Quarta-feira, 20 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CIRCO DA NOTíCIA > O JOIO E O TRIGO

Os defeitos da imprensa, viva a imprensa!

Por Carlos Brickmann em 14/11/2006 na edição 407

Adlai Stevenson, um dos grandes políticos americanos, costumava dizer que a função do editor do jornal é separar o joio do trigo, e publicar o joio.

Um proprietário de jornal dizia aos jornalistas que as fábricas vendiam todo o papel que produziam. Só encalhava quando a gente botava letrinhas nele.

Renato Pompeu, jornalista de primeiro time, tem seu jeito de avaliar a competência da imprensa: leia a reportagem sobre algo que você conhece. Nunca bate.

Este colunista costuma dizer que a imprensa também publica fatos verdadeiros, às vezes, e isso confunde o leitor.

Pronto: toda essa gente fanática que, na euforia da vitória, se comporta como se tivesse perdido e culpa a imprensa por todos os males do mundo, pode parar a leitura por aqui mesmo. Ou vão verificar que todas essas frases saíram na imprensa; e que, por menos que alguém goste da imprensa, ela é sua garantia.

Repare: não há país democrático sem imprensa livre. Não há imprensa livre em país não-democrático. Aquelas histórias de liberdade de empresa, de imprensa burguesa, são apenas histórias: desculpas de quem gosta de pensamento único. Essas histórias de que a imprensa manipula as eleições também são histórias. Brizola se elegeu quantas vezes quis no quintal da Rede Globo, que o detestava. Dizem os raivosos que a imprensa manipulou a opinião pública contra Lula. Se a imprensa manipulou a opinião pública contra Lula, como é que ele se elegeu?

A imprensa está cheia de defeitos, e defeitos graves. Mas é na própria imprensa que esses defeitos são discutidos. Os veículos que perdem a sintonia com a opinião pública apenas morrem – como a TV Tupi, como o Diário da Noite, como O Cruzeiro, como O Pasquim. Se sobrevivem é porque o público está disposto a pagar por eles. É simples assim. O resto é choradeira de quem não suporta uma opinião que não seja a sua.



Os defeitos da imprensa – 1

A imprensa é poderosa; e é preciso evitar, por meios legais, que esse poder ultrapasse os limites da democracia. Nada de perseguir jornais, de quebrar sigilos telefônicos de jornalistas (o que viola o direito de proteger a fonte), de pedir a anunciantes que boicotem determinado veículo. Uma boa maneira de limitar o poder da imprensa e aumentar a concorrência no mercado é regulamentar a propriedade cruzada de veículos. Permitir que um mesmo grupo tenha rádio, TV, jornal, revista e provedor de internet é pedir que os concorrentes sejam esmagados. Em outros países, a propriedade cruzada é cuidadosamente restrita: quem tem rádio numa cidade não pode ter jornal ou TV num determinado círculo.

Mesmo a posse de dois jornais, ou duas rádios, na mesma região, é algo que merece atenção do legislador. Aí entra o segundo grande defeito da imprensa.



Os defeitos da imprensa – 2

Os legisladores costumam ser proprietários de emissoras de TV e rádio (alguns, em menor número, de jornais). Quando são proprietários de TV, dependem de alguma rede que lhes forneça a programação. E não vão, em hipótese alguma, contrariar os grandes grupos proprietários de redes de TV. O caro leitor certamente se lembrará do combate travado por Antonio Carlos Magalhães para garantir à sua empresa de TV a filiação à Rede Globo. Seria preciso restringir o acesso à vida pública dos proprietários de meios de comunicação. Isso, aliás, só faria bem para eles: nenhum Mesquita, Marinho, Frias, Saad ou Sirotsky precisou ser político. Preferiram gastar o tempo dirigindo suas empresas.



Os defeitos da imprensa – 3

E, completando o raciocínio, entregar concessões de rádio e TV a políticos atuantes é uma vergonha, algo que não pode ser tolerado. Equivale a comprar votos. Que tal um rapa total: o que o sr. prefere, a concessão ou o mandato?

É pena, mas é sonho. Qual o parlamentar que vai votar contra si mesmo?



Os mil defeitos da imprensa

Este é só um começo: a imprensa tem tantos defeitos que, se ficarmos conversando uma semana inteira sobre eles, não faltará assunto. A imprensa tem tantos defeitos que não é preciso inventar outros.

E, cá entre nós, entre os defeitos da imprensa não está o Alberto Dines. Para atacá-lo, caros colegas, será preciso ainda comer muito feijão. Será preciso construir um grande jornal, enfrentar a ditadura, montar um portal sem patrão.



