Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CIRCO DA NOTíCIA >

Para calibrar o chutômetro

Por Carlos Brickmann em 22/06/2004 na edição 282

Bonita atitude, a da Folha de S.Paulo: ao verificar que havia confundido os números na reportagem segundo a qual 559 mil crianças brasileiras foram escravizadas e fazem trabalhos domésticos, publicou notícia na primeira página admitindo claramente o erro. Posição correta, posição ética.

O próximo passo, não apenas da Folha mas de todos os meios de comunicação, é analisar criticamente os números que caem em suas mãos. Já tivemos 500 mil crianças abandonadas em São Paulo, lembram? A então secretária do Menor, Alda Marco Antônio, fez o censo dos menores abandonados na cidade. Eram pouco mais de 500 pessoas (no total, havia cinco mil menores espalhados pelas ruas, mas estes outros tinham família).

E qual a importância dos números corretos? Se houvesse 500 mil crianças abandonadas, teríamos um problema insolúvel. Com 500 crianças, o problema pode ser resolvido, sim; e só não o foi por questões de verba, competência ou prioridade. Se uma administração não consegue resolver o problema de 500 crianças, pode ir para casa que não deu certo.

Já tivemos também os 30 milhões de famintos, número que ninguém sabe de onde saiu (e que pode até ser verdadeiro, embora provavelmente não o seja). E os 5 milhões de índios no Brasil na época do Descobrimento.

Agora, pensemos juntos: hoje, fazer um censo é caro e difícil. Imagine ir aos confins da Amazônia para recensear a população. Voltemos ao Ano da Graça de 1500: quem contou os 5 milhões de índios?



Deslizando

Aliás, tivemos há alguns anos a notável notícia de que o Brasil receberia uma leva de 10 milhões de japoneses. Adilson Laranjeira, que comandava a Agência Folha, leu a manchete e fez a pergunta que matou o assunto: ‘E como é que chegarão os dez milhões de japoneses? A nado?’



Vagueando

A imprensa e os números têm uma relação conturbada, conflituosa. Não são muitos os jornalistas que respeitam os números e os tratam com carinho. Em geral, milhão ou bilhão é a mesma coisa, quilo e tonelada são usados indiferentemente. Numa crise internacional, os Estados Unidos suspenderam o fornecimento de trigo à União Soviética. O jornal que este colunista dirigia informou que o embargo atingia ‘mil quilos’ de trigo – a quantidade que uma Kombi pode transportar. Na verdade, os ‘mil quilos’ eram ‘um milhão de toneladas’.



Baratinho, precinho bom

Tudo muito bom, tudo muito bem, a tal história de que há um espião no governo (espionando para outros membros do governo) é estranhíssima, mas pode até ser verdadeira. Mas é preciso ignorar os números para acreditar que uma função tão importante e perigosa como a de espião dentro do Palácio do Planalto seja remunerada a 2.500 reais mensais. Por esse preço, só mesmo espião made in Paraguay e comprado na Galeria Pagé.



A briga do forró 1

Danuza Leão falou mal da festa caipira de Lula e o mundo petista caiu-lhe em cima: acusou-a de preconceito contra a cultura popular brasileira. Augusto Nunes bateu mais forte: mostrou que a festa caipira autêntica é diferente da que se realizou no Planalto. Nunes, paulista de Taquaritinga, conhece o assunto e já comandou, em francês, muita dança verdadeiramente caipira. Em vez de caipira, descreveu Nunes, a festa era mesmo é jeca.



A briga do forró 2

Este colunista vai a festas juninas para comer e beber. Não sabe dançar quadrilha, não tem a galáctica pretensão de pular fogueira, em toda a sua vida só fez um balão, e fez errado. Mas dá para analisar o Forró do Torto de outro ângulo que não seu caipirismo autêntico ou jequice desvairada: em vez de limitar-se a homenagear Santo Antônio, rendeu seu preito a Virgulino Ferreira, apelido Lampião, feroz cangaceiro que em outras épocas aterrorizou o Nordeste. Alguém precisa dizer aos organizadores do arraial que, em festa junina, quadrilha quer dizer outra coisa.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; endereço eletrônico (carlos@brickmann.com.br)

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