pela acusação de ter oferecido suborno ao deputado federal Luiz Antônio Medeiros (PL-SP). Não vamos discutir, aqui, se Law Kim Chong cometeu ou não os atos de que é acusado; vamos discutir, aqui, como é que a imprensa o trata.

Uma revista importante (e não é a única: os jornais, o rádio e a TV também o fazem) o identifica como ‘o chinês’. A propósito, o referido cidadão não é chinês: nasceu em Hong Kong, então colônia britânica, e há muito tempo se naturalizou brasileiro. É chamado de ‘chinês’ por suas características físicas. É como se referir a Saddam Hussein, em reportagem sobre os crimes de que é acusado, identificando-o como ‘o árabe’ (ou, mais racista ainda, ‘o turco’). É como se referir a Idi Amin Dada como ‘o negro’.

A esposa de Law Kim Chong, Miriam, é chamada de ‘a chinesa’. E nem chinesa é: embora nascida em Formosa, vive no Brasil desde os três anos de idade e é naturalizada brasileira. Ter olhos amendoados é crime?

A imprensa também identifica Law Kim Chong como contrabandista – quando nem denunciado por esse crime ele foi. Pode ser que a Justiça o condene por contrabando. Mas onde foi parar aquela garantia individual de que toda pessoa é inocente até prova em contrário?



Que pena!

Este colunista teve o prazer de ler, outro dia, um belo texto sobre uma bela iniciativa: a notícia do lançamento do livro com a história do Sírio-Libanês, um dos melhores hospitais de São Paulo, construído pela comunidade. Só faltaram alguns detalhes: o autor (ou autores) do livro; a editora; onde encontrá-lo; e o preço. Quem, como eu, quiser o livro, como faz?



Olha a gramática!

Está nos jornais (e nem é preciso procurar muito): coisas como ‘se proliferam’, ‘se confraternizam’, ‘a loja inaugura hoje’, ‘o filé acompanha arroz’. Qualquer gramática, das mais baratinhas, ensina que as pessoas ‘confraternizam’, que os animais ‘proliferam’, que a loja pode no máximo ser inaugurada, que o arroz é que acompanha o filé. E nem é preciso ir à gramática: o Manual de Redação ensina isso direitinho.



Informação 1

De acordo com uma revista, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, vai para o PTB. De acordo com outra revista, que circula no mesmo dia, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, vai para o PFL. Até o momento, o governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, continua no PPS.



Informação 2

Para uma revista, o ministro da do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, e o presidente do BNDES, Carlos Lessa, adversários, têm seus destinos ligados: os dois caem juntos. Para outra revista, ambos ficam, mas Lessa tem de se refrear: se continuar provocando Furlan, cai sozinho.



Sarrafo

O leitor Gérson Chagas, comentando a nota sobre a falta de memória da imprensa, ao cobrir a morte de Leonel Brizola, é drástico: para ele, não faltou memória. O que faltou foi vergonha.



Odissair

Espectadores atentos notaram um detalhe curiosíssimo no filme Tróia: numa cena em que Brad Pitt (‘Aquiles’) aparece em primeiro plano, surge no fundo um avião. É engraçado, mas acontece muito. Certa vez, num filme de Ingmar Bergman, um urso atravessa o fundo da cena. Houve discussões épicas sobre o significado do urso, com Cahiers du Cinema e tudo, até que alguém perguntou ao próprio Bergman o que ele quisera dizer. Bergman explicou que o urso não tinha nada a ver com o filme: simplesmente atravessara a cena. E quem é que iria mandá-lo embora?

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; endereço eletrônico (carlos@brickmann.com.br)

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