Recordando

Bem no início do governo Collor, a Polícia Federal invadiu a Folha de S.Paulo por uma bobagem qualquer. Nem se inicia o governo Lula, no meio da tempestade de críticas que os xiitas do petismo fazem à imprensa, a Polícia Federal, ‘por engano’, quebra o sigilo de telefones da Folha de S.Paulo, violando a garantia legal de sigilo das fontes. Como no caso do governo Collor, quando a administração se volta contra a imprensa, está se comportando como os sultões que mandavam matar os mensageiros que lhes traziam más notícias; quando a administração se volta contra a imprensa, está descuidando de fazer aquilo para o qual foi eleita, governar o país.

A propósito, os jornais protestam contra a violação de seu sigilo, e têm toda a razão. Mas como é que se comportam quando são eles mesmos que violam o sigilo de processos judiciais, manchando reputações? Este é o tema de uma excelente entrevista do constitucionalista Pedro Estevam Serrano, concedida ao repórter Camilo Toscano, do portal Última Instância. Leia aqui.



Censura na internet

O projeto relatado pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) e felizmente já arquivado pareceu a este colunista um amontoado de bobagens. Alguns colegas corretos e inteligentes, como Jayme Copstein e Luís Nassif, entretanto, viram na idéia de identificação dos clientes da internet uma boa possibilidade.

E é: hoje, com o anonimato garantido, a internet está livre para todo tipo de criminoso. Mas como implementar essa boa idéia? A internet é, por definição, global; leis federais são, por definição, nacionais. Como identificar um pedófilo que tenha endereço eletrônico no Azerbaijão? Ou um terrorista que utilize provedores internacionais especializados em garantir o anonimato de seus clientes, como o que hospeda o endereço nazista dos skinheads? Este provedor, em sua propaganda, promete até variar o IP, a identificação dos computadores, para dificultar a tarefa de quem tentar rastreá-lo.



Vamos estar inicializando

Com tanta novidade em termos de analfabetismo, ouvidos e olhos não param de doer. O computador ajuda no massacre ao idioma: é uma máquina que se desliga pelo botão ‘iniciar’ e que, quando inicia os trabalhos, diz que ‘está inicializando’. A isso esteve se juntando o telemarketing, para estar podendo disponibilizar serviços que a gente não vai estar desejando.

Ancelmo Góis, em O Globo, traz um exemplo maravilhoso: ‘Quando sobrecarregado, o 0800 282 0120, da Light, dá o recado: ‘Estamos experienciando alto volume de ligações’’.

As transmissões ao vivo, no capricho, deixam a Última Flor do Lácio mais inculta e menos bela: ‘O quantitativo de policiais está aumentando em redor do ônibus seqüestrado’.

Há alguns trechos que valem pela forma geral – o conjunto da obra. Como este, sob o título ‘Atriz atira laptop de paparazzo e acerta duas velhinhas’:

‘Irritada com o assédio dos fotógrafos, a atriz Denise Richards atirou o laptop de um paparazzo da sacada de um hotel no Canadá e acertou duas senhoras que passavam embaixo (…). Em agosto passado, Denise Richards acertou o divórcio (…).’

Se uma palavra serve para tudo, para que usar outra?



Possa estar providenciando

Às vezes, num só portal de internet, no mesmo dia, os títulos usam as mesmas formas nas mais diversas notícias. Como aqui:

Notícia 1 – ‘Foto sensual de Sheila Mello vira clássico em revista’. ‘Veja outros ensaios sensuais‘. ‘Sexy, a ex-bailarina do grupo É o Tchan (…)’

Notícia 2 – ‘Angélica deixa de lado ar inocente em ensaio sensual‘. ‘Fotos: mais ensaios sensuais‘. A propósito, Angélica veste um recatado biquíni.

Notícia 3 – ‘Morena, Cameron Diaz aparece em pose sexy em capa de revista (…) Cameron Diaz, 34, que aparece morena em fotos sensuais‘.

Deve ser complicado escrever e titular notícias de fofocas, já que as situações se repetem. Mas se essas moças fazem poses sexies e sensuais, como classificar o vídeo famoso de Daniela Cicarelli na praia?



E eu com isso?

Você sabia que a Britney Spears se separou? Está bem, você é bem informado. Mas que é que ela fez logo após a separação? É para isso que existem os repórteres, caro colega!

