Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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CIRCO DA NOTíCIA >

Quem te viu, quem te vê

Por Carlos Brickmann em 29/06/2004 na edição 283

Quem diria, quem diria! Heloísa Helena festejando junto com Antonio Carlos Magalhães, Aldo Rabelo explicando que a Câmara votaria um salário mínimo menor porque é mais progressista, José Dirceu comemorando o apoio da direita ao governo Lula. Mas vá lá, político é assim mesmo. Mais complicado é explicar como é que os veículos de imprensa que passaram os últimos 50 anos combatendo Leonel Brizola de repente passaram a considerá-lo tão bom, tão democrata, tão insubstituível.

O fato é que boa parte da imprensa perdeu a memória – e, diga-se de passagem, para muitos veículos perder a memória foi muito conveniente. Há poucos meses, o pessoal de imprensa que enchia a boca ao falar da Revolução passou a chamá-la de ‘golpe militar’. E os mesmos jornais, rádios, revistas e televisões que louvavam as conquistas do Brasil Grande passaram, de repente, a condenar o autoritarismo e a louvar suas vítimas.

É claro que as vítimas da repressão chegaram ao poder; mais do que isso, chegaram às torneiras que liberam ou não o dinheiro do poder. Mas não seria possível trocar de posição um pouco mais discretamente?



Divirta-se

Um livro próprio para jornalistas acaba de ser editado pela Paris Editorial: As notícias mais malucas do planeta, de Alessandro Bender. O autor vem colecionando notícias esquisitas publicadas em veículos importantes, de todo o mundo – coisas como ‘Golfinho tarado assedia banhistas na Inglaterra’. Importante: não são coisas como o bebê-diabo ou o boimate, simplesmente inventadas: as notícias saem sempre em veículos sérios.



Faltou inteirar

O presidente Lula declarou que ‘o difícil é difícil’. E não houve um órgão de imprensa, sequer, que completasse a frase: ‘O difícil é difícil porque não é fácil’. A frase, aliás, tem um certo parentesco com uma explicação famosa, dada por um jornalista: ‘Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. E ambas não se misturam’.



Vai bem, obrigado

De uma rádio FM de São Paulo, no dia 25, a respeito de uma onda de atentados no Iraque: ‘Forças leais ao presidente disposto do Iraque (…)’ O homem está preso em lugar incerto e não sabido, o futuro primeiro-ministro do Iraque já anunciou que vai mudar a lei para poder condená-lo à morte, e ainda dizem que ele está disposto.



Dúvidas

1. Por que o cavalheiro que antigamente não corria risco de vida hoje em dia ‘não corre risco de morte’? Estarão mesmo nossos veículos de informação convencidos de que ‘risco de vida’ é uma expressão errada?

2. Por que antigamente as pessoas que morriam eram enterradas e hoje, de acordo com os jornais, ‘o corpo da pessoa é enterrado’? Uma pessoa deixa de ser quem é quando morre?

3. Por que, antigamente, Pelé era chamado de Pelé, Emerson Fittipaldi era chamado de Emerson Fittipaldi, Nélson Piquet era chamado de Nélson Piquet e Rubinho Barrichello é chamado de ‘o brasileiro Rubens Barrichello’? Será que, por causa do sobrenome e da equipe, o pessoal acha que os leitores, ouvintes e telespectadores iriam pensar que é um novo piloto italiano? E o nosso Ronaldo Gorducho, por que é sempre identificado pelos jornais, quando joga no Real Madrid, como ‘o atacante brasileiro Ronaldo’? Haverá quem o imagine vindo da Croácia?



Rir

Deu num jornal do interior de Goiás. Um juiz, ao examinar um pedido de reconhecimento de sociedade de fato, formulado pela concubina após a morte do companheiro, determinou: ‘Cite-se o falecido para os termos da presente ação’. O oficial de justiça respondeu que, depois de várias diligências, recebeu a informação de que a pessoa a ser citada ‘desde o dia 5 de setembro de 1997 está residindo no Cemitério São João Batista’.

A notícia é ótima. Só faltou que o jornal procurasse o meritíssimo e o entrevistasse sobre o assunto. Seria a parte mais interessante da matéria.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; endereço eletrônico (carlos@brickmann.com.br)

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