Terça-feira, 23 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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CIRCO DA NOTíCIA >

O que perguntar a nossos candidatos

Por Carlos Brickmann em 24/06/2008 na edição 491

Alguns dos juristas mais conceituados do país consideram que a punição aos veículos de comunicação por entrevistar candidatos é absurda. Juízes de tribunais superiores já se manifestaram: punir quem exerce a liberdade de imprensa é fora de propósito. Qualquer pessoa com mais de três neurônios, mesmo tendo um deles de férias, também acha que deixar de informar seus clientes é inaceitável.

No entanto, a decisão que vigora até este momento é a multa não só aos veículos, mas também aos candidatos entrevistados. Um dos doutos promotores explica: entrevistar pode, mas não sobre planos, projetos, rumos políticos.

Pode-se perguntar ao candidato, por exemplo, se ele pinta o cabelo. Em que salão faz as unhas. Se prefere a carne acompanhada por arroz ou batatas. Qual o centroavante que considera melhor: Adriano, Luís Fabiano ou Pato. Loiras ou morenas? Qual seu galã favorito? Com que par romântico? E a música predileta? Claro, claro: não se pode esquecer de inquirir sua opinião sobre Dunga.

O colega perguntará, com toda a razão, qual o interesse de uma entrevista dessas. Nenhum, claro: qualquer resposta que o candidato dê será absolutamente nula do ponto de vista de escolha do eleitor. Melhor não fazer entrevista nenhuma. O eleitor talvez possa escolher seu candidato pelo horário eleitoral gratuito.

E a política? A menos que algum poder legal superior interfira e bloqueie as ações deletérias contra a imprensa, a democracia vai correr riscos. Se, conhecendo os candidatos, a gente já elege quem elege, imagine se não os conhecermos.



O morro não tem vez

Talvez tenha sido uma falha deste colunista, que não se lembra de ter visto esta notícia em lugar nenhum. Mas algum colega terá tomado conhecimento pela imprensa, antes da morte dos três rapazes, da ação do Exército no Morro da Providência, no Rio?

Não é uma ação comum: primeiro, porque o Exército, quando age como força policial, precisa ter autorização do presidente da República. Segundo, porque este colunista não se lembra de nenhuma ação social privada anterior em que, como na Cimento Social, tenha havido proteção por parte de uma Força Armada. Terceiro, porque esta iniciativa é de um senador governista, Marcelo Crivella, que é candidato a prefeito do Rio nas próximas eleições, e integrante do mesmo partido do vice-presidente José Alencar.

Veja o quadro: um político ligado ao governo federal, candidato a prefeito, comanda uma ação social bem na época em que será candidato, e ganha o apoio de tropas do Exército, que aparentemente atuam sem autorização expressa do presidente da República. Interessante, não? E, no entanto, não despertou a atenção da imprensa. Claro, não adianta aparecer com uma notinha ou outra: desenhado o quadro, vê-se que é assunto de primeira página. E não foi.



O grito do estádio

Há alguns anos, um repórter cobria uma campanha política e viu, pintada num muro de uma cidadezinha do interior, uma frase ofensiva ao candidato. Colocou-a na matéria. Quando voltou, levou uma bronca do editor: a frase era verdadeira, sem dúvida, mas onde estava atingiria mil eleitores. Colocada num grande jornal, seu efeito se multiplicava e passava a atingir centenas de milhares.

A mesma história se repete agora: no jogo entre aquele time que Dunga diz que é a seleção do Brasil e a Argentina, o público entoou alguns gritos até engraçados – engraçados naquele ambiente esportivo, para aquelas 50 mil pessoas, mas que se tornam francamente ofensivos quando são impressos e distribuídos a frio para milhões de leitores. Atribuir a um político um comportamento heterodoxo é possível; mas exige que o assunto seja interessante, e exige uma boa reportagem, que dê base às afirmações contra ele. Simplesmente transcrever um grito do estádio, amplificando-o e multiplicando seu alcance, um grito que causa grande prejuízo a seu alvo, é inaceitável.



Um grande livro

A distribuição não é lá essas coisas: só se encontra este livro, fora de Porto Alegre, nas livrarias da rede Cultura. Mas vale a pena procurar: Ópera dos Vivos, do jornalista gaúcho Jayme Copstein, é uma delícia, daqueles de começar a ler e só largar depois de terminar. É bem escrito, é bem humorado, conta histórias excelentes, engraçadíssimas. Vale para todos, mas para nós, jornalistas, é especialmente divertido. Copstein foi buscar boas histórias, erros monumentais, daqueles que redundavam até na publicação de palavrões, numa época em que certas palavras não podiam ser mencionadas fora de ambientes específicos.

Ópera dos Vivos, de Jayme Copstein, 134 páginas, é editado pela Canadá. Se não conseguir, peça-o ao próprio Copstein: jc1928@uol.com.br



Como é…

O príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, se esforçou e aprendeu português suficiente para fazer seu discurso em São Paulo. E recebeu em troca um nome novo: parte da imprensa o chamou de Nahurito.



…mesmo?

Inglês deficiente não traz risco de acidente.’

Não, não se trata de um cidadão do Reino Unido com algum tipo de problema, mas que pode guiar sem maiores problemas. O texto esclarece que, de acordo com o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, os controladores de vôo não falam fluentemente o inglês na maioria dos países.



E eu com isso?

Você sabia que o príncipe William foi flagrado sem camisa na Inglaterra? Sim, ele, herdeiro da Casa de Windsor, herdeiro do trono imperial, herdeiro de mil anos de tradição monárquica, às vezes fica sem camisa. Dizem até que todos os dias, sempre que troca de roupa, fica sem camisa por alguns instantes.

Não é notável?

Nesta semana, há uma série de informações daquelas que não podemos perder de jeito nenhum. Dá até para classificá-las: há, por exemplo, a série ‘Passeios’:

** ‘Caio Blat passeia com criança no Rio’

** ‘Galvão Bueno caminha sozinho pela orla do Leblon’

** ‘Solteira, Giovanna Antonelli vai a festa de aniversário’

** ‘Glória Maria vai a evento de mãos dadas com ator americano’

** ‘De biquíni branco, Hortência exibe boa forma em Ipanema’

** ‘De barba, Dalton Vigh faz compras em confeitaria no Leblon’

Ou a série ‘Filhos’:

** ‘Filho de Sarah Jessica Parker é politicamente correto’

** ‘O primeiro dia de escola da filha de Ben Afleck e Jennifer Garner’

E há uma informação de primeira linha:

** ‘Jamie Lynn Spears terá já dado à luz por cesariana’

Deu à luz, não deu à luz, vai dar à luz? Quem se arvora em conhecer os desígnios da maternidade?



O grande título

A concorrência é grande. Temos até um representante da área de saúde botânica:

** ‘Árvore que brotou de semente de 2.000 anos passa bem’

O setor ‘se alguém compreender, por favor explique’, tem dois títulos:

** ‘Depois do desfile que quase não saiu, clube por opção’

Deve ter algum sentido, com certeza.

** ‘Vaiado, Brasil prolonga crise e Dunga’

Tudo bem, Dunga é nome de anão, o técnico também não é lá um gigante de estatura, sua seleção é bem fraquinha, mas prolongá-lo não é tortura demais?

E há um título imbatível:

** ‘Menor grávida fica 3 anos em cárcere privado’

A imprensa não percebeu, mas valia manchete: deve ter sido o maior período de gravidez de toda a história da Humanidade.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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