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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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CIRCO DA NOTíCIA > MÍDIA & JUSTIÇA

Para Estadão, promotor é ‘assassino’

Por José Paulo Lanyi em 06/05/2008 na edição 484

Thales Ferri Schoedl figura como réu no processo criminal 118.836.0/0-00. Promotor de Justiça acusado de homicídio e de tentativa de homicídio, deverá ser julgado em breve pelos 25 desembargadores do Órgão Especial do Tribunal de Justiça de São Paulo.

O velho-oeste da mídia, contudo, está a postos e já construiu a sua forca. Em 29 de abril, o jornal O Estado de S.Paulo proferiu uma sentença que, longe de antecipar uma decisão judicial, dado não vivermos, ainda, sob uma ditadura, expõe o veículo ao ridículo de uma autocondenação pública:

Conselheiro mantém promotor assassino

Ernando Uchôa, do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), votou ontem pelo vitaliciamento na carreira do promotor Thales Ferri Schoedl, que matou um garoto e feriu outro, em 2004. Faltam 13 votos. O advogado da família das vítimas vai recorrer, alegando que o voto é nulo, pois Uchôa analisou o mérito do crime.

Homicídio doloso ou legítima defesa

Na madrugada de 30 de dezembro de 2004, o promotor Schoedl matou o jogador de basquete Diego Mendes Modanez e feriu o estudante e jogador de basquete amador Felipe Siqueira Cunha de Souza. Os fatos se deram nas ruas da Riviera de São Lourenço, condomínio de alto padrão de Bertioga, litoral de São Paulo.

De acordo com a acusação, ao passar por um grupo de rapazes, o promotor descontrolou-se com os olhares despretensiosos de alguns deles para a sua namorada, Mariana Ozores Bartoletti. Schoedl acabou discutindo e disparou várias vezes com o intuito de assassinar as vítimas.

Conforme a versão da defesa, Souza e Modanez desrespeitaram o casal com palavras obscenas. Ao reagir verbalmente, Schoedl foi acuado pelos dois e por vários outros agressores. Para se proteger, foi obrigado a mostrar a sua arma e a dar tiros de advertência. Como nada disso bastasse, fugiu e foi perseguido por cerca de cem metros por Souza, Modanez e outros que, aos gritos de ‘mata!, mata!’, ameaçavam espancá-lo até a morte. Encurralado, teve de atirar para salvar a própria vida.

Sem direito a julgamento

Ao que parece, o Estadão dá as costas para o contraditório. Processo judicial é uma bobagem. À margem da lei e da virtude inspirada pela razão, o jornal exibe, com espantoso orgulho, o assassinato da reputação de um cidadão ao qual não concede nem sequer o direito a um julgamento.

Do alto do seu patíbulo artificioso, usurpa direitos, como este, expresso pelo artigo 5º, inciso LVII da Constituição Federal: ‘Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória‘. Em outras palavras, trata-se do princípio de não-culpabilidade: todo cidadão deve ser considerado inocente até a publicação da sentença definitiva (pelos tribunais, diga-se).

Afronta à democracia

O título jornalístico em questão, Conselheiro mantém promotor assassino, é compatível com a política de qualquer desses periódicos de que se servem os regimes totalitários. Condenar em público um cidadão que não foi julgado é indesejável em um Estado democrático que faça jus à essa predicação. É mais do que indesejável: é covarde.

É indesejável porque, por mais que se arrogue a prerrogativa, um veículo de comunicação não é e nunca será um tribunal. Apoderar-se, capciosamente, do direito constitucional de julgar cidadãos é uma afronta à democracia.

É covarde porque, no caso em análise, condena-se à execração pública um cidadão a que se recusa, nas entrelinhas, o direito a um julgamento e, por conseguinte, à defesa. Tudo sintetizado em apenas quatro palavras: Conselheiro mantém promotor assassino.

Preparemo-nos todos: em meio à histeria do Caso Isabella, logo teremos a volta de mais um show de horrores midiático de grande audiência. A cobertura do Caso Thales Schoedl tem sido desastrosa, como já se demonstrou neste Observatório. Diz a experiência que continuará a sê-lo.

O mau exemplo aqui exposto é apenas um entre vários outros. Em poucos dias, haverá novos cadafalsos. Vítima e verdugo serão, como sempre, enforcados juntos. Toda vez que se assassina uma reputação, mata-se, também, a credibilidade de quem cometeu o abuso.

Deixemos ao público o julgamento que lhe cabe; e à Justiça, o que lhe é de direito.

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Jornalista

Todos os comentários

  1. Comentou em 12/05/2008 Pedro Santos

    Esta não é a primeira matéria que o jornalista faz para defender o Promotor! Algum interesse tem por traz disto.Prefiro jornalistas isentos e com grau de comprometimento com a verdade e justiça.Lamentável ,e isso sim é uma afronta a Democracia!

