Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CIRCO DA NOTíCIA >

O xerife do sexo alheio

Por Carlos Brickmann em 11/08/2009 na edição 550

Sim, ninguém está prestando lá muita atenção ao que acontece no Senado, exceto se for baixaria, ladroeira ou aquele quarto secreto, com um belo estoque de lubrificante íntimo. Mas ocorre ali, também, a CPI da Pedofilia. E na CPI da Pedofilia houve um caso extremo de preconceito homofóbico, que valeria belíssimas matérias nos meios de comunicação, se os meios de comunicação estivessem preocupados com os problemas do dia-a-dia das minorias. Talvez este colunista tenha falhado no acompanhamento do noticiário, mas só viu notícia a respeito do tema na coluna do jornalista Ucho Haddad.

Pois o senador Romeu Tuma, do PTB paulista, vice-presidente da CPI da Pedofilia, interrogando um acusado desta prática, fez a seguinte pergunta, que este colunista, não tendo embora a gravação, pensa estar publicando com precisão: ‘Sem absolutamente qualquer desrespeito, eu queria fazer uma pergunta. Cada cidadão tem direito à sua individualidade, mas o senhor é homossexual?’ Pior foi a explicação: o acusado poderia ter de hábito um comportamento ‘não-normal’.

De acordo com o veterano Relatório Kinsey, aproximadamente 10% da população do mundo é homossexual – logo, embora minoritária, a opção homossexual é normal. E que é que tem a ver homossexualismo com pedofilia? Uma pessoa pode ser pedófila sem ser homossexual, pode ser homossexual sem ser pedófila, pode ter comportamentos sexuais pouco usuais ou até bem estranhos – Carlos Heitor Cony, se este colunista não se engana, tem um conto em que um personagem se torna amante de uma bananeira (e, como bananeira vive pouco, algo de pedofilia deveria haver no caso).

Mas tratemos de imprensa: vai ficar por isso mesmo? Ninguém perguntará ao senador Tuma o que é, com precisão, que ele pensa do assunto? Nem o que, com precisão, estaria querendo descobrir com sua desastrada pergunta? Aparentemente, é uma nova versão do ‘você sabe se ele é casado, se tem filhos’, que apareceu numa campanha eleitoral.

E como é que uma CPI sobre um assunto complexo como pedofilia – que, conforme a época histórica, foi tolerado, foi bem aceito, foi quase obrigatório, e hoje é radicalmente combatido – fica nas mãos de um cavalheiro cujas perguntas denotam profundo desconhecimento não só do tema, mas também de outras áreas de comportamento?

 

Minorias…

O Brasil tem, historicamente, mau comportamento com relação à liberdade religiosa. Os judeus que vieram para o Brasil desde o Descobrimento tiveram de fingir-se católicos, os índios foram convertidos à força, a Inquisição prendeu até o padre Antônio Vieira, os protestantes não podiam sequer ser atendidos em hospitais (e por isso, em São Paulo, criaram seu próprio hospital, o Samaritano), os religiosos de matriz africana são até hoje discriminados e muitas vezes considerados casos de polícia.

Não esqueçamos o chefe: é do mestre Alberto Dines um livro definitivo, Vínculos de Fogo, que trata exatamente de perseguição religiosa, fartamente documentada. Nossa Constituição, a mesma que consagra o Estado leigo, separado de qualquer igreja, foi promulgada ‘sob a proteção de Deus’. Em nosso dinheiro está escrito ‘Deus seja louvado’ – uma iniciativa, aliás, do então presidente José Sarney. E quem não acredita em Deus ou acredita em outras divindades é obrigado a submeter-se.

A imprensa tem também seus deslizes: por exemplo, um grande jornal manteve por anos uma coluna de religião em que só se entrava a religião católica. A ‘Marcha para Jesus’, iniciativa internacional evangélica que só em São Paulo reúne mais de 1 milhão de pessoas, merece algumas poucas linhas de noticiário, depois que é realizada. Para os meios de comunicação em geral, os preparativos não existem.

