Terça-feira, 18 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1041
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CIRCO DA NOTíCIA >

Preferência Nacional (Prefnac)

Por Carlos Brickmann em 10/05/2005 na edição 328

Veja este título: ‘AGU consegue na Justiça liberar rodovia bloqueada por manifestantes’. Ou este: ‘CCJ volta a debater PEC que acaba com verticalização eleitoral’. Folheando dois jornais, só nos títulos e olhinhos, foram encontrados as seguintes siglas: MPF, PIB, BAR, TCE, FIA, MAPA, Copom, Selic, TJLP, BNDES, CNI, CNDI, BC, MST, MLST, SUS, INSS, CET, SPTrans, MPE, Fed, OMC, AIG, SAC, Cade, MTE, TJRS, Fenajufe, CNESF, Condset, Anabb. Afinal de contas, jornal deve ser lido ou decifrado?

Este colunista foi editor e conhece o problema dos espaços. Mas há limites: a cidade e o estado do Rio, por exemplo, têm nome curto (e bonito). Por que usar o impronunciável RJ? Por que Loterj, Coderj e outros aleijões lingüísticos?

Lembranças da ditadura militar, talvez. Milico adora uma sigla, tipo CISG e Cecomsex, e na ditadura as siglas se multiplicaram. Mas a ditadura acabou e a mania nacional (Manac) permaneceu. Alguma siglas, sem dúvida, viraram nomes: BNDES, Banespa, Fiesp, MST. Mas ganha um picolé de chuchu (da Alckbon) quem disser, de cara, o que é MAPA, BAR e CNESF.

A mania da sigla é engraçada por si – tanto que os Conselhos Universitários se fazem chamar pela sigla ‘CO’ (de ‘oniversitário’). Radicalizou-se de tal maneira que a sigla passou a condicionar o nome. Por exemplo, o Mirad, Ministério da Reforma e Desenvolvimento Agrário, era para ter outro nome: Ministério Extraordinário da Reforma e Desenvolvimento Agrário. Mudou por causa da sigla.

André Luiz….

Certamente não encontrá-la foi uma falha de leitura: a notícia devia estar em algum lugar. Afinal de contas, seria uma barbaridade imaginar que os jornais, rádios, emissoras de TV e sites jornalísticos na internet esquecessem, tão logo o deputado federal André Luiz foi cassado, de contar a história inteira da tentativa de extorsão de que foi acusado. O caso André Luiz é conseqüência – bingo! – do caso Valdomiro Diniz.

Valdomiro foi flagrado, em som e imagens, pedindo propina ao banqueiro de bicho Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Veio então a CPI da Loteria Estadual na Assembléia do Rio, e André Luiz foi denunciado, também por Carlinhos Cachoeira, de pedir-lhe 4 milhões de reais, para evitar que seu nome fosse incluído no relatório da CPI. É isso: um escândalo é conseqüência do outro.

…e os outros?

O acordo que André Luiz propôs a Carlinhos Cachoeira previa o pagamento de 100 mil reais a cada um dos 40 deputados estaduais da Assembléia Legislativa fluminense, para livrá-lo do relatório. A fita com a proposta foi examinada pela Unicamp e é autêntica. É claro que não se pode usar o depoimento de um cavalheiro como André Luiz para incriminar 40 deputados; nem se pode imaginar que, na Assembléia do Rio, não exista ninguém honesto. O que se pode afirmar é que alguém deveria dividir o dinheiro com André Luiz, ou ele não teria como livrar o bicheiro da incriminação.

E cadê as investigações da imprensa sobre os nobres parlamentares? Quem é que as reportagens poderiam apontar como eventual parceiro de André Luiz? Nós, jornalistas, ficamos devendo essa.

A nossa vez

A imprensa pode ter esquecido de buscar os bandidos, mas eles não esqueceram da gente, não. André Luiz, logo antes de ser cassado, disse que era inocente. E que a culpa de todo o caso era da… era da… adivinhou! Da imprensa!

Raciocinar

Certa vez, quando a União Soviética invadiu o Afeganistão, os Estados Unidos lhe impuseram uma série de embargos. E um jornal informou que tinha sido suspenso o envio de uma tonelada de trigo americano para os russos.

O editor chamou o redator e lhe perguntou se, na sua opinião, a represália não era vagabunda demais. O redator disse que não sabia: afinal, quanto significa uma tonelada de trigo? Quanto pesa o trigo? O editor concordou: ele também não podia calcular o volume de uma tonelada. Mas o redator estaria disposto a acreditar que a quantidade embargada pudesse ser puxada por uma Kombi?

Pois é: como diz Millôr Fernandes, o mestre dos mestres, livre-pensar é só pensar. De acordo com uma grande publicação, o maior avião comercial do mundo, o Airbus A-380, que há pouco fez o vôo inaugural, ‘vale US$ 23 bilhões’. Digamos que 1% deste dinheirão é mais provável: US$ 230 milhões. Um errinho de apenas 99%.

Delícias

1. Saiu na Internet: ‘extorção’. Deve ser uma combinação de conceitos: a vítima, além de sofrer extorsão, é torturada e sofre torções nos membros – em todos, claro.

2. Saiu num grande veículo: um tipo de pica-pau foi declarado extinto em 1920. Reapareceu agora, ’60 anos depois de visto pela última vez’. Traduzindo: o pica-pau foi declarado extinto 25 anos antes de ser visto pela última vez. Considerando-se que apareceu de novo, não deve ser pica-pau. Não seria uma fênix?

3. Da série ‘títulos que não saem da cabeça’ (até que a gente consiga decifrá-los): ‘Baby-Luxas estendem hegemonia de seu mentor’.

Os benfeitores da imprensa

Milton Seligman já foi alto prócer no governo tucano e agora está na Ambev e no Sindicato Nacional da Indústria da Cerveja. Seligman disse que a publicidade não aumenta o consumo de cerveja. Os fabricantes certamente investem verbas gigantescas em publicidade só para ajudar os veículos de comunicação.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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