Terça-feira, 19 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº991
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CIRCO DA NOTíCIA > NAÇÃO FARDADA

Os mudos e os surdos

Por Carlos Brickmann em 25/07/2005 na edição 339

Quer ver o presidente Lula irritado? Basta informar-lhe que esposas de militares estão se manifestando nas proximidades, pedindo o aumento de 23% que lhes foi prometido para março e que o governo não honrou.

A situação dos militares é ruim, e não apenas no quesito salários. Quartéis remanejaram horários para não precisar alimentar os recrutas. A maioria absoluta dos aviões A4 Skyhawk comprados para equipar o porta-aviões São Paulo está sem condições de vôo, por falta de peças e de manutenção. Por falta de recursos, poucos recrutas são admitidos a cada ano, e regiões sensíveis – como a Amazônia, como a Tríplice Fronteira – têm poucos efetivos. Projetos que sensibilizam os militares, como a Calha Norte, andam mais devagar que discurso do senador Suplicy.

Não é de estranhar que boa parte das informações sobre problemas governamentais saia da área militar – e os jornalistas, que recebem e divulgam essas informações, sabem quais são os problemas que motivam as inconfidências.

Pergunta: se sabem, por que não fazem reportagens sobre o assunto? Situação das Forças Armadas, clima entre os militares, eventuais facções e seus líderes, divergências. Sabe-se que, diante da desenvoltura da Polícia Federal, há segmentos empresariais buscando conversas com os militares. Quem são?

Dizia-se, antigamente, que diante das crises institucionais as Forças Armadas não deveriam manifestar-se: seriam O Grande Mudo. Só que o grande mudo está falando. E a imprensa, diante disso, comporta-se como se fosse surda.



A entrevista

Muitas vezes, é inevitável, o presidente da República faz bobagem. Muitas vezes, é inevitável, o presidente da República fala bobagem. Mas a assessoria do presidente Lula poderia poupá-lo pelo menos de ouvir bobagem; e, pior do que isso, encarar as bobagens como se fossem uma entrevista, e respondê-las. Aquela jornalista que entrevistou Lula em Paris jogou pesado: perguntou até se Lula achava que há males que vêm para bem (faltou – e seria muito mais adequado, nas atuais circunstâncias do país – perguntar-lhe se é verdade que quem com ferro fere com ferro será ferido). Lula poderia ter sido poupado disso. E, de acordo com a própria autora da entrevista, o plano era mesmo perguntar idiotices. Veja sua frase, em artigo que escreveu para a Folha: ‘Muitos egos amargurados, que correram atrás do presidente Lula durante dias em vão, preferiram criticar minhas perguntas do que aceitar o principal: foram elas que arrancaram da boca do presidente palavras sobre a crise política, enquanto as perguntas pseudo-inteligentes e arrogantes obtiveram o silêncio como resposta’.

Releve-se o português torturado: afinal de contas, ela vive fora faz tempo, e muita gente do Governo não fala melhor do que isso. Mas ficou claro o acordo: nada de perguntas ‘pseudo-inteligentes e arrogantes’. Só as dela teriam resposta.



Os bastidores

A cobertura das CPIs surge na imprensa como um espetáculo: parlamentares vociferantes, advogados rigorosamente silenciosos, testemunhas (ou réus) parecendo abobalhados. Este colunista não teve ainda o prazer de tomar conhecimento do relato jornalístico dos bastidores da CPI – primeiro, o absurdo que é convocar um depoente para as nove da manhã, quando ele será ouvido a partir das nove da noite. Nestas doze horas, ele fica numa sala onde não há sequer um sofá, ou no mínimo água. E, depois, vai para o depoimento, que pode durar horas.

Por que muitos depoentes parecem abobalhados? Porque tomam remédios, caro leitor. Tomam calmantes. Os parlamentares os agridem, atribuem-lhes crimes, gritam, interrompem suas respostas. Se os depoentes perderem a calma, podem ser presos por desacato.

Os parlamentares integrantes de uma CPI têm status de magistrado. Alguém já viu um juiz, no interrogatório dos réus, berrar com ele, dizer que não acredita no que ele está dizendo, chamá-lo de mentiroso?

As CPIs são um valioso instrumento de investigação, essencial à democracia. Não podem, por isso, ser transformadas em tribunais da Santa Inquisição.



Delícias

1. Saiu numa crítica musical: ‘Quatro das três cantoras eram paulistanas’.

2. Do vice-presidente da CPI dos Correios, senador Maguito Vilela, referindo-se a um colega senador: ‘Saturnino Góis’. Era Saturnino Braga.

3. Do apresentador Nelo Rodolfo, repetidas vezes: ‘O senhor Sílvio Soares’. Era Silvio Pereira.



Recordações

Um Gordo Nunca Esquece. Este colunista encontrou no Jornal da Cidade, de Bauru, edição de 4/3/2004, a informação de que Waldomiro Diniz, o famoso assessor que caiu ao tentar extorquir um banqueiro de bicho, foi cobrador de ônibus na cidade, no início de sua vida profissional. Mas ele logo cresceu, diz o jornal: ‘(O sindicalista bancário Admilson) Canuto, que com ele conviveu em São Paulo, lembra que reencontrou Waldomiro em Brasília, no ano de 1991, quando já vinculado ao ex-deputado Airton Soares e ao então deputado José Dirceu, lutava contra as demissões que o presidente Fernando Collor promovia entre os funcionários da Caixa’. A propósito, Aírton Soares está sendo cogitado para a Infraero.



Mensalão Sem Terra

O deputado Josias Gomes, do PT baiano, aquele que apresentou sua identidade parlamentar no Banco Rural ao levantar um dinheirinho de Marcos Valério, acumula cargos: é presidente do PT baiano e membro ativo do MST, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra. Deve ser falha deste colunista, que não encontrou esta informação nos grandes veículos. Só a localizou na coluna de internet do jornalista Ucho Haddad.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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