Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

CIRCO DA NOTíCIA > FIM DE SEMANA, 7 E 8/01

O Globo

10/01/2006 na edição 363



JK NA GLOBO
Zuenir Ventura

Cuidado com as imitações

‘Com apenas uma semana no ar, ‘JK’ já permite prever sucesso idêntico a ‘Um só coração’, também de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, esses craques da reconstituição histórica. Misturando às vezes um pouco de ficção à realidade, mas com tal habilidade que é como se o que não aconteceu pudesse ter acontecido, os dois construíram uma dramaturgia que é importante não só para a televisão, mas para a produção audiovisual em geral.

Assim como a minissérie anterior usou como pano de fundo a São Paulo modernista, esta de agora, a da era JK ou dos ‘anos dourados’, vai surpreender o Rio num de seus momentos de maior efervescência criativa em diversos campos: música, futebol, cinema, teatro, arquitetura, literatura.

A arte, estimulada pelo arrojo do governo Juscelino, descobriu novos ritmos e harmonias, uma nova maneira de cantar, compor, tocar violão, fazer teatro, filmar e, principalmente, uma nova mentalidade, contra o atraso e a subserviência cultural.

A exemplo do que Tom Jobim e João Gilberto cantavam na música, tudo era mais ou menos desafinado, e dava certo. Garrincha tinha as pernas tortas, Pelé era muito novo para a seleção, Guimarães Rosa escrevia difícil, Vinicius levava o mito de Orfeu para a favela e Brasília era o delírio de um louco – sim, porque só um louco seria capaz de em três anos e dez meses de construção da nova capital ir 225 vezes à cidade, viajando de início num DC3, que fazia 200km por hora, e depois num Viscount, que fazia 400km. ‘Eu chegava lá às 10h ou 11h da noite. Percorria as obras até às 3h da madrugada, quando tomava de novo o avião.’

Quem melhor entendeu o papel de JK foi Nelson Rodrigues, que disse: ‘Ele trouxe a gargalhada para a presidência’, referindo-se ao alto astral do presidente e ao seu gosto por prazeres como a dança e o namoro. Para o dramaturgo, não importavam os erros cometidos – inflação alta, dívida externa, suspeitas de corrupção – nem mesmo as grandes realizações materiais, Furnas, Três Marias, indústria automobilística, Brasília – mas sim o que ele fez com o homem brasileiro: ‘Sacudiu, dentro de nós, insuspeitadas potencialidades. A partir de Juscelino, surge um novo brasileiro.’

Em outras palavras, do próprio Nelson, JK acabou com o nosso complexo de vira-lata. Para os que tentam imitar o ‘Presidente Bossa Nova’ ou se parecer com ele, Nelson Rodrigues fez uma advertência há mais de 40 anos que é válida até hoje, como a minissérie mostrará: ‘O Brasil só conheceu um Juscelino.’ Cuidado com as imitações.’



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