Segunda-feira, 18 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1028
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CIRCO DA NOTíCIA >

Opinião pública é uma, opinião publicada é outra

Por Carlos Brickmann em 04/08/2009 na edição 549

Severino Cavalcanti, lembra? Severino foi apanhado em flagrante recebendo um capilezinho por fora, para assegurar ao restaurante da Câmara dos Deputados o direito de continuar funcionando. Sofreu pesada campanha de imprensa, teve de renunciar para não ser cassado. E se elegeu prefeito de sua cidade, João Alfredo (PE).

Jader Barbalho, lembra? Teve de renunciar à presidência do Senado para não ser cassado, foi preso pela Polícia Federal acusado de envolvimento num escândalo da Sudam, sofreu pesada campanha de imprensa. E se elegeu novamente deputado federal, com toda a facilidade.

Fernando Collor, lembra? Foi afastado da presidência da República por impeachment, ficou com os direitos políticos suspensos, sofreu pesada campanha de imprensa. Depois, elegeu-se senador.

Antonio Carlos Magalhães, lembra? Teve de renunciar para não ser cassado e sofreu pesada campanha de imprensa. Elegeu-se novamente e ainda foi por muitos anos o grande cacique da política baiana.

Em português claro, a opinião do Centro-Sul, base dos maiores meios de comunicação, não é a mesma das outras regiões do país; e, mais importante ainda (já que muitas vezes o eleitor dá seu voto exatamente onde os grandes veículos movem suas campanhas), a opinião publicada não tem muito a ver com a opinião pública. Há diversos exemplos: Jânio Quadros se elegeu prefeito de São Paulo pela primeira vez contra todos os grandes jornais da cidade; Adhemar de Barros raras vezes teve um grande jornal a favor, e sempre desempenhou papel decisivo nas eleições paulistas. Leonel Brizola ganhou no Rio contra todos os meios de comunicação de importância.

Nós, jornalistas, temos uma certa tendência a magnificar a influência daquilo que publicamos. Não é bem assim. Certa vez, a deputada federal Ivete Vargas, que vencera a luta contra Leonel Brizola pela sigla PTB, foi interpelada por um repórter, que queria saber como ela se sentia estando contra a opinião pública. Ela bateu duro: tinha 300 mil votos, falava em nome de 300 mil pessoas. E o repórter, quantos votos tinha tido para falar em nome da opinião pública?

O curioso é que mantenhamos essa tendência autoglorificadora apesar das sucessivas derrotas na batalha pela opinião pública. Este colunista, por exemplo, acha que José Sarney não conduziu o Maranhão, ao menos na velocidade necessária, para o desenvolvimento e a melhora nas condições de vida. Mas esta, definitivamente, não tem sido a opinião do eleitor maranhense. Sarney, sua família e seus candidatos perderam algumas poucas disputas e cansaram de ganhar eleições. Não podemos lutar contra os fatos – a menos que queiramos transformar-nos nos guias geniais da Nação, evitando que o eleitor fique votando em gente que não recomendamos.

 

As mães Dinahs

E, já que o tema é a auto-suficiência dos jornalistas, a mais de um ano de distância das eleições presidenciais já saíram matérias definitivas provando por a+b que a candidatura Serra está sepultada (e, portanto Dilma está eleita) e que Dilma não ganha de maneira nenhuma (e, portanto, Serra está eleito).

Eleição é coisa complicada, gente. Jaques Wagner, segundo as pesquisas e os analistas, lutava para que houvesse segundo turno nas eleições baianas. Ganhou no primeiro turno. Luiza Erundina, então no PT, era apenas uma figurante na disputa entre Paulo Maluf, o franco favorito, e João Leiva Filho, seu principal desafiante. Erundina virou o jogo em poucos dias e ganhou a eleição. Paes de Andrade, antes das eleições, era o prefeito eleito de Fortaleza. Ganhou Luizianne Lins, do PT, derrubando as pesquisas. E Fernando Henrique Cardoso chegou a sentar-se na cadeira de prefeito de São Paulo, aquela que seu adversário Jânio Quadros ocuparia.

Há uma foto famosa na imprensa americana: em 1948, o presidente reeleito Harry S. Truman posou com um importante jornal que, em manchete, dizia que seu adversário Thomas Dewey tinha vencido as eleições.

Se há erro até em boca de urna, que é feita após a votação, imagine sem pesquisa, imagine com 15 meses de antecedência. E lembremos que, em maio de 1993, Fernando Henrique estava assumindo o Ministério da Fazenda de Itamar Franco. Nem ele imaginava que poderia se tornar presidente 18 meses depois.

 

Sem censura ou com censura?

Já se falou amplamente sobre José Sarney, Fernando Sarney e a censura a O Estado de S.Paulo; e muito ainda se falará. Mas o tema mais importante não é este: é a necessidade de ação do Legislativo ou do Supremo Tribunal Federal para resolver de vez a questão da censura prévia. A Constituição proíbe a censura; aí surgem juízes ou tribunais que proíbem jornalistas e jornais de sequer mencionar o nome de determinadas pessoas (e não para por aí: há muita gente tentando ‘disciplinar os horários’ dos programas de TV, ou seja, censurá-los).

Temos de decidir o tipo de país em que queremos viver: com censura ou sem censura. Este colunista prefere um país sem censura – apesar de todos os problemas que isso traz. É preciso deixar claro que a liberdade de opinião e de expressão é incensurável, respondendo cada um, civil e criminalmente, pelos abusos que cometer. E que esta decisão seja ‘pacificada’ – ou seja, ninguém poderá julgar contra ela, já que não cabe a magistrado algum, sejam quais forem suas intenções, sejam quais forem suas motivações, decidir contra a Constituição.

 

Devolvendo…

O engenheiro Ethevaldo Pontes, leitor desta coluna, escreve perguntando se o senador Arthur Virgílio, líder do PSDB, já vendeu o apartamento que disse que iria vender para pagar o dinheiro que recebeu irregularmente do Senado.

Bom, Ethevaldo, ele começou a devolver: dos R$ 210.696,58 calculados pela Diretoria de Recursos Humanos do Senado, pagou R$ 60.696,58, como primeira parcela. Garantiu que a segunda será paga com a venda de imóveis e a tomada de empréstimos. Virgílio manteve em seu gabinete, com salário integral e todas as vantagens e benefícios, um assessor que passou um ano e meio na Europa estudando teatro.

 

…e daí?

Só que a questão ficou esquisita: se o dinheiro foi utilizado irregularmente, a devolução não resolve o problema (é como se uma apropriação indevida deixasse de ser irregular com a devolução do dinheiro). E, se o dinheiro não foi utilizado irregularmente, não haveria razão para devolvê-lo. O próprio senador, ao tomar a iniciativa da devolução, admite tacitamente que houve irregularidade. Neste caso, sem dúvida, deveria haver no mínimo um processo interno, em que a manutenção do decoro parlamentar – e do mandato de Virgílio – estaria em jogo.

 

O mundo como ele é

Mas brasileiro é bonzinho, como já havia mostrado nos humorísticos de TV a bela Kate Lyra. Houve um caso famoso, em que um promotor pediu autorização para ficar seis meses na Itália fazendo um pós-doutorado. Foi e não compareceu a nenhuma aula. Ao voltar, seu relatório foi rejeitado e ele foi condenado a um dia de suspensão.
Por que tratar um caso de maneira mais dura que o outro?

 

Caso Hilton, explicações…

A assessoria de imprensa do Tribunal de Justiça de São Paulo diz que as notícias aqui publicadas sobre o aluguel do prédio do antigo Hotel Hilton estão erradas. Segue o texto:

‘A Assessoria de Imprensa do Tribunal de Justiça de São Paulo esclarece que se o autor do texto nos tivesse procurado teria acesso a informações precisas a respeito da questão. O contrato de locação entre o Tribunal de Justiça de São Paulo e os responsáveis pela administração do Hotel Hilton foi fechado em 12 de julho de 2007, mas o TJSP não paga nada enquanto não mudar. Houve dois aditamentos, em 2008, após a posse da atual gestão do Tribunal de Justiça, quando ficou estabelecido que o TJSP não suportaria nenhuma despesa até conclusão da reforma e liberação do prédio. O TJ impôs penalidades e multas contratuais. Com os aditamentos, o locador assumiu a responsabilidade pela reforma e arca com os custos da obra de adaptação do prédio às necessidades do Tribunal de Justiça. As obras ainda estão em andamento e ainda não existe uma data exata para a ocupação do prédio pelo TJSP’.

Um leitor, Cláudio Pacheco, condômino do Supercentro Paulistânia, dono do prédio, manda comentário semelhante e diz que a nota é ‘uma tremenda mentira’. Registrado. Mas continuemos na nota seguinte.

 

…e informações

O prédio do antigo Hotel Hilton, marco da cidade, foi alugado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo em 25 de junho de 2007, com prazo de 90 dias para reforma e mudança. A informação é da Assessoria de Imprensa do TJ – a mesma assessoria que enviou o desmentido acima.

Em dezembro de 2007, na presença do então presidente do TJ, desembargador Celso Limongi, e do prefeito Gilberto Kassab, as novas instalações foram oficialmente inauguradas. Recentemente, em 16 de junho de 2009, o blog do advogado Ricardo Dias recordou que o prédio, ‘inaugurado há 19 meses, ainda não foi ocupado’.

Em 24 de maio de 2008, mais de cinco meses após a inauguração, o Tribunal de Justiça anunciou ‘o fim do impasse’ no aluguel do Hilton. Um conceituado site jurídico, o ConJur, publicou a informação. Foi quando ocorreram os aditamentos a que se refere a assessoria de imprensa do TJ. Até então, quantos aluguéis já haviam sido pagos? De acordo com reportagem em O Estado de S.Paulo, os pagamentos foram feitos de julho a outubro.

Em 16 de outubro de 2008, o respeitado portal jurídico Migalhas informou que a reforma estaria pronta em mais dois meses – dezembro, portanto. Em 29 de abril de 2009, o TJ abriu licitação para a mudança. Tudo deveria, portanto, estar pronto. Mas, como informa a assessoria de imprensa do tribunal, ‘as obras ainda estão em andamento e ainda não existe uma data exata para a ocupação do prédio pelo TJSP’.

Esta coluna retifica uma falha de informação: diferentemente do número que publicou, o aluguel não é de R$ 600 mil mensais. É de R$ 670 mil mensais.

 

É nóis na fita!

Um mexicano está sendo citado no mundo inteiro como dono do mais comprido e estranho nome: Brhadaranyakopanishadvivekachudamani Erreh Muñoz. É exótico – mas perde para o do antigo craque Capitão, volante de muita raça que defendeu com brilho diversos times, destacando-se a Portuguesa de Desportos, de São Paulo. Capitão tem como nome civil uma homenagem à capital mundial do cinema: Oleúde. E gosta tanto deste nome que seu filho mais velho se chama Oleúde Jr.

 

Como…

De um jornal de circulação nacional, em página nobre, criticando uma opinião do presidente Lula:

‘Até minha netinha (…), de quatro meses, é capaz de produzir uma frase com obviedades menos galopantes’.

O Brasil progride! Este colunista é do tempo em que criança levava no mínimo oito ou nove meses para falar ‘mã-mã’.

 

…é…

Na foto de um portal noticioso, integrantes da família real espanhola aparecem na frente, carregando o caixão de um dos mortos no atentado em Mallorca. No texto, a informação é de que a família real ‘vela os mortos’.

Os hábitos variam de um país para outro. Mas, em todos, velório é velório e enterro é enterro.

 

…mesmo?

De outro portal noticioso, ligado a um grande jornal:

** ‘Cielo bateu o novo recorde mundial (…)’

Se o recorde foi batido, com certeza é o antigo. O novo continua invicto.

 

E eu com isso?

O mundo está mudando, e nem sempre a gente percebe essas mudanças lendo as chamadas ‘notícias sérias’ – onde Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor pontificam há tanto tempo. Mas vejamos aquelas notícias sem as quais é impossível bater um papo sem compromisso no balcão da padaria:

** ‘Bordéis com sexo ilimitado a preço único causam polêmica na Alemanha’

Enfim, sexo rodízio! Ou, como diriam no Sul, estilo espeto corrido.

** ‘Grávida, Ticiane vai a aniversário da mãe em São Paulo’

Ticiane é Ticiane Pinheiro, filha de Helô Pinheiro, a Garota de Ipanema, e mulher do publicitário Roberto Justus, novo astro do SBT. E onde está a mudança? A belíssima Ticiane, próxima de dar à luz, tirou uma série de fotos sugestivas. E o pessoal do photoshop parece que abusou: deixou-a sem umbigo. O único caso anterior, comprovado, de que este colunista teve conhecimento, ocorreu com Diana, a namorada do Fantasma. Nos magníficos desenhos de Ray Moore, um dos maiores quadrinistas da História, Diana não tinha umbigo.

** ‘Uma semana depois, Jennifer Garner continua com o mesmo machucado no joelho’

Voltemos ao antigo bordão de Fausto Silva: este colunista é do tempo em que as pessoas não trocavam com facilidade de machucado no joelho.

** ‘Hummer de Romário pode estar envolvido em crime’

É outra novidade: antigamente, carros capazes de se envolver em crimes eram coisa de cinema.

E há as boas notícias, coisas apenas relaxantes:

** ‘Filhas de Obama fazem e comem o famoso sorvete italiano em Roma’

** ‘De chinelinho, Patrícia Poeta curte manhã com o filho’

** ‘Taís Araújo leva a sério a academia’

** ‘Otávio Muller atravessa a rua enrolado em toalha de banho’

** ‘Carolina Dieckmann está levemente turbinada’

 

Primeiro mundo

Não sejamos injustos: a gente aqui pode até produzir bons exemplares, mas o Primeiro Mundo ainda tem algo a nos ensinar – em jornalismo e em comportamento. Alguns itens magníficos da imprensa americana nos foram enviados pelo consultor Isu Fang, leitor assíduo desta coluna. Let’s see:

De um jornal especializado em temas jurídicos:

** ‘Advogado de Alton acidentalmente move processo contra si mesmo’

** Título de reportagem: ‘Condado gasta US$ 250 mil para anunciar que não tem dinheiro’

** Outro título (a sério): ‘Voluntários procuram velhos aviões da Guerra Civil’

Vão procurar muito. Se acharem, será uma revolução histórica: a Guerra Civil americana ocorreu em meados do século 19, e o avião, pelo que se sabia até agora, só foi inventado no século 20.

Três títulos especiais, do tipo ‘que cada um cumpra seu dever’:

** ‘Centro de Controle de Venenos de Utah recomenda a todos que não tomem veneno’

** ‘Agentes federais invadem loja de armas de fogo e encontram armamento’

** ‘Estatísticas mostram que gravidez na adolescência cai significativamente após os 25 anos de idade’

O melhor título internacional é jurídico (e inclui até conflito de jurisdição):

** ‘Dez mandamentos – Suprema Corte diz que alguns estão OK, outros não’

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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