Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

CIRCO DA NOTíCIA > DEBAIXO DOS PANOS

Preconceitos à flor da pele

Por Carlos Brickmann em 04/02/2008 na edição 471

Pesquise: nenhum jornalista admitirá jamais ter preconceitos.

Leia, ouça, assista: o preconceito – visual, sexual, religioso, de cor – surge com pouquíssimos disfarces. Sem preconceitos? Não: cem preconceitos.

Um exemplo dos jornais: ‘A ministra evangélica do Meio Ambiente, Marina Silva’. Se Marina Silva fosse católica, hinduísta, judia, muçulmana, atéia, budista, teria melhor ou pior desempenho em seu cargo? O ministro do Futuro, Mangabeira Unger, deve ter um monte de defeitos. Mas foi criticado, num grande jornal, por fazer parte de um partido com forte presença evangélica, da Igreja Universal do Reino de Deus. Partido, aliás, ao qual pertence também o vice-presidente José Alencar, que é católico praticante, e que não é (nem deve ser) criticado por isso.

Outro exemplo, agora parlamentar. Na sabatina do Senado que aprovou a escolha de Ellen Gracie para o Supremo Tribunal Federal, houve a seguinte frase: ‘Ouvi falar muito da sua competência, do seu conhecimento jurídico e sua intelectualidade, mas o meu voto ainda leva em conta a beleza e o charme’. Ninguém elogiou a beleza e o charme, por exemplo, do ministro Marco Aurélio Mello.

Preta Gil, fotografada na praia ao lado de Sabrina Sato, foi atacada na TV e em revistas por ser mais gorda do que admite o padrão atual de beleza. Chamaram-na de ‘baleia’. Em cima da foto de Sabrina, está um letreiro ‘vou’; em cima da foto de Preta, um letreiro ‘não vou’. Considerando-se que Preta Gil não é jóquei nem piloto de Fórmula 1, que é que alguém tem a ver com seu peso? Aliás, alguém na imprensa compara o físico do Fausto Silva com o de Fábio Jr.? É preconceito contra gordos, é preconceito contra mulheres (e talvez contra mulatas).

O goleiro Leão, hoje técnico, tem os cabelos brancos desde muito jovem. Pintava-os de louro. E explicava: se falhasse num lance, com os cabelos pintados, seria uma falha. Se não pintasse os cabelos, teria falhado porque estava velho. E toda a imprensa o massacraria, pedindo a contratação de um goleiro mais jovem.



Caverna do diabo

Uma forma muito utilizada de mostrar o desagrado do jornalista com os personagens da notícia, tentando embora disfarçar o preconceito, é usar, mesmo em veículos respeitáveis, a linguagem chula do jornalismo marrom. Coisas do tipo ‘não deu as caras’, ‘foi em cana’, ‘curtiu o xilindró’. Claro que o velho problema sempre volta à tona: será que o consumidor de notícias quer saber o que aconteceu ou, na verdade, está louco para descobrir a que xingações o repórter pode recorrer?

Com o crescimento da internet e a proliferação dos blogs, apareceu também um novo elemento de preconceito, as ilustrações saltitantes. Às vezes, o efeito é contrário: num blog ilustrado com capetas, dá para comparar o rosto do diabinho com o do autor do blog, que aparece na foto logo acima. Parecem gêmeos.



Balão de couro

Houve época em que ler sobre futebol, ou ouvir a transmissão do jogo, era um exercício de boa memória. ‘Bola’ não existia: era pelota, balão, couro (aliás, num dos hinos de vitória da Copa, há o versinho ‘é bom no samba/ é bom no couro’). Juiz não era juiz: era ‘sua senhoria’, ou ‘homem de preto’, ou ‘referee’ – às vezes, numa concessão suprema à linguagem do povo, tornava-se ‘árbitro’. Goleiro era o ‘goal-keeper’, ou apenas ‘quíper’; também podia ser o guardião, o guarda-valas, o guarda-metas. Crioulo não era negro, era ‘colored’. Criador de caso era ‘irrequieto’. Jogador não se machucava: se contundia. E o próprio futebol não era futebol, era o esporte bretão (como está no hino do Corinthians).

