Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > BESTEIRAS DIGITAIS

Os erros e o erro

Por Carlos Brickmann em 29/03/2005 na edição 322

Quanto representa a internet na difusão global de informações? Em porcentagem, pouco: a TV bate de goleada quaisquer outros meios. Mas, em influência, muito: a troca de notícias e sua difusão pelos portais atinge bom número de formadores de opinião – inclusive os pauteiros de jornais, revistas, rádio e TV.


O problema é o controle de qualidade: notícias velhas dão a volta ao mundo e retornam; notícias falsas ficam com jeito de verdadeiras. E muita gente acredita que aquele mapa americano que mostra o Brasil sem a Amazônia existe mesmo.


Cabe a nós, que usamos a internet, separar o viável do absurdo. E nem isso vem sendo feito. Recebi (com sabe-se lá quantas outras pessoas) uma carta bem escrita, supostamente enviada a Gilberto Gil, criticando uma frase sua, famosa pela falta de sentido. Até aí, tudo bem: Gil disse aquilo, e ninguém o entendeu. Mas a carta vai mais longe e atribui ao presidente Lula uma frase idiota: ‘O holocausto foi um período obsceno na história da nossa nação. Quero dizer, na história deste século. Mas todos vivemos neste século. Eu não vivi nesse século’.


A frase é absurda. O Holocausto não ocorreu no Brasil, não faz parte de nossa História. Mas a história da frase é exemplar: quando George Bush foi candidato à presidência dos EUA, contra Al Gore, foi atribuída ora a um, ora a outro. Bush ganhou, passou a ser atribuída só a ele. Com a ascensão de Lula, pespegaram-lhe a frase que ele não apenas não disse como nem poderia ter dito. Jogaram-lhe outras, também; todas imbecis, todas falsas. É injusto. E bobo. Lula, se fosse burro, não chegaria onde está. E sabe perfeitamente criar suas próprias bobagens.




Fogo na palha


Um veterano jornalista, Carlos Laino, que fez história da imprensa brasileira, costumava acalmar os repórteres que haviam publicado histórias erradas dizendo-lhes que, no dia seguinte, o jornal estaria embrulhando peixe. O problema, hoje, é que internet não embrulha peixe: as colunas ficam enquanto ninguém as tira. E as notícias vão e vêm. Uma criança sequestrada em 2002 e localizada logo depois continua tendo a foto divulgada até hoje, enquanto se pede aos internautas que espalhem a notícia. E a luta pelo furo fragiliza os controles: o importante é botar a notícia em primeira mão, mesmo que depois se apure que não era bem assim. Alguns, nesse caso, tiram a notícia do ar, ou acrescentam a versão do outro lado; outros não estão preocupados com este problema. E a notícia se espalha rapidamente: se um site dá, os outros não querem ficar para trás.


Já está valendo uma discussão interna, de jornalistas, sobre como usar a internet. Temos à mão o sonho do jornal sem patrão; precisamos torná-lo realidade sem vítimas inocentes da guerra pelo furo.




Queer game


Tem gente que odeia futebol escrevendo sobre futebol. Gente que chama passe de ‘assistência’, como se futebol fosse basquete; gente que chama armador (ou armandinho) de ‘garçom’, porque serve a bola ao goleador. Agora surgiu uma nova: o São Paulo, favorito na disputa pelo título paulista, estaria pelo ‘match point’. Fora a veadagem, fora a busca, em esportes menos populares, de termos alheios ao futebol, está errado: ‘match point’ é o ponto que define o jogo, o ponto decisivo. E, no caso, se o São Paulo vencer o tal jogo do ‘match point’ ainda dependerá do resultado de dois adversários para chegar ao título.


Boiolice, vá lá: há uma caneta cujo nome é em francês, o nome do modelo é alemão, e tem slogan em inglês. Tem loja que não faz liquidação, mas ‘sale’, tem gente que não dá desconto, mas oferece um ‘off’. Mas, se é para usar outra língua, se é para usar o termo de outro esporte, que pelo menos esteja certo.




Perigo ou não?


De acordo com a Folha de S.Paulo, três pessoas morrem por causa do caldo de cana contaminado. De acordo com o Estado de S.Paulo, 50 mil pessoas estão em risco por causa do caldo de cana contaminado. Em quem acreditar?




Perigo, sim


O problema do Mal de Chagas no caldo de cana é apenas um, caro colega. Há outro: como é feita a limpeza da cana antes de ser moída para que você tome seu caldo? A cana cai no chão durante a colheita, é amontoada em caminhões, transportada sem maiores cuidados higiênicos, armazenada sabe-se lá em que lugares. Tudo bem, já que deveria ser moída sem casca. Seu quiosque de caldo de cana usa cana sem casca? Tem uma torneirinha para tirar o pó da cana antes de espremê-la? Algum jornal de sua cidade já fez alguma matéria sobre o processamento desta bebida que é tão gostosa?




Os colegas


Está num release que esta coluna recebeu: ‘Será discutido (…) questões como os suinocultores transformam desejos em fonte de renda e energia renovável’. E, retornando ao tema de uma nota anterior, o release se dirige aos jornalistas com um ‘olá friends’. Duro, né?




Como é mesmo?


Na mesma página do mesmo jornal: uma notícia informa que o novo líder do PT na Câmara dos Deputados, Arlindo Chinaglia, foi indicado pelo ministro José Dirceu; outra notícia informa que Chinaglia não é o nome dos sonhos de José Dirceu. Este colunista ajuda a botar ordem na casa: na verdade, Dirceu não chega a detestar Chinaglia, mas está longe de considerá-lo o melhor líder possível para a bancada do partido na Câmara.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação

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