Domingo, 21 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Projac e fundo de quintal

Por Robson Terra em 24/03/2009 na edição 530

Há conteúdo novo no reino da televisão brasileira que, há muitos anos, vinha embalada pela monotonia criativa. A programação, durante anos, vive o repetir, sem fim, de modelos desgastados. Após a epopéia de sedução dos deuses olimpianos, astros e estrelas contratados a peso de ouro pelas emissoras, surgem na telinha personagens desconhecidos, baratos e excessivamente entusiasmados em comungar com a produção de conteúdo da TV. Nunca tantos rostos anônimos tiveram a oportunidade de mostrar o rosto na tela da televisão. Muitos dos programas de entretenimento e jornalísticos das emissoras apelam, sem limites, para o chamado conteúdo colaborativo que se revela como saída estratégica para recuperação da audiência que se reparte pelas centenas de opções oferecidas pelo zapping e ingerência das novas mídias.

A TV está convocando o público a enviar vídeos e comentários pela internet e usar o material nas transmissões. ‘Durante anos, a tentativa de unir a TV com a internet resumiu-se basicamente a duplicar o conteúdo em um outro meio de comunicação’, afirmou Joel Hyatt, diretor-executivo da Current, um empreendedor de sucesso que fundou o canal junto com Al Gore. Nos testes iniciais, a empresa chamou os usuários a fazerem contribuições sobre vários assuntos, carregando fotos, animações, vídeos armazenados no YouTube, desenhos, comentários em texto e respostas via webcam. Um sucesso de interação!

Anônimos adquirem valor heróico

Os diretores brasileiros de TV descobriram a mina e promovem uma enxurrada de participação, via internet, nos programas na busca frenética pela audiência. O Fantástico, da Rede Globo, por exemplo, é o campeão de participações com os vídeos interativos após a exibição de cada matéria. Máquinas de lavar, cachorrinhos arteiros, crianças perplexas, casais enamorados e jogos de peladas do fim de semana consomem grande parte do programa, com participações pontuadas e visualizadas de norte a sul do Brasil.

O sucesso dos reality shows e do talk show dão nova cara à programação, que traz o modelo diferente de produção classificado como ‘neotelevisão’. A TV deixa de ser o totem que marca a separação entre o mundo na tela e o auditório diante da tela. Segundo Giuseppe Mininni, ‘as redes de `efeitos de realidade´ do público na mídia têm para o publico da mídia. O fato de me ver na TV é um modo relevante de me afirmar, autorizo-me a acreditar que o valor do que sou depende daquilo que parece’. Ou, como diz Patrícia Priest, ‘os anônimos na TV adquirem uma sensação de empowerment (empoderamento) porque podem-se perceber subtraídos da condição de anonimato e inseridos no Olimpo midiático que atribui valor heróico e semi-divino às celebridades de um instante’.

O padecimento dos olhos

Desde o início da produção massiva de conteúdo, os editores de revistas, com os cupons premiados, e programadores do rádio, com participações por telefone e cartas dos ouvintes, buscam a identificação e interatividade como forma de expandir negócios. Com a invasão da internet, a produção televisiva cria mais um mecanismo de sobrevivência, pois os blogs, sites de relacionamento, como o mágico Orkut, a tela azul, o YouTube, a TV do adolescente, o próprio e-mail, videologs, podcasts, twitter, facebook e milhares de outros aplicativos formados são fascinantes instrumentos de interação.

Essa é nova forma de mídia social, voltada para criar, se envolver e influenciar as notícias e as informações que os internautas e amigos recebem. A CNN tem destacado materiais gerados pelo público. As emissoras brasileiras ocupam boa parte dos noticiários com material barato, sem custo, descartável, de baixa qualidade técnica, de alta interatividade e podem diminuir as equipes de produção, estimulando o desemprego nas redações e na teledramaturgia. Em breve pode entrar no ar a novela feita no fundo de quintal – o Projac popular – ou episódios curtos, diários, no horário que antecede a Malhação, gravados por midiáticos domésticos, da periferia ou interior, pois os milhões de internautas crescem em progressão geométrica.

Segundo Dietmar Kamper, ‘o padecimento dos olhos é a busca de camadas mais profundas, que se torna facilmente a primeira vitória das superfícies impenetráveis das imagens que sonegam as histórias, substituindo-as por mais imagens, mais superfícies, ao invés de profundidade e desdobramentos’. A aqui o padecimento vira tortura, pois a falta de qualidade das imagens irrita o telespectador. O pior: a moda pegou!

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Jornalista, professor universitário e mestrando em Comunicação e Tecnologia

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