Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

CIRCO DA NOTíCIA > ELEIÇÕES MUNICIPAIS

O que perguntar a nossos candidatos

Por Carlos Brickmann em 24/06/2008 na edição 491

Alguns dos juristas mais conceituados do país consideram que a punição aos veículos de comunicação por entrevistar candidatos é absurda. Juízes de tribunais superiores já se manifestaram: punir quem exerce a liberdade de imprensa é fora de propósito. Qualquer pessoa com mais de três neurônios, mesmo tendo um deles de férias, também acha que deixar de informar seus clientes é inaceitável.

No entanto, a decisão que vigora até este momento é a multa não só aos veículos, mas também aos candidatos entrevistados. Um dos doutos promotores explica: entrevistar pode, mas não sobre planos, projetos, rumos políticos.

Pode-se perguntar ao candidato, por exemplo, se ele pinta o cabelo. Em que salão faz as unhas. Se prefere a carne acompanhada por arroz ou batatas. Qual o centroavante que considera melhor: Adriano, Luís Fabiano ou Pato. Loiras ou morenas? Qual seu galã favorito? Com que par romântico? E a música predileta? Claro, claro: não se pode esquecer de inquirir sua opinião sobre Dunga.

O colega perguntará, com toda a razão, qual o interesse de uma entrevista dessas. Nenhum, claro: qualquer resposta que o candidato dê será absolutamente nula do ponto de vista de escolha do eleitor. Melhor não fazer entrevista nenhuma. O eleitor talvez possa escolher seu candidato pelo horário eleitoral gratuito.

E a política? A menos que algum poder legal superior interfira e bloqueie as ações deletérias contra a imprensa, a democracia vai correr riscos. Se, conhecendo os candidatos, a gente já elege quem elege, imagine se não os conhecermos.



O morro não tem vez

Talvez tenha sido uma falha deste colunista, que não se lembra de ter visto esta notícia em lugar nenhum. Mas algum colega terá tomado conhecimento pela imprensa, antes da morte dos três rapazes, da ação do Exército no Morro da Providência, no Rio?

Não é uma ação comum: primeiro, porque o Exército, quando age como força policial, precisa ter autorização do presidente da República. Segundo, porque este colunista não se lembra de nenhuma ação social privada anterior em que, como na Cimento Social, tenha havido proteção por parte de uma Força Armada. Terceiro, porque esta iniciativa é de um senador governista, Marcelo Crivella, que é candidato a prefeito do Rio nas próximas eleições, e integrante do mesmo partido do vice-presidente José Alencar.

Veja o quadro: um político ligado ao governo federal, candidato a prefeito, comanda uma ação social bem na época em que será candidato, e ganha o apoio de tropas do Exército, que aparentemente atuam sem autorização expressa do presidente da República. Interessante, não? E, no entanto, não despertou a atenção da imprensa. Claro, não adianta aparecer com uma notinha ou outra: desenhado o quadro, vê-se que é assunto de primeira página. E não foi.



O grito do estádio

Há alguns anos, um repórter cobria uma campanha política e viu, pintada num muro de uma cidadezinha do interior, uma frase ofensiva ao candidato. Colocou-a na matéria. Quando voltou, levou uma bronca do editor: a frase era verdadeira, sem dúvida, mas onde estava atingiria mil eleitores. Colocada num grande jornal, seu efeito se multiplicava e passava a atingir centenas de milhares.

A mesma história se repete agora: no jogo entre aquele time que Dunga diz que é a seleção do Brasil e a Argentina, o público entoou alguns gritos até engraçados – engraçados naquele ambiente esportivo, para aquelas 50 mil pessoas, mas que se tornam francamente ofensivos quando são impressos e distribuídos a frio para milhões de leitores. Atribuir a um político um comportamento heterodoxo é possível; mas exige que o assunto seja interessante, e exige uma boa reportagem, que dê base às afirmações contra ele. Simplesmente transcrever um grito do estádio, amplificando-o e multiplicando seu alcance, um grito que causa grande prejuízo a seu alvo, é inaceitável.