  2. Comentou em 10/05/2008 Fábio Carvalho

    Prezado Marcos Davis, uma pessoa não pode ser acusada por exercer um direito. No caso, o promotor tinha direito ao porte de arma e ponto final. Juízes e policiais também têm esse direito. Pode-se questionar o juízo e a conveniência de ele ter informado o fato de estar armado aos rapazes. Eu penso que ele errou, pois não se empunha arma para intimidar ou advertir ninguém: a arma só deve ser sacada para ser, efetivamente, usada. O caso ainda não foi a julgamento. O senhor pode ter sua opinião, apressada ou ponderada, ajuizada ou tresloucada, mas deveria conceder ao réu, por enquanto, o direito de se defender. Por que o senhor assim deveria agir? Porque, além de evitar uma eventual injustiça, ao senhor não é dado o direito de desconhecer a lei. Se o senhor fosse jornalista, cometeria um erro imperdoável ao chamá-lo de assassino: ainda que, no futuro, ele venha a ser condenado. Se o promotor for inocentado, restará provada, na minha opinião leiga, a calúnia sofrida. Calúnia é o mais grave crime de opinião que temos. Consiste em imputar falso crime a alguém. Se a tese de legítima defesa for acolhida, teremos um fato jurídico importante e indubitável: o de que não houve crime. A opinião que acusa alguém de crime inexistente é, pois, CRIMINOSA.

  3. Comentou em 09/05/2008 Pedro Paulo Rezende

    As opiniões do nobre jornalista são tendenciosas, têm um forte viés político que escondem dos leitores mais desatentos,o amigo esta despreparado e sem conhecimento para cobrir fatos que sejam mais complexos do que um Fla x Flu no Maracanã.
    O nosso país esta cada vez pior, está com um índice de criminalidade muito alto isso porque, promotores de justiça sem preparo e que realmente querem mostrar autoridade fora da sala de júri resolveram colaborar.Os promotores possuem algumas prerrogativas que nada mais é do que não responder por seus crimes . Ainda existem promotores de justiça preparados para seus ofícios, espero que pessoas sérias que fazem parte do MP atuem na verdadeira punição. A justiça é cega ,logo ela atinge a todos, isso é o que nos é passado na Faculdade ainda acredito na justiça e em profissionais sérios, é difícil ver que ainda impera a lei do mais forte contra os mais fracos , é absurdo alguém ser executado e ainda lhe imputarem uma culpa forjada acredito ser terrível para a família que continua sendo vítima.

  4. Comentou em 09/05/2008 Fábio José de Mello

    Lançar dúvidas sobre o caráter do articulista é o fim da picada. Só reforça a tese de que boa parte dos brasileiros sequer sabe interpretar um texto. Esse do Lanyi é bem escrito, simples. Fácil de ler. Fácil de entender. Desde que, é claro, o leitor não tenha os olhos obstruídos pelo desejo de ‘justiciamento’. Intitulado ‘Caso Thales Ferri Shoedl: o 2º maior erro Judiciário do Brasil?’, publicado no site ‘Só Notícias’, o advogado Alexandre Sócrates Mendes nos faz um convite à reflexão. Para quem aceitá-lo, lá vai o link: http://www.sonoticias.com.br/mostra.php?id=54175

  5. Comentou em 08/05/2008 Francisco Fabio Lacerda

    Este jornalista ou tem algum grau de amizade com o Promotor “assassino” ou teve alguma vantagem financeira.Doze tiros (Legitima Defesa) ? Promotor reprovado por problemas psicológicos !Namorada passeando num Lual as 04 da manha sozinha!Promotor ciumento !Depoimento tomado por seus pares ! E ainda a culpa é do Estadão , vai Terceiro Mundo !

  6. Comentou em 08/05/2008 Max Suel

    Como bem observou um arguto comentador: Quanto empenho para defender este promotor homicida (vamos usar aqui o termo que outro comentador arguto usou). Assim como ele ainda não foi julgado, e não podemos avançar mais, também não foi comprovado que ele agiu em legítima defesa. Conforme comentário de outro arguto comentador: ‘doze tiros’ legítima defesa ??? O fato é que é muito estranho o camarada andar armado em condomínio de lazer. Voltando ao início: o jornalista José Paulo Lanyi defende com denodo e invulgar aplicação este caso e este promotor: pergunta maldosa que não quer calar: teria este jornalista alguma ligação com os envolvidos neste episódio triste (pois uma morte de um ser humano é sempre triste) ? Outra coisa, pelo que escreve o jornalista ficou muito mal na fita a vítima, que seria uma pessoa truculente, mal-educada etc. Como ficamos ? como se sentiria a família da vítima face a estes conceitos subjetivos do jornalista ? isto não pensou o jornalista provavelmente. Haja paciência com certos jornalistas ….

