Quinta-feira, 21 de Março de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1029
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Produções de subjetividade: a força da comunicação

Por Vito Giannotti em 23/02/2009 na edição 526

Gostei muito do título desta mesa – ‘Mídia e Produção de Subjetividades: O Poder da Mídia’ – porque essa discussão sobre o poder da mídia aparece todo dia, no meu café da manhã. É uma briga entre mim e minha mulher, a jornalista Claudia Santiago, porque eu defendo a idéia de que a mídia tem um poder enorme e ela relativiza mais esse poder. Minha companheira, um pouco mais sensata do que eu, sempre briga comigo porque, na visão dela, dou um poder excessivo à mídia e não deixo nenhuma liberdade de opção fora dela. Não existiria o livre arbítrio, na minha visão.


Se nós estivéssemos num teste de múltipla escolha sobre o poder da mídia, se é absoluto, fortíssimo, relativo ou quase absoluto, eu, querendo ser moderado, diria que é quase absoluto, quer dizer, perto do absoluto. Há pessoas que acham que é relativo, ou seja, que a mídia tem poder, mas não é tanto assim, pois as pessoas pensam, mas, na minha opinião, pensam o que a mídia quer que pensem.


Vejamos um exemplo. 40 anos atrás, o mundo estava empesteado de fumaça de cigarro. Não tenho nada contra cigarro, mas vou falar do fato de que há 30, 40 anos, o mundo inteiro fumava. No filme Casablanca, há momentos em que parece que a película do filme está com defeito. Não se enxerga quase nada. Mas não é um defeito da película, é que não se enxerga quase nada mesmo. Os dois protagonistas principais estão num bar mal iluminado, bebendo, fumando, soltando uma baforada atrás da outra. Quase não se enxerga os atores. É fumaça o tempo todo. Foi a época em que quase o mundo todo passou a fumar. Quem disse que o ser humano seria um fumante? Se Hollywood não tivesse existido, não existiria, no mundo, esta epidemia de fumantes. É esse o poder da mídia.


Mudança do clima de adesão


Outro exemplo. Durante os anos mais duros da ditadura militar, entre 1969 e 1973, qual era o poder da mídia? Eu digo que quase absoluto. Vivia-se o poder absoluto, total, das forças armadas, o poder dos torturadores que assassinavam os militantes de esquerda. Em 69, 70, 71, centenas de militantes contra a ditadura, entre os quais eu, tentávamos dizer aos companheiros com os quais trabalhávamos nas fábricas que estávamos numa ditadura, que havia mortos, presos, assassinados, torturados. Mas ninguém nos ouvia, ninguém se interessava. Quem é que conseguia anestesiar totalmente o povo naquele momento? Era o clima de oba-oba, do sonho do tal ‘Brasil Grande’ embalado com as musiquinhas Para a frente Brasil, Brasil, eu te amo ou o Hino da Seleção (e quem não gosta da seleção?).


Rádios e TVs tocavam essas músicas constantemente. Além disso, havia todas as propagandas feitas no cinema, e mais ainda pela TV e Rádio Globo, dizendo que estava tudo às mil maravilhas, que o Brasil estava perfeito. E o povo ficava tranqüilo. Tranqüilo porque, economicamente, era a época do chamado milagre econômico, era uma época de muito emprego. Eu, que na época era ferramenteiro, me lembro que arrumava emprego até por telefone. Os salários eram arrochados, mas era fácil arrumar emprego. Então, o marido arranjava emprego para a mulher e o filho, de 13, 14 anos. Havia uma propaganda de que o Brasil era uma maravilha, mesmo com a ditadura, as mortes, as torturas. Nesse ponto, o poder da mídia, o poder da propaganda, era quase absoluto, na minha visão.


Só que existem fatos na História que relativizam esse poder absoluto da propaganda, da mídia. A crise do petróleo, em 1973, por exemplo, mudou o olhar do povo brasileiro. Em 74, 75, o tal milagre começou a fazer água, começou a se esvaziar e aquele clima de adesão à ditadura mudou completamente. A OAB, que em 64 invocava o golpe, já em 75, em São Paulo, no Largo São Francisco, lê o famoso ‘Manifesto pela Volta do Estado de Direito’, isto é, pelo fim da ditadura. Estava mudando o clima de adesão à ditadura. Mas esse clima não mudaria se não tivesse estourado a chamada crise do petróleo.


A bomba de Saddam Hussein


Em 2006, toda a mídia, sem assumir, porque sempre faz questão de aparecer como imparcial, apoiou o candidato Alckmin. A única exceção foi a revista CartaCapital, que assumiu seu apoio ao candidato Lula. Então por que o candidato de toda a mídia não ganhou, se ela é tão poderosa quanto penso? Não ganhou porque há fatos históricos que relativizam o seu poder.


