Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Pauta e desafios para digitalização da televisão aberta

Por Valério Cruz Brittos e Ewerton Luis Faverzani Figu em 06/05/2008 na edição 484

Ainda que de modo incipiente, com o início da operação oficial do modelo japonês de TV digital terrestre no Brasil em dezembro de 2007, foi inaugurado um novo ciclo do audiovisual, esperando-se que, ao longo do tempo, ocorra uma modernização de toda a cadeia de valor, incluindo transmissão, produção e programação. Estima-se que a partir de junho de 2016 todo o território nacional receba exclusivamente o sinal digital. Até lá serão transmitidos simultaneamente os dois sistemas – o analógico e o digital. Portanto, há tempo, mas também existe prazo, para que se debata com profundidade a criação de políticas e estratégias para o país dispor de uma televisão digital inclusiva, com conteúdos diversos, que respeitem a pluralidade de necessidades, pensares e fazeres do brasileiro.

Para isso, uma legislação eficaz, que avance (em densidade) na democratização do televisual, torna-se necessária, o que só é possível através de uma Lei de Comunicação Social abrangente, resultado de amplo debate (verdadeiramente) público. A migração para o sistema digital é fundamental, mas só representará avanço real se promover um melhor desenvolvimento da produção, difusão e consumo dos conteúdos, colaborando para o conhecimento sistêmico e ampliando a posição do país como força realizadora no cenário internacional. Entende-se que a pesquisa acadêmica em comunicação poderá dar uma importante contribuição para se atingir este patamar, trabalhando em sintonia com a agenda nacional.

Preços caros, inovação baixa

A questão da qualificação profissional é um elemento que deve estar presente nesta pauta. A substituição dos equipamentos analógicos pelos digitais transforma as dinâmicas de realização midiática, exigindo recursos humanos qualificados, alcançáveis a partir da inovação, movimento que passa por cursos, treinamento em geral e pesquisa, demandando a criação de lugares diferenciados de experimentação. Nesta resolução, as universidades têm um papel essencial, reconhecendo a dimensão do atual momento histórico e preparando-se para tal. Deve ser ressaltado que o governo federal tem de alguma forma estimulado tal processualidade, lançando editais de fomento à formação de mão-de-obra preparada para atuar na TV digital.

Criatividade, competência e dinamismo são características da televisão brasileira e da pesquisa científica, que neste momento crucial devem associar-se na busca de conquistas para cada um dos agentes envolvidos na cadeia do audiovisual, mas, concomitantemente, com o objetivo de trazer melhoramentos para o conjunto do país e suas carências. Os problemas chegam aos elevados custos de transição do patamar analógico ao digital, um entrave especialmente para as pequenas emissoras, com ênfase nas não-comerciais, as quais, não raro, já atuam com dificuldade no mercado. O financiamento liberado pelo governo federal constitui-se num auxílio importante, mas não resolve a questão integralmente, que passa por soluções inovativas (com contrapartidas sociais), onde a academia deverá cooperar.

A pauta da TV digital deve abrir com o reconhecimento que a flexibilidade do modelo de negócios do sistema brasileiro não tem permitido seu deslanche. Além do mais, os preços dos equipamentos são caros e não há elementos capazes de envolver o telespectador para que rume ao digital: a carga de inovação é baixa (nem a prometida interatividade está presente nos primeiros meses), desestimulando o investimento do consumidor. Os radiodifusores devem reconhecer que a televisão digital brasileira, formatada conforme seus interesses, assim como está, não possibilita um progresso efetivo em termos econômicos e sociais, pensando-se em inclusão, incorporação de novos agentes, incremento da diversidade representacional e aumento da competitividade interna e externa.

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Respectivamente, doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor no Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Unisinos; e mestrando em Ciências da Comunicação na Unisinos

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