 

…e a maioria

É nesse contexto que deve ser analisada a proposta do Ministério Público Federal de retirar os símbolos religiosos – todos de uma única religião – dos edifícios públicos. Há países em que a liberdade religiosa é total e em que os símbolos religiosos – de uma única religião – são até símbolos nacionais.

A Suécia tem uma igreja própria, a Igreja Luterana Sueca, que sobrevive de impostos pagos por todos os cidadãos. A Suíça, com protestantes e católicos, tem a cruz na bandeira. A Noruega, majoritariamente protestante, tem a cruz na bandeira. A Inglaterra tem na bandeira a Cruz de São Jorge, o lema (em francês) ‘Dieu e mon droit’, uma religião oficial, a anglicana. E a chefe oficial da igreja anglicana é a rainha. Os americanos, no tribunal, juram sobre a Bíblia.

Em todos estes países já houve perseguição religiosa – que, porém, cessou há muito tempo. Os símbolos religiosos cristãos são também símbolos nacionais.

E no Brasil? Há quase 120 anos, com a proclamação da República, o Estado se separou da Igreja. Surgiu o casamento civil, o acesso aos cemitérios foi liberado sem que se perguntasse a religião do morto. Mas levamos quase um século para que o Estado permitisse o divórcio (que a igreja católica rejeita e outras religiões aceitam); levamos quase um século para que o ensino religioso nas escolas públicas, exclusivamente católico, deixasse os currículos.

Certamente haverá bons argumentos em favor da manutenção, em prédios públicos, de símbolos religiosos pagos com dinheiro dos impostos de todos. Que sejam expostos estes argumentos. É uma boa discussão, uma discussão saudável. Mas não se diga que há outros temas a discutir antes deste. Sempre houve muitos temas a discutir, sempre haverá muitos problemas a resolver. Este é um deles.

 

Constituição…

Já está demorando demais a derrubada judicial da decisão de censurar O Estado de S.Paulo, que continua proibido de publicar reportagens sobre a Operação Boi Barrica e os negócios da família Sarney. Os americanos demonstraram mais flexibilidade e imaginação quando um juiz, contrariando a Primeira Emenda (que garante a liberdade de expressão nos Estados Unidos), proibiu o Washington Post de publicar a série dos ‘Papéis do Pentágono’. Outro capítulo saiu no dia seguinte no The New York Times, que foi proibido de continuar a publicação; foi então para outros jornais, um por dia, até que a Justiça retomou o caminho da Constituição.

Aqui, o juiz determinou multa também a outros veículos que publicarem as reportagens. OK; mas há excelentes sites, com base no exterior, que poderiam receber e publicar as matérias, sem que houvesse possibilidade de, ao menos a curto prazo, reduzi-los ao silêncio. Os jornais nada publicariam sobre a Operação Boi Barrica: apenas dariam, sem maiores detalhes, os endereços eletrônicos onde encontrar os diálogos proibidos. E a rede faria o resto: espalhar os melhores trechos, de maneira a não deixar ninguém privado de boa informação.

 

…sim ou não

Quanto ao Estadão, vítima da censura, bem que poderia dar mais espaço a fato semelhante que ocorreu com o jornal A Tarde, de Salvador, proibido de divulgar reportagens sobre um esquema de venda de passagens em que um desembargador talvez esteja envolvido. A Associação Nacional dos Jornais protestou, mas o Estado, vítima também, foi extremamente discreto no noticiário. O caso dos dois é igual: tinham a notícia e não puderam publicá-la.

E se as notícias não tivessem base? É para isso que existe Justiça: para repor as coisas nos eixos e responsabilizar quem não agir direito.

 

Serra, chapéu de couro

Os petistas mais radicais adoram acusar a imprensa de ter o governador paulista José Serra como seu favorito. Normalmente não é verdade: é o mesmo grupo que acusa a imprensa de não dar uma determinada notícia, quando tomou conhecimento da notícia exatamente pela imprensa.

Mas, no caso de Serra candidato, a imprensa tem sido muito boazinha. Vejamos: Serra assumiu a Secretaria do Planejamento do governo de Franco Montoro em 1983, e nunca mais deixou a vida pública. Portanto, há 26 anos está sob os holofotes.