Houve o fato concreto de que para muitos, através de programas como o Bolsa Escola, o Bolsa Família e o aumento do poder de compra do salário mínimo, a vida teve uma pequena melhora. O povo do Bolsa Escola, o povo que começou a comer e a ganhar um pouco mais, acabou votando no Lula. Essa mídia foi derrotada pelos fatos, como aconteceu na ditadura. O poder da propaganda foi relativizado e anulado pelos fatos históricos. Isso prova que o poder da mídia, embora muito grande, não é absoluto.


Há um fato que prova que o poder da mídia é enorme e capaz de enganar milhões e bilhões de pessoas. Estamos em 2003. Os Estados Unidos resolvem invadir, bombardear, acabar, destruir e matar 300, 400 mil pessoas no Iraque. O mundo todo ‘bebeu’ as notícias das agências norte-americanas e apoiou a invasão do Iraque. Claro que nem todo mundo apoiou. Houve manifestações de mais de um milhão de pessoas – na Alemanha, na Espanha, na Itália, na Inglaterra. Aqui, no Brasil, conseguimos juntar cerca de 500 pessoas contra o bombardeio, contra a destruição do Iraque. Mas o grosso do mundo estava com Bush. Ou melhor, com a CNN, com a Fox e companhia.


Tenho uma irmã na Itália. Liguei para ela num domingo, um pouco antes de estourar a guerra, no final de fevereiro de 2003. Perguntei como estava a situação lá. Ela respondeu: ‘Ih, tá difícil.’ ‘Mas o que aconteceu? Tem algum problema?’ ‘Não, está muito ruim.’ ‘Mas quem se machucou, quem morreu? Você está doente?’ ‘Não. Saddam Hussein’, respondeu ela. Minha irmã estava lá com um medo terrível de Saddam Hussein. Ainda não havia estourado a invasão americana. Eu, pelo telefone, tentei tranqüilizá-la: ‘Que Saddam Hussein, que nada.’ ‘É, mas ele tem bomba.’ ‘Que bomba, que nada’, eu insistia. ‘Tem, sim. Tem bomba atômica, química e bacteriológica. Nós vimos tudo na TV. Aí no Brasil não viram, não?’ ‘E você acreditou?’


‘O elefante é o Estado’


Saddam Hussein não tinha bomba atômica, nem bomba química, nem bomba bacteriológica. Quem criou Saddam Hussein? Quem realmente criou o Saddam Hussein foi Bush para poder invadir o Iraque. Bom, mas minha irmã não sabia nada disso, nem meus irmãos, nem os cunhados, nem os concunhados. Eles não sabiam disso e achavam que o Bush iria lá para implantar a democracia. Isso por quê? É o poder da mídia, quase, quase absoluto.


Querem outro exemplo desse poder quase absoluto da mídia? Estamos, aqui no Brasil, na época das privatizações, de 1990 a 1999. Aconteceram quase todas as grandes privatizações: CSN, Telebrás, Vale do Rio Doce. A Vale do Rio Doce foi vendida por 3 bilhões e 400 mil reais. Sabem quanto o atual presidente da Vale disse que valia a empresa? 100 milhões. Isso é mentira, valia muito mais. Só o depósito de ouro de Eldorado dos Carajás valia 150 bilhões de dólares. Mas ele disse que valia 100 milhões, e ela foi vendida por 3 bilhões e 400. E o povo? O povo estava anestesiado por dez anos de Boris Casoy, Alexandre Garcia, William Bonner e Arnaldo Jabor, que repetiam cem vezes por dia que tudo o que é público não funciona, tudo o que é do Estado não funciona, que se deve privatizar etc. E quem fez essa operação de lavagem cerebral das pessoas? A mídia. Este é o seu poder.


Imaginem o que significa a Globo mostrar uma manifestação na Avenida Paulista, em frente à Fiesp, paga pelos empresários, de 3.000 metalúrgicos de São Paulo que arrastavam um elefante de quatro metros de altura. Era uma das tantas manifestações da Força Sindical a favor do projeto neoliberal. Vem o repórter da Globo e pergunta ao chefe da Força: ‘O que é esse elefante?’ E o paladino da Fiesp, Luiz Antônio Medeiros, responde tranqüilamente: ‘Esse elefante é o Estado brasileiro.’ ‘Como assim?’ O Estado brasileiro é um paquiderme, é ineficiente, não funciona. Nada que é estatal funciona. Esse é o Estado. Olha aqui esse elefante. É igualzinho.’


Como se ganham corações e mentes?


