Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

CIRCO DA NOTíCIA > TESTE PARA LEITORES DE VEJA

Quais as semelhanças entre Kucinski e Mainardi?

Por Alberto Dines em 13/01/2006 na edição 363

Não existem. Impossível comparar matérias organicamente diferentes e esferas
moralmente antagônicas. Decência e indecência são palavras assemelhadas, têm a
mesma raiz, mas o minúsculo prefixo as remete para significados diametralmente
opostos.


Um observador da imprensa honesto, profissionalmente competente,
intelectualmente respeitado, íntegro, corajoso não pode ser comparado com um
carona do jornalismo, apalhaçado, oportunista, pusilânime, que se assume como
macartista (portanto, delator) e não se importa em afirmar que só opina mediante
pagamento.


A
entrevista
que Bernardo Kucinski deu à Agência Repórter Social está há
vários dias em todos os jornais, colunas políticas, portais e sites da internet.
Pode-se discordar dela quando arrasa a política de comunicação do presidente
Lula ou quando denuncia o preconceito da imprensa contra ele. Mas o teor e
compromissos do ‘manifesto’ de Kucinski são basicamente construtivos e
idealistas: ele acredita no jornalismo, quer melhorar a qualidade dos nossos
jornalistas e, sobretudo, quer impedir – junto com tantos outros – que a
imprensa seja manipulada por interesses políticos e econômicos capazes de criar
impasses institucionais.


Mainardi quer denegrir e avacalhar nosso jornalismo, quer colocar nossos
jornalistas sob suspeição e, em cima dos escombros que imagina produzir,
apresentar-se como salvador da pátria. Até agora só conseguiu aparecer no
semanário da Editora Abril. Nas principais redações do país tornou-se alvo de
chacota tão logo se evidenciou que aquela alcagüetagem desenfreada servia apenas
às suas idiossincrasias pessoais (nem sempre as mais desinteressadas).


Bernardo Kucinski é um veterano jornalista, correspondente internacional de
jornais ingleses e brasileiros, professor universitário e há muito empenhado em
discutir o desempenho da imprensa. Para melhorá-la, para evitar que os seus
vícios a deformem definitivamente. Não teve receio de arriscar o seu cargo no
governo e disse o que pensava. Ganhou o respeito de todos, inclusive dos que
eventualmente discordam dele.


Iconoclasta das moedinhas


Alguém soprou para Mainardi o adjetivo ‘iconoclasta’ e ele achou que é o que
lhe convém na futura biografia. Por isso reagiu tão enfezado quando este
Observador mostrou que não passa de um iconófilo, adorador de imagens, sobretudo
aquelas onde se vê incensado, irresistível [ver ‘O
flagrante de uma extorsão
‘].


Não percebeu que o verdadeiro ceticismo e o genuíno senso crítico são opções
que impõem sacrifícios. Ir contra a corrente, além de competência, demanda uma
disposição de abdicar, abrir mão. A iconoclastia não pode ser remunerada. É uma
escolha integral. Não convive com moedinhas.


Karl Kraus, considerado o patriarca da crítica da imprensa, recusou um dos
melhores empregos na imprensa vienense no fim do século 19 para fundar o seu
próprio jornal (Die Fackel, A Tocha), que dirigiu e escreveu praticamente
sozinho ao longo de três décadas.


A trajetória de Bernardo Kucinski como crítico da mídia remonta aos tempos em
que a imprensa aceitava a autocensura (em alguns casos com visível prazer). Por
isso engajou-se na imprensa alternativa. Algumas de suas famosas ‘Cartas Ácidas’
foram reproduzidas e discutidas neste Observatório.


Diogo Mainardi será capaz de transcrever na próxima Veja as críticas
que Kucinski fez ao comportamento da imprensa ou aproveitará apenas a parte que
lhe convém? Afinal conseguirá pensar e escrever como jornalista ou prosseguirá
na sua patética exibição de baixaria e rancor?


Aguardem.

Todos os comentários

  1. Comentou em 14/01/2006 luciana de Arruda Covolan

    Adorei conhecer o Obeservatório pela internet, dá pra acompanhar tudo, ler com calma, me manter bem informada. E o principal que é a oportunidade de analisar os fatos por outro ângulo. No dia de hoje dois artigos me agradaram bastante: o das capas da Revista Veja e o Alberto Dines falando tudo o que queria muito dizer do Diogo Mainardi e ele nunca me daria ouvidos. Dines MUITO OBRIGADA!!! Esse cara é desprezível. Parabéns por tudo, pela capacidade, dignidade, inteligência e ÉTICA. Luciana, sua fã.

  2. Comentou em 13/01/2006 Alexandre Carlos Aguiar

    O mercado, esse deus que está a nos ‘incomodar’ cotidianamente e que é a mola mestra dos administradores de plantão, de empresários fajutos e de palestrantes de auto-ajuda chatos, parece-nos também que se inseriu definitivamente na mídia. Os jornalistas, articulistas e ‘espertos’ se converteram a essa divindade.
    Se antes a imprensa era o canal entre a informação, o fato, e conseqüente análise pelo homem comum, agora virou caminho para vender jornais e revistas.
    Acompanho o discurso de Dines há algum tempo e o vi sempre como um jornalista (este sim!) imprescindível nas redações que existem por aí. Admiro o seu verbo!
    Contudo, parece-me, e quero estar muito enganado com isso, que o debate entre ele e esse arremedo de Paulo Francis, trata-se de um pacto de mercado. É o que propõe o marketing, a essência dessa religião, que prega o ‘fale de mim, que eu falo de ti’.
    Ora, se o colunista-medíocre de Veja é parcial, se defende a manutenção do neoliberalismo enfaticamente e se usa de seu espaço para apedrejar covardemente seus contestadores, e tudo isso por dinheiro, uma vez que não usa a inteligência, não cabe a um peso-pesado do jornalismo brasileiro bater com a mesma força. Seja mais perspicaz, Dines! Ou então serei obrigado a entender que há um pacto entre os dois.
    Fico com a opinião do jornalista Moisés Viana: vamos rejeitar essas excrescências que são a Veja e seu pupilo, pois assim o mercado lhes será cruel.

  3. Comentou em 12/01/2006 Igor Matos Lago

    Gostaria de parabenizar o grande jornalista e cidadão Alberto Dines pelo seu trabalho – o qual tem me dado a oportunidade de entender melhor o nosso País-, especialmente as suas colunas em relação ao arrogante-irresponsável-mercenário-etc Mainardi.
    Espero que a imprensa brasileira saiba resistir às vicissitudes de seus patrões e possa nos brindar com um jornalismo autêntico, crítico, vibrante, formador,…
    Um grande abraço de um cidadão comum que preza pela construção de uma sociedade melhor e mais justa.
    Igor.

  4. Comentou em 12/01/2006 marcos moraes

    Que coisa sô!

    O que se lê de besteira nestes comentários..empresários e ricos…lula e os pobres!

    Eu sou empresário e sou pobre como a ampla maioria deste país, e que ainda gera 80% dos empregos.

    Me parece que a questão é simples: o Dines aponta quem são os jornalistas do Opus Dei – aqueles que comem aluninhos – e o Mainardi aponta os jornalistas simpáticos aos comunistas – aqueles que comem criancinhas.

  5. Comentou em 10/01/2006 João Almeida

    Neesa discussão besta, fico com uma pergunta que não tenho resposta: por que alguém se sente no direito de dizer quem são jornalistas e quem são falsos jornalistas?
    Quem se sente nesse direito não pode se ofender com críticas.

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