Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > POLÍTICA DE RADIODIFUSÃO

Por que não proibir a propriedade cruzada?

Por Carlos Brickmann em 20/03/2007 na edição 425

Vamos fazer um teste rápido: cite de memória cinco programas da Rede Globo. Agora, cite de memória cinco programas da TV educativa de seu estado.


Pois é; e, no entanto, as TVs educativas consomem mais de 500 milhões de reais por ano – na imortal frase de Armínio Fraga, do seu, do meu, do nosso dinheiro. Implantar mais uma rede estatal, como sugere o ministro das Comunicações, Hélio Costa, custaria 250 milhões de reais – pelas suas contas. Usando uma fonte bem mais confiável, a competente e séria repórter Elvira Lobato, da Folha de S.Paulo, o custo de implantação chegaria facilmente a 500 milhões de reais (aliás, que beleza de reportagem! No trabalho de Elvira Lobato não há um número sequer que não esteja explicado e demonstrado). Depois, é claro, haveria o custo de manutenção. Quanto custará cada companheiro neste grande e novo cabide de empregos?


Uma TV pública, OK: é bom, é saudável, que haja um contraponto às redes privadas. Mas já existe bem mais do que uma TV pública: há as estatais educativas, a TV Senado, a TV Câmara, a TV Justiça, as TVs das assembléias legislativas. Para que mais uma? E não se diga que é para divulgar as iniciativas do governo, escondidas-pela-mídia-monopolística-a-favor-do-capitalismo-e-do-pensamento-único: um dos maiores defeitos do jornalismo brasileiro, e isso inclui o jornalismo de TV, é pautar-se quase exclusivamente pelas iniciativas do governo. Mesmo os mais ferozes oposicionistas discutem aquilo que o governo propõe. E, como sabemos, quem determina a pauta tem vantagem na discussão.




Sem monopólios


Mais uma TV estatal significará apenas que as atuais líderes de mercado continuarão mantendo sua posição e as nanicas se rearranjarão, incluindo mais uma nanica em seu bloco. Se é para combater o oligopólio nos meios de comunicação, que é efetivamente nocivo e antidemocrático, há uma medida bem mais simples, que não custará nada ao contribuinte e terá um efeito monumental: proibir a propriedade cruzada dos meios de comunicação. Quem tem TV numa determinada região não poderá, ali, ter emissoras de rádio, jornais ou revistas. Os americanos têm boa legislação a esse respeito, que pode ser estudada e aperfeiçoada.




Fomos nós que fizemos – 1


A lambança começou na polícia, que acusou publicamente uma jovem de ter morto a filha pequena ao servir-lhe cocaína misturada na mamadeira. Continuou com a imprensa, que costuma atribuir sabedoria divina às autoridades e acreditar em tudo o que dizem, e divulgou a denúncia como se fosse uma verdade comprovada. Culminou com a agressão à jovem por parte de outras presas, mal-informadas pelos meios de comunicação.


E, quando se descobriu que não havia cocaína nenhuma na mamadeira, que a jovem era vítima e não ré, e que já havia dado queixa de abuso sexual por parte de um residente do Hospital Universitário de Taubaté, onde estava a filha, fez-se obsequioso silêncio. Poucas vozes da imprensa insistem em cuidar do caso.


Bom, deixemos o silêncio de lado. Daniele Toledo do Prado, 22 anos, foi solta há três meses. Perdeu a audição do ouvido direito (onde as presas indignadas lhe enfiaram uma caneta esferográfica). Está em depressão, tem medo de sair de casa (e, portanto, nem consegue procurar emprego). A investigação sobre a denúncia de abuso sexual ainda não terminou. Os responsáveis pela falsa conclusão de que havia cocaína na mamadeira continuam livres, leves, soltos, impunes. E a imprensa parece esforçar-se para provar que não tem nada com isso.




Fomos nós que fizemos – 2


Em compensação, a imprensa está de parabéns no caso do novo ministro da Agricultura: conseguiu abatê-lo em vôo, antes que pousasse na Esplanada dos Ministérios. Foi só investigar um pouco, e publicar, que o homem caiu.


Tudo bem, a imprensa foi suave com Geddel Vieira Lima, esqueceu o caso dos Anões do Orçamento, esqueceu a briga em que foi chamado de agatunado. Mas, no episódio Balbinotti, nosso jornalismo foi impecável. Só faltou chamar o homem de feio (e teria razão!)




