Sábado, 21 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CIRCO DA NOTíCIA > CACHOEIRA & IDALBERTO

Araponga de largo espectro

Por Mauro Malin em 24/04/2012 na edição 691

Um detalhe da biografia funcional do terceiro-sargento da Aeronáutica Idalberto Matias de Araújo, vulgo Dadá, desapareceu ultimamente das referências feitas na mídia a esse homem de confiança de Carlos Cachoeira: ele serviu no Centro de Inteligência do Comando da Aeronáutica durante 27 de seus 29 anos de carreira militar. Antes de passar para a reserva, andou metido na Operação Satiagraha, comandada por seu amigo Protógenes Guimarães, então delegado da Polícia Federal e hoje deputado federal (PC do B-SP).

Desde que o termo “araponga” entrou em moda, no final da década de 80, o país parece ter se acostumado com a permanência, na chamada “comunidade de informações”, de sobreviventes do SNI, Serviço Nacional de Informações, extinto por Fernando Collor no dia de sua posse, 15 de março de 1990. Essa extinção provocou desolação entre militares.

No livro Ministério do Silêncio – A história do serviço secreto brasileiro de Washington Luís a Lula, 1927-2005, Lucas Figueiredo escreveu (pág. 449):

“Com uma canetada, Collor destruíra um dos maiores ícones do poder militar no Brasil e um dos mais bem guardados bunkers do Exército. Não seria exagero dizer que, naquele dia, as Forças Armadas perderam um pedaço de seu chão.

“Um pedaço do chão sumiu e também uma porção do leite das crianças. Somente em cargos de direção, o SNI dava emprego – na verdade um salário extra – a um general da reserva e dois da ativa. Centenas de outros oficiais das três Forças também ocupavam postos de confiança naquele cabidão generoso. Só do Exército, havia 111 requisitados. Da Marinha eram mais 35 e da Aeronáutica, 25. Isso sem contar os militares contratados.”

Aeronáutica solidária

De lá para cá, os militares fizeram força para voltar a ter hegemonia nos serviços secretos do governo. Houve idas e vindas, mas não se pode dizer que os resultados tenham sido decepcionantes para os círculos castrenses. Em março de 2009, quando o ainda sargento Dadá foi depor na Câmara, convocado pela CPI das Escutas Telefônicas Clandestinas, havia na plateia brigadeiros solidários com ele.

Em 2010, Dadá chegou a conversar com integrantes da campanha de Dilma Rousseff a respeito de problemas de segurança e espionagem, como relata uma testemunha, Amaury Ribeiro Jr., no livro A privataria  tucana (pág. 312).

Do combate à subversão comunista, nos últimos anos da ditadura, o terceiro-sargento migrou para a produção de dossiês contra rivais, adversários ou inimigos de seus contratantes, até se colocar a serviço de Cachoeira.

Idalberto foi preso em decorrência da operação Monte Carlo e inicialmente levado para uma prisão de Goiás. Atualmente, é hóspede do VI Comar (Comando Aéreo Regional), em Brasília.

O Brasil ainda não sabe como tratar os sobreviventes da ditadura militar de primeira, segunda ou terceira geração. A Comissão da Verdade, que a presidente Dilma ainda não conseguiu montar, terá uma tarefa dura pela frente, principalmente se pretender efetivamente investigar e divulgar a realidade dos fatos. O passado está vivo e age com desenvoltura.

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