O tempo passou, a linguagem se simplificou, mas agora está voltando ao empolamento dos velhos tempos. O jogador já não se contunde, mas continua não se machucando: agora, fica lesionado. Jogador não toma água: faz uma ‘parada para reidratação’. Mas o melhor não são os novos nomes impostos às velhas coisas: o melhor são algumas frases encontradas em reportagens. Por exemplo: ‘Assim que entrou, o reserva perdeu o gol supracitado’.



Tucanagem

Mas, justiça seja feita, a tucanagem dos textos jornalísticos não ocorre apenas no futebol. Nossa velha conhecida, aquela barraquinha de vender coisinhas na praia, aparece num release como ‘pop up store’.



Leia e esqueça

Numa única notícia de um grande e respeitável portal, foi possível pinçar as seguintes frases:

** ‘Passagem do metrô e da CPTM sobem (…)’

** ‘O anúncio foi feito hoje nesta quarta-feira (…)’

** ‘Os ônibus (…) terá reajuste (…)’

E a melhor de todas, transcrita na íntegra:

** ‘A alta na tarifa não vai se refletir no preço das passagens cobras terá reajuste também subirá de R$ 3,50 para R$ 3,65’.



Careca de saber

José Dirceu foi depor, a imprensa compareceu em peso. Ninguém estava muito interessado em ouvir o depoimento (afinal de contas, Dirceu iria expor seu lado da história, sua defesa, e notícia mesmo, aquela que o pessoal gosta de publicar, é a que vem da acusação, de preferência já mastigada pelo promotor). O povo estava lá para verificar a cabeleira do Zezé. Houve grande decepção na imprensa: Dirceu continuava tão careca quanto antes.

Só que as coisas não são tão simples. Os fios são colocados e caem; só ficam as raízes. O cabelo começa a crescer depois de alguns meses, se tudo der certo. E ninguém tinha se dado ao trabalho de pesquisar o que é um implante de cabelo.



Comes e bebes

Por falar em pesquisar antes de atacar, uma das acusações publicadas contra o ministro da Pesca é de que gastou 70 reais numa choperia de Ribeirão Preto, o Pinguim, com o cartão corporativo. Escândalo! Gastar dinheiro público com bebidas alcoólicas! Acontece que o Pinguim, embora se chame choperia, tem também petiscos, sanduíches e refeições. Ele pode perfeitamente ter almoçado ou jantado lá. Este colunista, aliás, recomenda o sanduíche de lombinho com queijo – muito bom. E cai excepcionalmente bem com um chope gelado.



Por que o silêncio?

Na terça-feira (29/1), os repórteres César Tralli, Robinson Cerântula e Willian Santos levantaram um tema explosivo: um delegado paulista, que determinou a vários grupos de policiais civis o uso obrigatório de ternos, passou a fornecê-los. Comprava da fábrica o conjunto de terno, duas camisas e gravata por 143 reais e o vendia a seus subordinados por 300 reais, pouco mais que o dobro do que havia pago. O delegado se defende, dizendo que nos 300 reais que constam nos recibos assinados pelos policiais havia também outras cobranças embutidas e que não ocorria qualquer tipo de sobrepreço.

Mas a questão não é essa: é saber por que ninguém repercutiu a matéria do Jornal Nacional. Sites, blogs, outros veículos de imprensa, ninguém foi atrás do assunto. Se um blog do interior da Bolívia disser que um personagem malvisto pela imprensa foi surpreendido com o dedo no nariz, em poucos minutos a reportagem estará pipocando em todos os sites, blogs, colunas e informativos, com suítes e repercussões. Por que uma informação tão explosiva como a do Jornal Nacional, que envolve suspeita de corrupção em altos escalões da segurança pública, divulgada numa reportagem tão bem-feita, foi esquecida?