** ‘Britney Spears vai patinar após mídia divulgar separação’

E Tom Cruise, que é que faz quando está namorando? Então:

** ‘Tom Cruise e Katie Holmes pagam US$ 10 mil por bife’

O restaurante é o Mastro’s Steakhouse, em Beverly Hills – em eventuais visitas a Hollywood, caro colega, evite-o!

Eles vão se casar em 18 de dezembro, informa o mesmo noticiário. É melhor ele caprichar nos cachês: não será barato alimentar a família.

E agora um título caprichado: anos depois do evento, a imprensa divulga que é que os pais sentiram quando foi divulgado o vídeo pornô de sua filha Paris Hilton. Mas também não é uma sentença definitiva, daqueles que não admitem recurso: de repente não foi bem assim, né? E vem o título, bem em cima do muro:

** ‘Pais de Paris Hilton teriam orgulho do vídeo pornô da filha’



Os grandes títulos

Nesta semana há dois achados:

1. ‘Massa irá a evento beneficente com feijoada’

Tudo bem, Stanislaw Ponte Preta dizia que uma feijoada só é completa quando tem ambulância à porta. Feijoada com Massa, entretanto, vai além!

2. ‘Torna-se realidade primeiro programa obrigatório mundial para financiar’

Sim, é só isso, Provavelmente o título estava ficando meio grande e o copy resolveu parar por ali mesmo.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/07/2008 Marco Vitis

    Prezados Senhores,
    Ontem (21/07) o programa Roda Viva foi uma calamidade. O entrevistado, Caio Túlio, que lançará um livro sobre o assunto em referência, externou conceitos que nos auxiliam a compreender a miséria que domina as redações.
    (1) apresentou como inexorável a intersecção – cada vez mais acentuada – entre Comercial e Redação. A separação entre ‘Igreja e Estado’ deixará de existir em pouco tempo.
    (2) a informação jornalística é apenas um produto empacotado. Nada sobre o nosso Direito à Informação. Ou seja, valores pecuniários em lugar de valores Democráticos.
    (3) e o pior: é um Professor de Ética no curso de Comunicação da Cásper Líbero. Imagine a cabeça desses jornalistas (de)formados por essa instituição.
    A TV Cultura está nos devendo um bom programa sobre Ética no Jornalismo. O de ontem foi uma exaltação a Amoralidade.
    O Observatório pode fazer uma crítica do programa e encaminhar à TV Cultura ? Ou eles considerarão isso uma ofensa ?
    Marco Vitis

  2. Comentou em 22/07/2008 Marco Vitis

    Prezados Senhores,
    Ontem (21/07) o programa Roda Viva foi uma calamidade. O entrevistado, Caio Túlio, que lançará um livro sobre o assunto em referência, externou conceitos que nos auxiliam a compreender a miséria que domina as redações.
    (1) apresentou como inexorável a intersecção – cada vez mais acentuada – entre Comercial e Redação. A separação entre ‘Igreja e Estado’ deixará de existir em pouco tempo.
    (2) a informação jornalística é apenas um produto empacotado. Nada sobre o nosso Direito à Informação. Ou seja, valores pecuniários em lugar de valores Democráticos.
    (3) e o pior: é um Professor de Ética no curso de Comunicação da Cásper Líbero. Imagine a cabeça desses jornalistas (de)formados por essa instituição.
    A TV Cultura está nos devendo um bom programa sobre Ética no Jornalismo. O de ontem foi uma exaltação a Amoralidade.
    O Observatório pode fazer uma crítica do programa e encaminhar à TV Cultura ? Ou eles considerarão isso uma ofensa ?
    Marco Vitis

  3. Comentou em 17/11/2006 Francisco das Chagas Alves

    Deixa ver se entendi o comentário abaixo: o distinto jornalista acha de defender um respeitado, estudioso colega. Pega um ‘figurante’ da platéia e senta o sarrafo no cartaz que este segura sem ter a menor noção de quem estava ‘sarrafeando’? Não tinha que saber, ter alguma noção de quem se tratava? Desculpe, mas isso não é defeito da Imprensa. É no mínimo arrogância.

  4. Comentou em 17/11/2006 Rogério Ferraz Alencar

    “Entre os defeitos da mídia não está Alberto o Dines. Para atacá-lo, caros colegas, será preciso ainda comer muito feijão. Será preciso construir um grande jornal, enfrentar a ditadura, montar um portal sem patrão.” Não creio que se precise de tanto. E o que ele mais tem sofrido é contestação. Os ataques são mais revides. Para ele nos atacar, então, teria que saber e pesar a história de cada um. Jornalista não pode fazer a fama e deitar na cama. O fato é que Alberto Dines, de observador da mídia, passou a defensor dela. A não ser quando se trata de CartaCapital ou Istoé. Mas seguindo o diapasão: para atacar Lula, é preciso comer muito feijão, ser retirante, presidente de sindicato, lutar contra a ditadura, fundar um partido de esquerda que se torne o maior da América Latina, fundar uma central sindical que se torne a maior do Brasil, liderar uma campanha pela volta de eleições para presidente, passar por três CPIs, ser eleito e reeleito presidente da República e reconstruir um país.
    .