E assim, o povo brasileiro, em 96, 97, 98 estava a favor da privatização, tenho certeza absoluta. Eu diria que 90% era a favor, sim, da privatização, por causa de um sistema de propaganda, de chantagem, de ameaça de perder o emprego e de mil outras artimanhas. Boris Casoy mostrava todo dia casos de ineficiência do Estado e repetia, com ar muito sério: ‘Isso é uma vergonha’. Depois vinha o Alexandre Garcia, apavorando o povo, dizendo que era preciso salvar o Brasil, isto é, precisava privatizar tudo. A privatização passou a ser uma idéia hegemônica. Isso é o poder da mídia.


Como se constrói a hegemonia? Como se garante a hegemonia? Essa é uma questão importante para o Conselho Federal de Psicologia. Esse é o tema central desta Mesa: Mídia e Psicologia.


Como é que se consegue ganhar o coração, a mente de milhões de pessoas, numa determinada direção política? Isso é hegemonia: a direção política da sociedade. Na visão de Gramsci, o conceito de hegemonia é mais amplo que só direção política. Para Gramsci, hegemonia implica a direção cultural e moral da sociedade, ou seja, é uma visão de mundo, uma perspectiva de mundo e uma ação conseqüente, uma nova prática cultural e moral.


Na sociedade de hoje, a direção moral e cultural é dada pelo neoliberalismo. Essa visão exerce, desde a década de 1980, um domínio quase absoluto sobre a vida e a visão das pessoas. A hegemonia político-ideológica no Brasil, na França, na Itália, na Inglaterra, nos Estados Unidos etc. é do neoliberalismo. E como é que eles garantem essa hegemonia? Qual é o papel da psicologia? Como é que eles conseguem que psicologicamente as pessoas aceitem isso? Como se ganha o coração e a mente das pessoas?


Instrumentos para conseguir a hegemonia


Na minha visão, é por meio da mídia. Esse é o grande instrumento. Gramsci afirma que a hegemonia tem duas bases: o consenso e a força. O consenso é a coesão dos pensamentos, das vontades. A força é a força de leis, a força do exército, a força da Justiça e isso tudo implica coerção. A hegemonia se garante por consenso, que é ganhar o coração e a mente das pessoas e, com a força, com instituições capazes de fazer com que aquela conquista, aquela vitória, aquela visão, se consolida, se estrutura e vira poder.


E como se consegue isso? Por meio dos instrumentos, ‘aparelhos’ como são chamados por Gramsci. E o grande aparelho do convencimento, hoje, é a mídia.


Nós, evidentemente, que não somos neoliberais, queremos outra hegemonia. Como vamos conseguir? Como vamos fazer uma disputa contra-hegemônica na sociedade? Como vamos travar isso? Não se trata de fazer uma revolução armada. Essa, hoje, é uma discussão estéril. Nós temos que ganhar milhões de cabeças, temos que ganhar os corações das pessoas, e através de aparelhos privados de hegemonia. Depois, a revolução seguirá seu rumo.


O que é um jornal? Temos, por exemplo, o jornal dos trabalhadores da Universidade, que é um aparelho privado de hegemonia. O que é uma estação de rádio? O que é um programa de televisão? Um aparelho privado de hegemonia, privado, porque não é público, nem estatal. Não é que estes garantam a hegemonia. Eles são instrumentos para se conseguir a hegemonia.


Quem constrói o consenso


Queria dar outros exemplos de hegemonia ligados à comunicação.


Aqui no Rio de Janeiro, na Barra da Tijuca, na entrada do New York City Center, que tem a famosa Estátua da Liberdade. Essa é só o ‘tira-gosto’ inicial do que existe lá dentro. Tudo, lá, está escrito na língua do país da tal estátua. Quando se procura pipoca, o que se acha? Pop corn. Aquela Estátua da Liberdade é um aparelho privado de hegemonia. Liberdade é viver nos Estados Unidos, vamos embora para Miami! Morte ao Iraque e ao Saddam Hussein! Em Santa Catarina, há uma fábrica de tecidos, a Havan, em cujo pátio há uma Estátua da Liberdade de 25 metros: o mesmo na fábrica do mesmo nome em Curitiba. Sim, 25 metros de estátua no pátio de uma fábrica. O que tem a ver? Está lá, um gigantesco ‘aparelho’ da hegemonia norte-americana.