Um grande livro

A distribuição não é lá essas coisas: só se encontra este livro, fora de Porto Alegre, nas livrarias da rede Cultura. Mas vale a pena procurar: Ópera dos Vivos, do jornalista gaúcho Jayme Copstein, é uma delícia, daqueles de começar a ler e só largar depois de terminar. É bem escrito, é bem humorado, conta histórias excelentes, engraçadíssimas. Vale para todos, mas para nós, jornalistas, é especialmente divertido. Copstein foi buscar boas histórias, erros monumentais, daqueles que redundavam até na publicação de palavrões, numa época em que certas palavras não podiam ser mencionadas fora de ambientes específicos.

Ópera dos Vivos, de Jayme Copstein, 134 páginas, é editado pela Canadá. Se não conseguir, peça-o ao próprio Copstein: jc1928@uol.com.br



Como é…

O príncipe herdeiro do Japão, Naruhito, se esforçou e aprendeu português suficiente para fazer seu discurso em São Paulo. E recebeu em troca um nome novo: parte da imprensa o chamou de Nahurito.



…mesmo?

Inglês deficiente não traz risco de acidente.’

Não, não se trata de um cidadão do Reino Unido com algum tipo de problema, mas que pode guiar sem maiores problemas. O texto esclarece que, de acordo com o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, os controladores de vôo não falam fluentemente o inglês na maioria dos países.



E eu com isso?

Você sabia que o príncipe William foi flagrado sem camisa na Inglaterra? Sim, ele, herdeiro da Casa de Windsor, herdeiro do trono imperial, herdeiro de mil anos de tradição monárquica, às vezes fica sem camisa. Dizem até que todos os dias, sempre que troca de roupa, fica sem camisa por alguns instantes.

Não é notável?

Nesta semana, há uma série de informações daquelas que não podemos perder de jeito nenhum. Dá até para classificá-las: há, por exemplo, a série ‘Passeios’:

** ‘Caio Blat passeia com criança no Rio’

** ‘Galvão Bueno caminha sozinho pela orla do Leblon’

** ‘Solteira, Giovanna Antonelli vai a festa de aniversário’

** ‘Glória Maria vai a evento de mãos dadas com ator americano’

** ‘De biquíni branco, Hortência exibe boa forma em Ipanema’

** ‘De barba, Dalton Vigh faz compras em confeitaria no Leblon’

Ou a série ‘Filhos’:

** ‘Filho de Sarah Jessica Parker é politicamente correto’

** ‘O primeiro dia de escola da filha de Ben Afleck e Jennifer Garner’

E há uma informação de primeira linha:

** ‘Jamie Lynn Spears terá já dado à luz por cesariana’

Deu à luz, não deu à luz, vai dar à luz? Quem se arvora em conhecer os desígnios da maternidade?



O grande título

A concorrência é grande. Temos até um representante da área de saúde botânica:

** ‘Árvore que brotou de semente de 2.000 anos passa bem’

O setor ‘se alguém compreender, por favor explique’, tem dois títulos:

** ‘Depois do desfile que quase não saiu, clube por opção’

Deve ter algum sentido, com certeza.

** ‘Vaiado, Brasil prolonga crise e Dunga’

Tudo bem, Dunga é nome de anão, o técnico também não é lá um gigante de estatura, sua seleção é bem fraquinha, mas prolongá-lo não é tortura demais?

E há um título imbatível:

** ‘Menor grávida fica 3 anos em cárcere privado’

A imprensa não percebeu, mas valia manchete: deve ter sido o maior período de gravidez de toda a história da Humanidade.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 27/06/2008 Karine Fonseca

    O problema não está tão somente nas entrevistas feitas a candidatos ao próximo pleito, interessantes do ponto de vista informativo. O problema são colegas (nem deveria utilizar desse substantivo), que utilizam da profissão não para informar como orgulhosamente deve ser feito, mas, por interesses próprios, fazem da imprensa uma ferramenta de propaganda do candidato. Em sua maioria avassaladora, entrevistas produzidas a ter respostas mentirosas. É a prostituição da profissão!