  5. Comentou em 16/11/2006 Nídia e Roniel Nídia Waters / Roniel Goldfeller

    Olá Carlos.

    Somos Nídia e Roniel, escrevemos um comentário em seu post Os Exageros no link abaixo: http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=406CIR001

    porém, como já se passou muito tempo desde a inclusão deste post, estou escrevendo por aqui, para que vc possa ler minha observação.
    Veja: Somos nós que fizemos e seguramos os cartazes na festa da vitória do Lula, que vc menciona no post. Bem, em primeiro lugar, não conhecemos realmente a história de vida do senhor Ali Kamel, mas conheço o suficiente para poder critcar seu trabalho, afinal, o que estava em jogo nos meus cartazes era o lado profissional e manipulado dele. Sobre Ali Kamel, vc pode acessar o link que incluí e ler nosso comentário completo, pois o que quero falar aqui já é outra coisa: No seu texto vc, de forma confusa sugere que nós não somos ‘eleitores de Lula’, gente comum, de fora do meio. Para começar, isto mostra uma falta de conhecimento sua com relação ao ambiente político atual, veja: existem 60 milhões de pessoas que queriam segurar aquele cartaz. Mostra tbm seu lado típico de mídia brasileira, acusa e/ou sugerir sem provas. Só para que vc saiba, nós não somos militantes, não somos filiados a partido algum e nem somos do meio como vc disse, para sua surpresa, nós somos gente comum sim: ELEITORES DE LULA. (continua…)

  6. Comentou em 16/11/2006 Maurício Pessoa de Faria

    Parabéns, Brickman, pelo excelente artigo. Você se supera toda as semanas.

  7. Comentou em 16/11/2006 Maurício Pessoa de Faria

    Parabéns, Brickman, pelo excelente artigo. Você se supera toda as semanas.

  8. Comentou em 15/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    Caro Carlos Pedreiro, se o sigilo entre advogado e cliente é garantido por
    lei, pode ser quebrado pela lei, pela justiça. não é um direito absoluto, nem
    é respeitado pela própria imprensa. Lembra-se da advogada do Marcola, foi sabatinada, prensada por políticos e por repórteres. Não é crime receptar algo roubado? Não se o documento ou objeto é receptado pela imprensa que ainda fatura uns trocados com a venda da informação. Sigilo bancário é garantido por lei só para caseiro de ministro do PT, divulgação de movimentação na conta do FREUD, não é amparada pelo sigilo. Se há para a imprensa dois pesos e duas medidas gostaria de saber mais sobre as informações que a mídia recebe, pois, podem ser de origem e com intuitos criminosos. Fernandinho Beira Mar deveria ser jornalista, pois, estaria imune às investigações.

  9. Comentou em 15/11/2006 nelson perez de oliveira junior

    Caro Carlos Pedreiro, se o sigilo entre advogado e cliente é garantido por
    lei, pode ser quebrado pela lei, pela justiça. não é um direito absoluto, nem
    é respeitado pela própria imprensa. Lembra-se da advogada do Marcola, foi sabatinada, prensada por políticos e por repórteres. Não é crime receptar algo roubado? Não se o documento ou objeto é receptado pela imprensa que ainda fatura uns trocados com a venda da informação. Sigilo bancário é garantido por lei só para caseiro de ministro do PT, divulgação de movimentação na conta do FREUD, não é amparada pelo sigilo. Se há para a imprensa dois pesos e duas medidas gostaria de saber mais sobre as informações que a mídia recebe, pois, podem ser de origem e com intuitos criminosos. Fernandinho Beira Mar deveria ser jornalista, pois, estaria imune às investigações.

  10. Comentou em 14/11/2006 Jose Rodrigues

    Huá, huá, huá!…
    Adorei a feijoada com Massa. Vai precisar de umas duas ambulâncias!

  11. Comentou em 14/11/2006 Rogério Barreto Brasiliense

    O artivulista esqueceu-se de relacionar mais um defeito da imprensa brasileira: o defeito de autoelogiar-se. Tipico de quem só olha para o próprio umbigo

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