E o Big Brother, minha gente, é o que? Quem é que tem aqui uma filha com idade entre 14 e 18 anos? O que vocês dizem para essas filhas? Que têm que estudar, têm que trabalhar, têm que ser dignas, têm que ter personalidade, não é isso? E o que diz o Big Brother? Como é que se ganha a vida? É só tirar a roupa. Para quê estudar? Que besteira, fazer faculdade! Para quê? É só abrir as pernas, e pronto. A querida filhinha que em casa assiste ao Big Brother, qual lição recebe da Globo? O que esta babá eletrônica manda dizer está claro: ‘Que besteira é essa de estudar, trabalhar? Olha a Siri, como se deu bem! Está pelada em todas as revistas. É isso que dá futuro!’


Esse é o poder da mídia. Coisa que não existia 100 anos atrás, quando a influência sobre as novas gerações era determinada pela família, pela escola, pelas igrejas e pelos partidos. Hoje, quem constrói o consenso é a mídia. É assim que se constrói a hegemonia.


O acampamento do MST


Em fevereiro de 2007, fui escalado para assistir a novela Páginas da Vida. É uma loucura aquilo lá. Na véspera, no Rio de Janeiro, havia morrido aquele menino, o João Hélio. Foi um ato bárbaro. O que aconteceu? O crime aconteceu no dia 6 de fevereiro. No dia 8, a Globo mostrou na novela três freiras sentadas, conversando e tomando café. Aí chega uma freira toda assustada, com o jornal – obviamente, O Globo – e diz: ‘Irmãs, olhem. Aconteceu uma coisa muito bárbara. Uma barbárie.’ Ela abre o jornal e fica mais de um minuto mostrando a manchete principal do jornal: ‘Barbárie contra a infância’. Aí, as freiras se ajoelham, rezam um pai-nosso contra aquele ato de barbárie. Soube que milhares de pessoas se ajoelharam e rezaram junto com as freirinhas. Nada contra rezar o ‘pai-nosso’. Mas, pergunto, para que foi colocada aquela cena com as freirinhas rezando? Porque a Globo está na campanha pela redução da idade penal e pela pena de morte. Essa é a disputa ideológica.


E quando uns jovens da sociedade ‘bem’ de Brasília resolveram se divertir e puseram fogo no índio Galdino? Era o Dia do Índio. Aquele índio pataxó, que era da Bahia, o que fazia lá em Brasília, dormindo debaixo do ponto de ônibus? Passam quatro rapazes, todos brancos, claro, filhos de desembargador, de juiz, promotor, deputado, todos bem nascidos, bem criados, e dizem: ‘Olha, um mendigo. O que vamos fazer com ele? Vamos comprar álcool.’ Saíram para comprar álcool. Quer dizer, não foi um instinto. Eles foram comprar álcool para queimar o índio. Foram lá, cobriram-no de álcool e o incendiaram. O Globo colocou alguma manchete tipo a do João Helio? A Globo colocou quantas freirinhas rezando o pai-nosso? Nenhuma. E quando a polícia mata uns 30 moradores no Complexo do Alemão? E os 21 moradores de Queimados, que foram chacinados para vingar um policial morto pelo tráfico? Dessas 21 pessoas, duas tinham alguma passagem pela polícia. Normal. Em qualquer lugar, sobre 21, há duas pessoas que já tiveram alguma passagem pela polícia. E O Globo colocou ‘barbárie’ na sua manchete? E as freirinhas? Se para João Helio foram três, para os 21 de Queimados deveriam ser 21 X 3 = 63. Sim, na novela das 8, deveriam aparecer 63 freirinhas rezando o pai-nosso e a Ave Maria. Mas não apareceram. Por quê?


Um último exemplo: a novela Senhora do Destino. Último capítulo. 58 milhões de brasileiros iriam assistir. E eu tive que ser um deles. Sentei, pronto para analisar; inteligentemente, peguei papel, caneta, pronto para observar tudo. Assisti ao capítulo e não achei nada de estranho. Nada de especial. Só não entendia o porquê de se mostrar um acampamento do MST. Se eu não entendi, 56 dos 58 milhões que assistiram também não entenderam nada. Aquele último capítulo é fatal para dar a idéia de que o MST é um bando de violentos, assassinos, matadores, vagabundos, um lugar ideal para se fazer um seqüestro. Logo em seguida, o comparsa da Nazaré queria o resgate da menina; então, ela pega um pedaço de pau, bate na cabeça do comparsa que queria o dinheiro do resgate e ele morre. Onde foi que ele morreu? No acampamento do MST.


Assim, tranquilamente. É isso mesmo, o lugar ideal para se levar uma pessoa seqüestrada é lá, no acampamento do MST. Lugar ideal para matar alguém a pauladas é lá, no MST. Ótimo capítulo. Um final assistido por 58 milhões de pessoas para dizer que o MST é violento! Isso é a mídia empresarial. Isso é a mídia comercial. É assim que ela condiciona corações e mentes.

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Escritor e coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC)

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