Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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CIRCO DA NOTíCIA >

Profanos escrevem ‘de ouvido’

Por João Serralvo em 11/08/2009 na edição 550

Escrevi um artigo intitulado ‘A corrida’, fazendo um paralelo entre a manobra comercial de famoso empresário norte-americano e certa sociedade entre a raposa e o sapo, conto que faz parte do nosso folclore rural. Era para mostrar a sabedoria caipira. O jornal amputou o último parágrafo inteiro, supostamente ‘por falta de espaço’.

Em outro texto, contei a história de um relojoeiro que não conseguiu difundir o uso de relógios em sua comunidade. Meu propósito era explorar o ‘fenômeno da resistência à mudança nas organizações’. O título era ‘Tempo de contar’. Como o meu personagem acabava desistindo do projeto, o artigo terminava dizendo: ‘Com o tempo, eles se darão conta de que o tempo conta quando se conta o tempo. Pois, tempo também é para contar.’ Uma revista do RJ o reproduziu, sem autorização, e eliminou o final, que achou ‘muito redundante’.

Só mais um exemplo. Em ‘Dietas da moda’, eu discorria sobre as estranhas dietas que circulam por aí. No final, amigos perguntam a um companheiro de Porto Alegre: ‘O que é que gaúcho come?’ e ele responde com uma expressão corrente do lugar: ‘Comida que faça bosta’, o que resume a finalidade de todas as dietas. Pois outro jornal substituiu a frase, considerada ‘indecente’, por ‘Comida que faça cocô’…

Gavetas e pastas com recortes

Jornalistas são escritores profissionais que dominam a linguagem e podem aperfeiçoar os textos. Têm manuais, seguem regras e não admitem nem cometem erros. Ao contrário, nós, os profanos, somos amadores e escrevemos ‘de ouvido’, sem maiores preocupações gramaticais. Aliás, os artigos citados estão em www.joaoserralvo.com, onde o leitor poderá vê-los na íntegra, se quiser.

Felizmente a informática possibilitou o aparecimento dos jornais eletrônicos, que não têm tantos problemas de espaço, facilitando a remessa e o tratamento dos textos, reduzindo também a chance de sofrerem modificações que surpreendam os seus autores.

Sua maior vantagem, a meu ver, é que as publicações podem ser modificadas posteriormente. No caso daqueles exemplos, como no de outros artigos mutilados, bastaria reclamar e as alterações seriam corrigidas, a menos que os redatores não concordassem, e então se retiraria o texto todo. Melhor assim do que permanecer o pé quebrado sob a responsabilidade do autor.

Os eletrônicos são de graça! Você não tem que comprar nem assinar nada. É só acessar a internet para ver a última edição e também as anteriores. Não precisa mais recortar e arquivar textos ou notícias de seu interesse. Acabou a necessidade daquelas gavetas e pastas onde você vai guardando tudo, mas não encontra nada.

A ‘melhoria’ feita pelos revisores

Contudo, confesso estar desistindo dos impressos apenas como colaborador, pois eles mantêm algumas conveniências para o leitor. O jornal de papel está nas bancas, chamando a atenção com as suas manchetes escancaradas ao público, e vai à residência do assinante, provocando a leitura pela curiosidade ou pelo hábito. Já o eletrônico depende de que o leitor tome a iniciativa do acesso, se ele já conhece o jornal e está habituado a fazê-lo. Se não, só o fará por acaso ou respondendo a algum incentivo.

Concorrem como vantagem para o jornal impresso a correria da nossa vida diária, a facilidade de poder ler logo no café da manhã, ao encontrá-lo na porta, ou levá-lo debaixo do braço para correr os olhos durante a ida ao trabalho, no ônibus, no metrô e até mesmo no carro, durante as paradas no engarrafamento do trânsito. O que faz muita diferença.

O jornal é o principal veículo da propaganda. Os mesmos anúncios que soam agressivos e irritantes na TV são procurados com interesse pelo leitor de jornal, que não os rejeita. Já nos ‘intervalos comerciais’ da televisão, o apresentador suplica: ‘Não saia daí’, pois sabe que o telespectador muda o canal para escapar daquela gritaria de mau gosto.

E assim fico eu: compro ou assino o jornal impresso para minhas leituras. Mas ao publicar um texto, prefiro o eletrônico, para não ver meus artigos serem ‘melhorados’ pelos revisores de papel.

Ainda que eles sejam ‘indecentes’ ou ‘redundantes’…

******

Contador e administrador aposentado, Valinhos, SP

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