Alguém já tinha ouvido falar, antes que fosse candidato com chances à Presidência da República, de sua infinita admiração por Luiz Gonzaga, pelo baião e pela música nordestina em geral? E sua forte predileção gastronômica por bode assado – logo ele, que em São Paulo nunca é visto nos restaurantes do Brás, pedindo perna de cabrito com batatas coradas, e prefere sanduíche de pão integral light com queijo branco ecremée e uma folha de alface por cima, tudo naturebíssimo e altamente não-calórico?

Pois a imprensa aceita tudo. Apenas registrou a alegria do candidato ao encontrar, na pernambucana Exu, a terra do Rei do Baião, bode assado, purê de mandioca, paçoca de carne seca, baião de dois, queijo de coalho. Como registrou a presença do candidato, na rádio da cidade, cantarolando o Baião nº 1, de Gonzaga e Humberto Teixeira (‘eu vou mostrar pra vocês/ como se dança o baião’). Talvez não saiba outra: foi a mesma que cantou em São Paulo, na festa que promoveu em homenagem a Luiz Gonzaga.

A imprensa foi legal. Dizem, mas não saiu em lugar nenhum, que Serra fazia questão de cantar em dueto com o sanfoneiro Sabadinho. Era Dominguinhos.

 

Questão de contas

Há fortes rumores de que o presidente Lula pretende aproveitar a presença do presidente francês Nicolas Sarkozy no Brasil, em 7 de setembro, para anunciar um grande acordo militar com a França. O primeiro lance seria a compra de 36 caças supersônicos Rafale, sucessores do lendário Mirage, para reequipar a FAB. Depois viriam quatro submarinos convencionais e um casco de submarino nuclear, a ser movido pelo reator desenvolvido pela Marinha em Iperó (SP).

A imprensa está acompanhando o caso. Só que as contas não batem. Fala-se em US$ 6 bilhões no negócio dos Rafale. Acontece que o avião foi oferecido, nas últimas concorrências de que participou, a US$ 95 milhões a unidade. Pode ser que, totalmente equipado, com contratos de manutenção, o valor chegue a US$ 6 bilhões; mas isso não está claro no noticiário. Também não se sabe como funcionará a transferência de tecnologia. Os produtores de armamentos costumam prometer a transferência de tecnologia, mas relutam muito na hora de efetivar o acordo. Um dos motivos que fizeram com que o Rafale fosse vendido até hoje apenas à Força Aérea Francesa foi a dificuldade de obter a tecnologia de ponta.

 

Jornalista não descansa…

Um jornalista do Diario Barcelona, noticioso online espanhol, decidiu aproveitar o sol e passar o dia na praia. Mas jornalista é como médico: se tentar descansar, dá galho. Um estagiário que ele tinha escalado para ficar no seu lugar colocou uma notícia e, inadvertido, pôs junto a foto de uma atriz pornô numa pose parecida à que marcou Sharon Stone em Instinto Selvagem. E quem conseguia mexer na página? Ninguém: só o jornalista titular, aquele que estava na praia e tinha desligado o celular para ter algum sossego.

Agora ele está trabalhando duro: ‘Estamos tentando reunir a redação para o suicídio coletivo’, brincou. Mas – ainda bem! – ninguém falou em substituí-lo. E, provavelmente, o jornal online nunca teve tamanha audiência.

 

…sofre

Certa vez, um ótimo jornalista brasileiro, sabendo que naquela época nada aconteceria em Roma, escreveu uma série de matérias frias, deixou-as prontinhas para disparar uma por dia, e viajou para a Iugoslávia, onde os preços são baixos e o sol é gostoso. Foram dias ótimos. Ele nem olhava os jornais, porque não entendia a língua; e, pelo mesmo motivo, não via TV. Mas, um dia, durante o jantar, viu várias vezes a imagem do papa João Paulo II no noticiário. Perguntou ao garçom o que tinha acontecido. O garçom, naquela língua internacional, explicou-lhe: ‘Pope. Pum, pum’. O repórter sentiu um certo mal-estar. Telefonou para a embaixada e soube que o papa tinha sofrido um atentado a tiros.