O valor do pobre


Deve ser falha deste colunista, claro: não é possível que o silêncio da mídia seja tão absoluto diante de um caso tão grave. Mas, mesmo que este colunista não esteja pesquisando direito, cadê o barulho que devia estar ocorrendo?


Em 11 de fevereiro, um pedreiro de São José dos Campos (SP), Donizete de Paulo, brigou com a esposa e foi levado ao plantão do 1º Distrito Policial. Duas horas depois, foi encontrado morto na cela. Como no caso do jornalista Vladimir Herzog, embora não houvesse altura para tanto, morreu enforcado.


Não há falta de fontes para reportagem. Há o delegado de plantão, o delegado titular, o delegado seccional, o delegado geral, o secretário da Segurança. Há o presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, o advogado Mário de Oliveira Filho, que está acompanhando o caso. Como explicar, então, o silêncio ensurdecedor sobre o caso? Vida e morte de gente pobre não vale reportagem?




Guiando na contramão


Este colunista sempre teve restrições à escolha de agências de propaganda e de assessorias de imprensa por concorrência pública. São atividades cuja eficiência envolve ampla dose de subjetividade (quantas vezes o caro colega detestou um anúncio que amigos seus acharam notável?) e, ainda mais, compatibilidade pessoal. Não é preciso ser correligionário de alguém para assessorá-lo, mas também não se pode odiá-lo. É claro que, sem licitação, abre-se o campo para favorecimentos pessoais. E com licitação?


Com licitação, quem ganhou a concorrência para a assessoria de imprensa do Ministério dos Transportes foi uma firma de construções, a Amanda Construções, Administração e Serviços Ltda., que nunca trabalhou no ramo de comunicações. A segunda colocada foi uma empresa de locação de mão-de-obra.




A pressa…


Esta maravilha da língua portuguesa saiu num gigantesco portal de internet, na notícia sobre a biografia da mãe de Zezé di Camargo e Luciano.


** ‘Fama tem presso alto, diz mãe de Zezé’


Mas o título publicado no portal não tem nada com o livro, que deve ser ótimo. A autora é Carolina Kotscho, que já fez um trabalho magnífico no roteiro do filme Dois filhos de Francisco e que, sem dúvida, herdou o talento de Ricardo Kotscho, seu pai (só que numa embalagem muito mais caprichada).




…e a perfeição


‘Presso’ não tem defesa. Mas o fato é que foi para o ar sem que ninguém a tenha lido. O problema é que, para os portais de internet, não importa se a notícia é ou não importante. O que importa divulgá-la com alguns segundos de antecedência. Não importa, também, que dificilmente o internauta esteja lendo vários portais ao mesmo tempo, para saber quem deu a notícia mais cedo. E aí sai esta outra coisa fantástica, no meio de uma frase sobre as conseqüências de uma CPI:


** ‘…encaminhou relatório-final encaminhado ao Ministério Público (…)’




E eu com isso?


Ao longo de 15 ou 16 séculos, a igreja católica veio aperfeiçoando seus processos de canonização. Nos primeiros tempos de catolicismo, houve confusão que levou ao status de santidade até pessoas que talvez nem tenham existido (o que, mil e tantos anos depois, fez com que alguns santos, entre eles São Jorge, após longo processo no Vaticano, fossem destituídos).


Pelo jeito, era tudo desnecessário: Sandy, a irmã de Junior, que faria o show para o papa Bento 16 e agora não o fará mais, decretou que ‘ninguém é santo, nem o papa’. Simples assim: não precisou nem de advogado do diabo.


Além da nova forma de destituir santos, soubemos também nesta semana, especialmente pela internet, de alguns fatos notáveis:


** ‘Liev Schreiber diz que barriga de Naomi Wats é sexy’


** ‘Apresentadora de TV portuguesa posa em ensaio sensual’


** ‘Madonna posa de vestido vermelho para a revista Elle


** ‘Fani pula de pára-quedas com espartilho vermelho’




O grande título


Nesta semana, há um espécime fantástico, que não admite sequer competição:


** ‘Delegado é acusado de atirar bêbado em homem’


Conseguimos a tradução: o delegado, bêbado, é acusado de atirar num desafeto.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 22/03/2007 Eduardo Silva

    Caro Carlos Brickmann, sobre as TVs estatais/públicas, e seus custos, porque a mídia não coloca quanto o Governo e suas empresas, gastam finaciando publicidade nos órgãos privados de imprensa? Não sei quanto é, mas acreidto que é muito mais que 500 milhões de reais. Ou não???

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