Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CIRCO DA NOTíCIA > HOMICÍDIOS NO DF

O campeão da desigualdade

Por Mauro Malin em 10/04/2012 na edição 689

Uma operação tartaruga da Polícia Militar no Distrito Federal é apontada como explicação para o aumento do número de homicídios nessa unidade da Federação, que tem 5.801 quilômetros quadrados (a cidade de São Paulo tem 1.522), 2,5 milhões de habitantes e a maior renda per capita do país: R$ 45.873 (São Paulo: R$ 32.493).

O salário dos policiais do DF é cantado em prosa e verso como o maior do país (PM: média de R$ 4.500; São Paulo: R$ 2.845). Algumas coisas não são ditas:

          * Os salários da PM-DF são pagos pela União, não pelo Governo do Distrito Federal;

          * O efetivo da PM-DF é de 13.531 homens (fonte: site da Inspetoria Geral das Polícias Militares; PM-SP: 86.622);

          * O Distrito Federal tem a pior distribuição de renda do país. A estimativa do IBGE para 2010 (informação fornecida pelo próprio Instituto) era de um Índice de Gini de 0,591. O valor desse índice varia de zero (0), perfeita igualdade, a um (1), desigualdade máxima. A média brasileira era de 0,526, naquele ano. Estados que são “casos clássicos” de pobreza no Brasil apresentavam os seguintes índices de Gini: Sergipe, 0,543; Amazonas, 0,541; Piauí, 0,537; Alagoas, 0,529; Maranhão, 0,521.

Um “castelo medieval”

Os repórteres de veículos de mídia influentes com sucursais em Brasília raramente se referem a essa perversa concentração de riqueza, se é que chegam a fazê-lo. No entanto, ela é um dado que põe a nu o que aconteceu com o Plano Piloto de Lúcio Costa: tornou-se um enclave, uma espécie de “castelo medieval”, onde moram menos de 15% dos habitantes do DF. O fosso “físico” que rodeia a muralha é o horário em que não há transporte público – ônibus ou metrô − para a periferia. Reflexo ou atributo do fosso socioeconômico e político.

E para quem pensa em explicações simples para os fenômenos de selvageria e corrupção que marcaram a capital federal nos últimos anos, um dado exemplifica a complexidade: o DF tem a menor taxa de analfabetismo do país (confira aqui). Respire fundo, leitor: educação só, mesmo que fosse de qualidade, não garante nada (vide Alemanha, o país com a população mais instruída do mundo à época da ascensão de Hitler). A conquista dessa grande reivindicação nacional unânime poderá se tornar uma monumental frustração.

O trabalho dos jornalistas, sem negligenciar nenhum aspecto da realidade, é fundamental para que a opinião pública reivindique com o máximo de consciência possível políticas públicas capazes de melhorar a qualidade de vida da população. Se não se enxerga o que acontece na própria sede do poder, o que dizer do país todo?

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