  7. Comentou em 07/05/2008 Marcelo Nogueira

    muito empenho na defesa desse promotor, hein… estranho, só para economizar nos adjetivos…

  8. Comentou em 07/05/2008 Marcelo Nogueira

    muito empenho na defesa desse promotor, hein… estranho, só para economizar nos adjetivos…

  9. Comentou em 07/05/2008 eduardo salina

    Ensina o Houaiss: assassino,como substantivo masculino,é sinônimo de indivíduo que comete homicídio; homicida. Como adjetivo,é alguém que causa a morte de . O promotor alega legítima defesa, e em nenhum momento nega que tenha causado a morte de alguém.A palavra assassino não contém juízo de valor. Portanto,o título do jornal está correto.O promotor é assassino.E não precisa ser julgado para ser chamado assim,porque é réu confesso. Ele pode ser absolvido por qualquer razão,até legítima defesa.Mas como o Houaiss deixa claro,ele
    é assassino.

  10. Comentou em 07/05/2008 andre fantine

    “É grave a situação desse processo, o promotor não está preso, não foi exonerado e não existe data para o julgamento. Assim, parece que existe favorecimento, que o crime compensa”, afirma o advogado Ariel de Castro Alves, do Movimento Nacional de Direitos Humanos.
    Segundo Alves, se o promotor não for expulso do MP na próxima sessão do Órgão, não está descartada a hipótese de, após uma conversa com os familiares das vítimas do crime, ser apresentada uma petição junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos) questionando a violação de convenções internacionais.
    A Comissão pode recomendar o fim do foro privilegiado no caso, a revisão do processo e até que as famílias sejam indenizadas. Se a recomendação não é atendida, o caso vai à Corte Interamericana, que possui mais força para fazer valer as determinações.

  11. Comentou em 07/05/2008 Geovana da Costa

    Não é por nada que a justiça é sempre apresentada de olhos vendados. Ela nada vê e nada sabe… quando interesses mais ou menos ocultos tentam comprá-la ou vendê-la.
    O problema, porém, não é de hoje, se a própria Bíblia investe contra os manipulares da justiça: «Deus se levanta no conselho dos juízes e pergunta: “Até quando julgareis injustamente, favorecendo a causa dos perversos?” Mas eles não percebem nem entendem: caminham numa grande escuridão e abalam os fundamentos do universo» (Sl 82).
    A conclusão do salmista não podia ser mais pessimista (ou realista?): «Eles não percebem nem entendem: caminham numa grande escuridão e abalam os fundamentos do universo».
    Não pense você que estou jogando no mesmo balaio a quantos se dedicam à administração da justiça.Sei de um grande número deles que colocam a justiça acima de tudo, até mesmo de sua carreira e… de seus honorários!

  12. Comentou em 07/05/2008 Geovana da Costa

    Não é por nada que a justiça é sempre apresentada de olhos vendados. Ela nada vê e nada sabe… quando interesses mais ou menos ocultos tentam comprá-la ou vendê-la.
    O problema, porém, não é de hoje, se a própria Bíblia investe contra os manipulares da justiça: «Deus se levanta no conselho dos juízes e pergunta: “Até quando julgareis injustamente, favorecendo a causa dos perversos?” Mas eles não percebem nem entendem: caminham numa grande escuridão e abalam os fundamentos do universo» (Sl 82).
    A conclusão do salmista não podia ser mais pessimista (ou realista?): «Eles não percebem nem entendem: caminham numa grande escuridão e abalam os fundamentos do universo».
    Não pense você que estou jogando no mesmo balaio a quantos se dedicam à administração da justiça.Sei de um grande número deles que colocam a justiça acima de tudo, até mesmo de sua carreira e… de seus honorários!

  13. Comentou em 06/05/2008 Alex Nakano

    O tipo de matéria do jornal O Estado de São Paulo não me espanta. O promotor já está condenado por esse veículo de comunicação e por boa parte da imprensa. Contudo, tenho certeza absoluta de que todas essas conclusões foram feitas com base no achômetro, ou seja, não conhecem a verdade dos autos. E o pior de tudo: possuem uma visão parcial, ouvindo apenas um lado da história. Não se vê entrevistas ou reportagens com o promotor, seus advogados ou parentes. O contraditório não existe na imprensa brasileira. O que vale é a execreção pública, desmedida e totalmente totalitária. Que a verdade constante dos autos prevaleça e mostre a todos o que de fato aconteceu naquela fatídica noite…

  14. Comentou em 27/03/2008 Adelino de Santi Júnior

    Gostaria de ver sendo abordada a preterida privatização da CESP, já que a mídia aberta não manifestou nenhum comentário…

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