Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > TIGRES DE PAPEL

Por que os jornais perdem circulação

Por Carlos Brickmann em 09/01/2006 na edição 363

Não faz tanto tempo, os jornais disputavam, no domingo, o Show do Milhão: os maiores veículos do país chegaram até a 1,5 milhão de exemplares.

Cadê? Onde foi parar tamanha circulação?

Se os jornais tivessem ações na Bolsa, os papéis teriam despencado. Não foi muito, mas nos últimos anos o país cresceu, surgiram novos ramos de atividade anunciando (alguns de sucesso estrondoso, como os celulares), a população alfabetizada se ampliou. Só a circulação dos jornais caiu.

Este colunista tem um palpite (e nenhuma opinião formada, já que esta exige pesquisas específicas, ao alcance apenas das empresas jornalísticas): será que o leitor gosta mesmo de ler páginas e páginas de reportagens policiais, com denúncias, promotores, acusações, ameaças de prisão, só que transferidas para o espaço político e econômico? Se o leitor gostasse disso, o diário Notícias Populares não teria fechado. Será que, ao tratar Política e Economia como os jornais de escândalo tratavam Polícia, estarão agradando a alguns poucos atores, fanatizados por câmeras e holofotes, e esquecendo o grande público, que quer apenas se informar?

A fúria policialesca invadiu até as páginas esportivas. Em vez do nobre noticiário sobre o treino dos times, temos páginas e páginas sobre lutas políticas internas e relações dos investidores com os clubes; sabemos quem é o advogado de Kia Joorabchian, mas não sabemos se o Corinthians quer contratar outro goleiro. Tudo bem, na época áurea da circulação, os jornais davam brindes; a internet era mais fraca do que hoje. Mas quanto isso representará na queda de circulação?



O tédio, o tédio

Este colunista começou a ler jornais pela Folha da Manhã, aos cinco anos de idade (e quem o conhece sabe quanto tempo já se passou), Com freqüência, surpreende-se lendo só manchetes sobre os escândalos e dando-se por satisfeito. Para que gastar dinheiro em jornais se: a) já se sabe que o noticiário terá um tom indignado; b) já se sabe o que dirão as estrelas de cada redação; c) já se sabe que a palavra ‘pizza’, termo futebolístico que virou político, será citada várias vezes por página.

‘Pizza’ valeu enquanto novidade. Hoje, ao lado de ‘decúbito dorsal’, ‘morreu ao dar entrada naquele nosocômio’ e ‘precioso líquido’, é recurso para encher lingüiça. Uma distorção: a pizza é que deve estar cheia de lingüiça.



A raiva, a raiva

As matérias de Mônica Bergamo sobre a viagem de José Dirceu à França provocaram cartas curiosíssimas – algumas pertinentes e outras cheias de raiva. Um leitor criticava a comitiva por aproveitar o passeio para comer e beber bem. Cá entre nós, gente: passear por certas regiões francesas sem comer e beber bem é perder boa parte da viagem. Desde quando uma boa refeição, acompanhada de um bom vinho, é algo que deva ser evitado?



Minha culpa

Esta coluna, hoje, está parecendo o noticiário que ela critica: só vê defeitos! Depois, se os leitores abandonarem a leitura, como recuperá-los? Mas, enfim, há certas coisas que não podem deixar de ser ditas. Por exemplo, cadê a bomba da rua 25 de Março? Alguém bota uma bomba num centro de comércio dos mais freqüentados, feriu gente, e ninguém será responsabilizado por isso? E a imprensa, só vai ficar em cima do caso se a polícia e os promotores ficarem pingando informações? É preciso ir para cima do caso: sem dúvida, é uma boa história.



Minha máxima culpa

Este colunista publicou uma nota errada no Diário do Grande ABC, na quarta-feira (4/1), e prometeu corrigi-la na edição de domingo (8/1). Prometeu; e esqueceu. A informação errada é de que o deputado José Mentor havia contratado a Máquina da Notícia, uma das grandes do ramo de assessoria de imprensa. Na verdade, contratou outra das grandes. A correção sai na quarta (11/1), mas o erro vai apontado também aqui. A propósito, a informação de que o parlamentar vai pagar caro não está errada: as duas empresas têm honorários equivalentes.



A culpa dos outros

O que anda saindo nos nossos meios de comunicação:



1. ‘As marcas relacionadas à tecnologia e à saúde estarão em alta em 2006. O mesmo não se pode dizer sobre a cantora Britney Spears (…)’. Tirando o erro de português (‘sobre a cantora’ o que fica é o chapéu), que quer dizer a frase?



2. ‘Futebol emociona mais que esporte dos EUA (…)’ Repetindo a notícia anterior: que quer dizer a frase?



3. ‘A fruta tem sabor adocicado, polpa gelatinosa e se come com a boca’.



Jornalismo

Primeiro, o governo federal colocou um incrível comercial na TV. Num cenário de auto-estrada alemã, aparece uma rodovia Fernão Dias que não é a que a gente conhece. Depois, anunciou espetacularmente o investimento de 440 milhões de reais para ‘recuperar 26.506 km de rodovias’ em todo o país.

O jornal Valor Econômico botou as coisas no lugar: este investimento de 440 milhões de reais para recuperar rodovias caindo aos pedaços é o mesmo que a Companhia de Concessões Rodoviárias, que opera o sistema Anhangüera-Bandeirantes e a Via Dutra, usa para fazer a manutenção de rodovias bem conservadas. E não são mais de 26 mil km: o dinheiro é suficiente para manter menos de 2 mil km de estradas.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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