Nem se apressou a voltar a Roma, nem precisou pedir demissão.

 

A ler

O jornalista Luthero Maynard, cultor de bons textos, não perdia uma matéria de Rogério Menezes, jovem recém-chegado da Bahia: ‘Este é um gênio’, repetia. Rogério Menezes, bom pesquisador, texto brilhante, acaba de lançar novo livro: Um náufrago que ri (Editora Record, 352 páginas, R$ 49,90). A idéia é interessantíssima: uma narrativa post-mortem de um gato, Ravic, que passou a vida observando as pessoas e traça um retrato bem-humorado de tudo o que viu.

É o quarto livro de Rogério Menezes. Os outros são Meu nome é Gal, Um povo a mais de mil – os frenéticos carnavais de baianos e Caetanos, Três elefantes na ópera e A solidão vai acabar com ela.

Vale a pena.

 

Jornalistas curiosos

Que é que desperta a curiosidade de um jornalista? Seguem dois exemplos:

1. O goleiro Rubinho, ex-Corinthians, ex-Genoa, foi contratado por outro time europeu:

‘Rubinho, que curiosamente completa 27 anos nesta terça, assinou contrato por quatro temporadas com o Palermo (…)’

2. Foi encontrado o corpo do economista carioca Gabriel Buchman, que morreu quando escalava o Monte Mulanje, no Malawi:

‘A passagem de Buchmann pelo pequeno país africano – curiosamente, o mesmo em que Madonna adotou uma criança e tentou adotar uma segunda (…)’

 

Como…

De um importante portal especializado:

** ‘(…) A celebração ocorrida ontem, na verdade, era pelo falecimento da dileta esposa do ínclito desembargador, a Sra. (…), falecida há sete dias. Ao desembargador e a sua respeitosa família e amigos, nossas desculpas e nossos votos de pesar.’

 

…é…

De um grande portal de notícias:

** ‘Em velório, casal descobre que filha está viva e, na verdade, é menino’

 

…mesmo?

Da página de esportes de um jornal regional:

** ‘O Corinthians do Paraná é uma filial do clube paulista de mesmo nome. Com uma garotada em campo, os paulistas saíram na frente aos 14 de jogo, com gol de William’.

 

E eu com isso?

Não, não faz tanto tempo assim (o então deputado José Sarney já era o principal político do Maranhão). Quando o presidente John Kennedy foi assassinado, os repórteres tiveram de correr para a base, em Dallas, para escrever a notícia. De Dallas, por telex, os relatos chegaram a Nova York; de Nova York, por teletipo, foram enviados à Argentina, onde eram traduzidos para o espanhol e mandados por teletipo para o Brasil, onde eram traduzidos do espanhol para o português e, finalmente, enviados por teletipo para as redações.

Demorava! Isso em contar as imprecisões. Hoje, não: é tudo instantâneo. E sabemos, no momento em que ocorre, que…

** ‘Britney Spears fica mais loira, mas não parece feliz’

** ‘Luana Piovani espera namorado abrir a porta do táxi para entrar’

** ‘Urso polar Knut vai ganhar namorada de sangue latino’

** ‘Precoce, Dakota Fanning tenta ter pés no chão’

** ‘Lindsay Lohan sai sem sutiã e troca três vezes de look na mesma tarde’

** ‘Tony Ramos adora lavar louça’

** ‘Antônio Fagundes não dispensa os óculos escuros no aeroporto’

 

O grande título

Há títulos bons, sem dúvida. Até na área do óbvio:

** ‘Souza lamenta contusão no Corinthians’

Considerando-se que torceu o joelho e mal consegue andar, seria notável se ficasse contente com seu problema físico.

Há o título que contraria frontalmente a tese de que notícia é aquilo que é incomum, e não o que ocorre de maneira habitual:

** ‘Amy Winehouse sai de pub aparentemente bêbada’

E temos o melhor título, envolvendo o primeiro casal americano:

** ‘Casal Obama dá dicas de baratas’

Será que na Casa Branca eles enfrentam esse problema?

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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