  2. Comentou em 24/06/2008 Marco Antônio Leite

    O senhor (a) vai roubar o dinheiro do contribuinte! Sim ou Não? Pelo menos uma vez na vida responda a verdade! Sim ou Não? Vai abrir mão dos 20% das obras a serem realizadas! Sim ou Não? Caso seja suspeito de desvio de verba pública o (a) senhor (a) abre sua conta bancaria, telefônica e tributária! Sim ou Não?

  3. Comentou em 07/11/2004 Humberto Gouvêa Figueiredo

    IMPRENSA: INSTRUMENTO DE LIBERDADE E DE VERDADE
    E NÃO DE ATAQUES!

    “Não é um treino de redação, mas apenas a minha opinião sobre um tema! Se não se sentir a vontade pare por aqui!” (Eu)

    (*) Humberto Gouvêa Figueiredo

    Uma das maiores conquistas da Democracia é a imprensa livre.
    A liberdade e a imparcialidade dos meios de comunicação são fundamentais no Estado Democrático e de Direito, pois asseguram a “investigação social plena” e a publicidade irrestrita de todos os atos, sejam ou não provenientes dos poderes constituídos.
    Tenho pelos jornais, rádios, televisões e internet uma consideração profunda e os reconheço em sua força para impactar a comunidade.
    Negar a força da imprensa é não enxergar a realidade, o óbvio.
    Podemos até não dar atenção para este ou aquele canal, esta ou aquela emissora, mas não resta dúvida que a imprensa tem o poder de formar opinião, de pressionar, de buscar respostas, de exigir ações.
    Acho isto muito bom!
    Mas é preciso considerar limites…
    Refiro a “limites” não no sentido de restringir matérias ou abordagens, mas sim em relação ao uso, ao meu ver, indevido do meio de comunicação como mecanismo de ataques pessoais.
    Em espaços destinados ao leitor, tenho acompanhado, e algumas vezes sido vítima, de comentários que me atingiram não na minha condição de servidor público, que neste sentido tem o dever legal de esclarecer seus atos, mas sim na perspectiva de cidadão, de pessoa física, de pai de família.
    Isto é um absurdo!
    Mais constrangedor ainda é ser “atacado” por pessoas que não tem registro histórico por ações positivas na cidade… são os críticos pela crítica simplista… são os eternos descontentes!
    A sociedade moderna não tem mais espaço para gente que só se limita a criticar, a destruir, a apontar erros e não se compromete em indicar alternativas… ainda que não seja a sua obrigação, que não ganhe para isso, efetivamente não fazem nada além do comentário negativo…e algumas vezes se vangloria ironicamente disto…
    Infelizmente temos em nosso meio, gente (pasmem! Alguns até com curso superior, engravatados e ocupando atividade relevante em Araraquara), apenas “desfazendo”, “desconstruindo”, procurando, como dizem, “agulhas no palheiro” com o propósito de prejudicar alguém ou alguma Instituição.
    Essa gente precisa começar a entender e enxergar que os seus espaços cada vez diminuem mais… os amigos cada vez são em número menor… e as suas vidas ficam cada vez mais tristes!
    Como dizem os jovens, “é preciso deixar a ficha cair”, refletir que o mundo mudou, que a sociedade não quer rancor ou “cara feia”!
    Usar algumas linhas do jornal ou algum espaço no rádio ou na TV para atacar alguém não é um bom caminho, definitivamente.
    Eu, particularmente, busco reparação na justiça em todas as oportunidades que sou vítima de ataques proferidos pela via dos meios de comunicação.
    Aconselho a todos que se sentirem atingidos que façam o mesmo, pois estarão contribuindo para o Estado Democrático de Direito, para com a “Justiça dos Homens” (pois na de Deus o acerto é a posteriori) e, principalmente com o processo de reflexão dos “zangados” com a vida!

    (*) HUMBERTO GOUVEA FIGUEIREDO
    Capitão da Polícia Militar
    Oficial de Ligação PM/GM
    Colaborador
    hgfigueiredo@vivax.com.br

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem