Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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Os defeitos da imprensa, viva a imprensa!

Por Carlos Brickmann em 14/11/2006 na edição 407

Adlai Stevenson, um dos grandes políticos americanos, costumava dizer que a função do editor do jornal é separar o joio do trigo, e publicar o joio.

Um proprietário de jornal dizia aos jornalistas que as fábricas vendiam todo o papel que produziam. Só encalhava quando a gente botava letrinhas nele.

Renato Pompeu, jornalista de primeiro time, tem seu jeito de avaliar a competência da imprensa: leia a reportagem sobre algo que você conhece. Nunca bate.

Este colunista costuma dizer que a imprensa também publica fatos verdadeiros, às vezes, e isso confunde o leitor.

Pronto: toda essa gente fanática que, na euforia da vitória, se comporta como se tivesse perdido e culpa a imprensa por todos os males do mundo, pode parar a leitura por aqui mesmo. Ou vão verificar que todas essas frases saíram na imprensa; e que, por menos que alguém goste da imprensa, ela é sua garantia.

Repare: não há país democrático sem imprensa livre. Não há imprensa livre em país não-democrático. Aquelas histórias de liberdade de empresa, de imprensa burguesa, são apenas histórias: desculpas de quem gosta de pensamento único. Essas histórias de que a imprensa manipula as eleições também são histórias. Brizola se elegeu quantas vezes quis no quintal da Rede Globo, que o detestava. Dizem os raivosos que a imprensa manipulou a opinião pública contra Lula. Se a imprensa manipulou a opinião pública contra Lula, como é que ele se elegeu?

A imprensa está cheia de defeitos, e defeitos graves. Mas é na própria imprensa que esses defeitos são discutidos. Os veículos que perdem a sintonia com a opinião pública apenas morrem – como a TV Tupi, como o Diário da Noite, como O Cruzeiro, como O Pasquim. Se sobrevivem é porque o público está disposto a pagar por eles. É simples assim. O resto é choradeira de quem não suporta uma opinião que não seja a sua.



Os defeitos da imprensa – 1

A imprensa é poderosa; e é preciso evitar, por meios legais, que esse poder ultrapasse os limites da democracia. Nada de perseguir jornais, de quebrar sigilos telefônicos de jornalistas (o que viola o direito de proteger a fonte), de pedir a anunciantes que boicotem determinado veículo. Uma boa maneira de limitar o poder da imprensa e aumentar a concorrência no mercado é regulamentar a propriedade cruzada de veículos. Permitir que um mesmo grupo tenha rádio, TV, jornal, revista e provedor de internet é pedir que os concorrentes sejam esmagados. Em outros países, a propriedade cruzada é cuidadosamente restrita: quem tem rádio numa cidade não pode ter jornal ou TV num determinado círculo.

Mesmo a posse de dois jornais, ou duas rádios, na mesma região, é algo que merece atenção do legislador. Aí entra o segundo grande defeito da imprensa.



Os defeitos da imprensa – 2

Os legisladores costumam ser proprietários de emissoras de TV e rádio (alguns, em menor número, de jornais). Quando são proprietários de TV, dependem de alguma rede que lhes forneça a programação. E não vão, em hipótese alguma, contrariar os grandes grupos proprietários de redes de TV. O caro leitor certamente se lembrará do combate travado por Antonio Carlos Magalhães para garantir à sua empresa de TV a filiação à Rede Globo. Seria preciso restringir o acesso à vida pública dos proprietários de meios de comunicação. Isso, aliás, só faria bem para eles: nenhum Mesquita, Marinho, Frias, Saad ou Sirotsky precisou ser político. Preferiram gastar o tempo dirigindo suas empresas.



Os defeitos da imprensa – 3

E, completando o raciocínio, entregar concessões de rádio e TV a políticos atuantes é uma vergonha, algo que não pode ser tolerado. Equivale a comprar votos. Que tal um rapa total: o que o sr. prefere, a concessão ou o mandato?

É pena, mas é sonho. Qual o parlamentar que vai votar contra si mesmo?



Os mil defeitos da imprensa

Este é só um começo: a imprensa tem tantos defeitos que, se ficarmos conversando uma semana inteira sobre eles, não faltará assunto. A imprensa tem tantos defeitos que não é preciso inventar outros.

E, cá entre nós, entre os defeitos da imprensa não está o Alberto Dines. Para atacá-lo, caros colegas, será preciso ainda comer muito feijão. Será preciso construir um grande jornal, enfrentar a ditadura, montar um portal sem patrão.



Recordando

Bem no início do governo Collor, a Polícia Federal invadiu a Folha de S.Paulo por uma bobagem qualquer. Nem se inicia o governo Lula, no meio da tempestade de críticas que os xiitas do petismo fazem à imprensa, a Polícia Federal, ‘por engano’, quebra o sigilo de telefones da Folha de S.Paulo, violando a garantia legal de sigilo das fontes. Como no caso do governo Collor, quando a administração se volta contra a imprensa, está se comportando como os sultões que mandavam matar os mensageiros que lhes traziam más notícias; quando a administração se volta contra a imprensa, está descuidando de fazer aquilo para o qual foi eleita, governar o país.

A propósito, os jornais protestam contra a violação de seu sigilo, e têm toda a razão. Mas como é que se comportam quando são eles mesmos que violam o sigilo de processos judiciais, manchando reputações? Este é o tema de uma excelente entrevista do constitucionalista Pedro Estevam Serrano, concedida ao repórter Camilo Toscano, do portal Última Instância. Leia aqui.



Censura na internet

O projeto relatado pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e felizmente já arquivado pareceu a este colunista um amontoado de bobagens. Alguns colegas corretos e inteligentes, como Jayme Copstein e Luís Nassif, entretanto, viram na idéia de identificação dos clientes da internet uma boa possibilidade.

E é: hoje, com o anonimato garantido, a internet está livre para todo tipo de criminoso. Mas como implementar essa boa idéia? A internet é, por definição, global; leis federais são, por definição, nacionais. Como identificar um pedófilo que tenha endereço eletrônico no Azerbaijão? Ou um terrorista que utilize provedores internacionais especializados em garantir o anonimato de seus clientes, como o que hospeda o endereço nazista dos skinheads? Este provedor, em sua propaganda, promete até variar o IP, a identificação dos computadores, para dificultar a tarefa de quem tentar rastreá-lo.



Vamos estar inicializando

Com tanta novidade em termos de analfabetismo, ouvidos e olhos não param de doer. O computador ajuda no massacre ao idioma: é uma máquina que se desliga pelo botão ‘iniciar’ e que, quando inicia os trabalhos, diz que ‘está inicializando’. A isso esteve se juntando o telemarketing, para estar podendo disponibilizar serviços que a gente não vai estar desejando.

Ancelmo Góis, em O Globo, traz um exemplo maravilhoso: ‘Quando sobrecarregado, o 0800 282 0120, da Light, dá o recado: ‘Estamos experienciando alto volume de ligações’’.

As transmissões ao vivo, no capricho, deixam a Última Flor do Lácio mais inculta e menos bela: ‘O quantitativo de policiais está aumentando em redor do ônibus seqüestrado’.

Há alguns trechos que valem pela forma geral – o conjunto da obra. Como este, sob o título ‘Atriz atira laptop de paparazzo e acerta duas velhinhas’:

‘Irritada com o assédio dos fotógrafos, a atriz Denise Richards atirou o laptop de um paparazzo da sacada de um hotel no Canadá e acertou duas senhoras que passavam embaixo (…). Em agosto passado, Denise Richards acertou o divórcio (…).’

Se uma palavra serve para tudo, para que usar outra?



Possa estar providenciando

Às vezes, num só portal de internet, no mesmo dia, os títulos usam as mesmas formas nas mais diversas notícias. Como aqui:

Notícia 1 – ‘Foto sensual de Sheila Mello vira clássico em revista’. ‘Veja outros ensaios sensuais‘. ‘Sexy, a ex-bailarina do grupo É o Tchan (…)’

Notícia 2 – ‘Angélica deixa de lado ar inocente em ensaio sensual‘. ‘Fotos: mais ensaios sensuais‘. A propósito, Angélica veste um recatado biquíni.

Notícia 3 – ‘Morena, Cameron Diaz aparece em pose sexy em capa de revista (…) Cameron Diaz, 34, que aparece morena em fotos sensuais‘.

Deve ser complicado escrever e titular notícias de fofocas, já que as situações se repetem. Mas se essas moças fazem poses sexies e sensuais, como classificar o vídeo famoso de Daniela Cicarelli na praia?



E eu com isso?

Você sabia que a Britney Spears se separou? Está bem, você é bem informado. Mas que é que ela fez logo após a separação? É para isso que existem os repórteres, caro colega!

** ‘Britney Spears vai patinar após mídia divulgar separação’

E Tom Cruise, que é que faz quando está namorando? Então:

** ‘Tom Cruise e Katie Holmes pagam US$ 10 mil por bife’

O restaurante é o Mastro’s Steakhouse, em Beverly Hills – em eventuais visitas a Hollywood, caro colega, evite-o!

Eles vão se casar em 18 de dezembro, informa o mesmo noticiário. É melhor ele caprichar nos cachês: não será barato alimentar a família.

E agora um título caprichado: anos depois do evento, a imprensa divulga que é que os pais sentiram quando foi divulgado o vídeo pornô de sua filha Paris Hilton. Mas também não é uma sentença definitiva, daqueles que não admitem recurso: de repente não foi bem assim, né? E vem o título, bem em cima do muro:

** ‘Pais de Paris Hilton teriam orgulho do vídeo pornô da filha’



Os grandes títulos

Nesta semana há dois achados:

1. ‘Massa irá a evento beneficente com feijoada’

Tudo bem, Stanislaw Ponte Preta dizia que uma feijoada só é completa quando tem ambulância à porta. Feijoada com Massa, entretanto, vai além!

2. ‘Torna-se realidade primeiro programa obrigatório mundial para financiar’

Sim, é só isso, Provavelmente o título estava ficando meio grande e o copy resolveu parar por ali mesmo.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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