Avandia, prós e contras

O leitor Nelson Nisenbaum, médico em São Bernardo do Campo (SP), se queixa de reportagem sobre o remédio Avandia. Queixa-se especialmente, aliás, da pouca pesquisa que embasou a matéria. Segundo diz, o remédio aumenta efetivamente o risco de desenvolvimento de insuficiência cardíaca (como está publicado), mas os benefícios que traz superam em muito os problemas, e isso não consta da reportagem. ‘O Avandia é um divisor de águas no mundo do tratamento do diabetes tipo adulto’, diz Nisenbaum. ‘Não se pode esquecer que o bom controle glicêmico obtido com a adição do Avandia a outras formas de tratamento traz benefícios para todos os órgãos-alvo da doença: rins, retina, cérebro, sistema circulatório, fígado e pâncreas’. Nisenbaum pede que, antes de falar de um remédio, os colegas conversem com os especialistas.



Como é mesmo?

De uma reportagem sobre a visita de David Beckham, o futebolista mais bem pago do mundo, ao Brasil:

** ‘David Beckham tem se revelado um gourmand e tanto. Já experimentou camarão, pato (…)’

Veja que coisa incrível: Beckham se revelou na Inglaterra, pertinho da Escócia e de seus frutos do mar mundialmente famosos. Jogou na Espanha, terra da paella e de abundante pescado, de tão boa qualidade que até o Brasil, distante, o importa. Está hoje nos Estados Unidos, onde a caça ao pato é um esporte nacional, onde as águas geladas do Alasca hospedam fantásticos crustáceos. E veio conhecer camarão e pato apenas agora, em sua visita ao Brasil!



E eu com isso?

Houve época, não tão distante, em que o carnaval ocultava todas as demais informações. Os meios de comunicação, todos, funcionavam em regime de plantão, e as notícias daquilo que se chamava ‘tríduo momesco’, ou ‘reinado de Momo’ eram as únicas a merecer algum espaço.

Hoje, não: as empresas se profissionalizaram, mantêm as equipes funcionando. A profusão de novos veículos e sistemas de comunicação assegura ao leitor, mesmo aquele que não tem o menor interesse em coisas do carnaval, um fluxo regular e abundante de notícias. É carnaval, mas sabemos que:

1.Paredão inédito coloca 3 no paredão

2.BBB Marcos é aprovado no vestibular

3. ‘Reynaldo Gianecchini fará a barba no camarote Expresso 2222’

4. ‘Cicarelli tem recaída com o ex’

Ainda bem que o tempo está bom: é preciso mandar o fotógrafo para a praia.

E, claro, há notícias de Carnaval.

5. ‘Ao lado da filha, Luiza Brunet sua a camisa em ensaio da Imperatriz’

Pela foto, Luiza Brunet não estava suada. E o dia em que usar camisa num ensaio de escola de samba certamente vai virar manchete.



O grande título

Há dois grandes concorrentes (nenhum carnavalesco) nesta semana. Um é primoroso, daqueles que exigem um certo conhecimento técnico:

** ‘BC vende 95% da oferta total de swap reverso’

O outro é, sem dúvida, mais criativo:

** (Fulana de Tal) atribui crimes a mortos’

Tem gente que não toma jeito: morre e mesmo assim continua a delinqüir.

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 06/02/2008 Jose de Almeida Bispo

    Brickman, queira me desculpar, mas você também está usando de preconceito. Voce diz:’Mas foi criticado, num grande jornal’… Não seria num jornal grande? Não estarias confundindo um grande jornal com um Jornal Tapioca, ou melhor, Central Tapioca de Achincalhes? Vê lá! Estou à procura desse ‘grande jornal’ e no momento não o consigo enxergá-lo…

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