Sábado, 23 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
Menu

CIRCO DA NOTíCIA > NOTÍCIA & OPINIÃO

Repórteres armados com microfone

Por Carlos Brickmann em 09/05/2006 na edição 336

A coisa já vem de algum tempo, mas atingiu o ápice com o caso do mensalão: de repente, todos os repórteres (de TV, de jornais, de rádios, de internet) resolveram se transformar em porta-vozes do povo, em heróis da opinião pública, deixando de lado aquela tarefa básica de informar o que está acontecendo.

São caras, bocas, muxoxos, voz de pouco-caso, funcionando como pano de fundo da notícia. E a notícia, basicamente, é a versão acusatória: pegue todos os veículos de comunicação, caro colega, e veja se algum reconhece a possibilidade de alguém ter sido absolvido com justiça no caso do mensalão. Até pode ser que todos sejam culpados; isso, sem dúvida, é possível. Mas não é provável.

E, na ânsia de mostrar-se indignado, muitas vezes o jornalista se esqueceu de dar a própria notícia. Um exemplo interessante: o mandato do deputado Josias Gomes (PT-BA) não foi cassado. Mas isso não significa que foi inocentado, ou absolvido, como foi noticiado: por maioria de votos, foi considerado culpado. Só não houve votos suficientes para que seu mandato fosse cassado.

Lúcio Flávio, célebre marginal carioca, ficou famoso ao dizer que polícia é polícia e bandido é bandido. Parafraseemos Lúcio Flávio: notícia é notícia, opinião é opinião. É preciso separar com clareza o que é notícia, o que é opinião. É preciso evitar a confusão – do mesmo modo que, por mais meritório que seja um anúncio, deve ser apresentado de tal maneira que não se confunda com a matéria editorial (ou vira picaretagem).

Clareza, pois: que cada repórter apresente sua opinião, libere a UDN que tem dentro de si. Mas que isso não se confunda com a notícia – para que não se confunda o repórter com o editorialista.



O outro Boris

Um caso interessantíssimo é o do milionário russo Boris Berezovski, que esteve recentemente no Brasil e, pelo que dizem, é candidato à compra da Varig (foi detido e interrogado durante cinco horas, depois liberado). Houve denúncias (especialmente do deputado estadual paulista Romeu Tuma Jr., do PMDB) sobre a ilegalidade da presença de Berezovski no Brasil. Tuma Jr. deu longa entrevista a uma emissora de rádio, falando mal do russo. Nada contra: se em sua opinião a presença de Boris Berezovski no Brasil é inaceitável, se acredita que o empresário vai utilizar dinheiro sujo na compra da Varig, tem mesmo de denunciá-lo, de levar suas suspeitas ao Ministério Público e de procurar colocar a opinião pública a seu favor.

Mas o repórter que o ouviu não o contestou em nenhum momento: ao contrário, além das frases de aprovação, juntou comentários a respeito do absurdo que a presença do visitante representaria.

Faltaram apenas algumas perguntas (que não só o repórter da rádio se absteve de fazer: este colunista não as viu em lugar nenhum): por exemplo, se há uma ordem internacional de prisão contra Berezovski, como é que ele vive normalmente na Inglaterra, em endereço certo e sabido, e é dono de um time grande, o Chelsea? Não é a Inglaterra o país-sede da Interpol? Terá a Inglaterra se transformado no grande refúgio mundial dos criminosos internacionais?

Ou será que Berezovski, inimigo do presidente russo Vladimir Putin, não seria por esse motivo perseguido pelo governo de Moscou? Faltou perguntar.



Celular-bomba

Outra pergunta que este colunista não tem visto nem ouvido nos meios de comunicação é a respeito das explosões de celulares. No momento em que esta coluna era fechada, já haviam explodido cinco, todos da Motorola.

A multinacional, conhecida por sua boa tecnologia, estará enfrentando problemas? Não estará a imprensa poupando um grande anunciante?



Mea maxima culpa

Duas mensagens contestam nota desta coluna a respeito da omissão dos meios de comunicação diante da crise na Bolívia. A propósito, vale a pena ler abaixo um interessante artigo de Alexandru Solomon, ‘O senhor dos gases’.

1. A Rede Bandeirantes informa: ‘Assim que a crise se configurou, a Band e a Bandnews enviaram à Bolívia os repórteres Sérgio Gabriel e Ubaldino Mota’. As matérias são exibidas nas duas emissoras do Grupo Bandeirantes.

Correto: mas o que esta coluna criticava era a falta de noticiário anterior. Configurada a crise, houve cobertura. Mas o movimento autonomista na planície boliviana (problema que acabou envolvendo a siderúrgica brasileira EBX) não foi noticiado antes; nem houve notícias das pressões sobre o presidente Evo Morales para que tomasse uma atitude espetacular que facilitasse a vida de seus candidatos nas próximas eleições legislativas.

2. Sandro Vaia, diretor de Redação do Estado de S.Paulo, jornalista de primeira linha, manda a seguinte mensagem:

‘Meu caro;

‘Sobre seu comentário no Observatório da Imprensa: o repórter Agnaldo Brito ficou seis dias em Porto Suarez cobrindo a crise entre o governo boliviano e a siderúrgica EBX. O Estado publicou matérias do enviado especial todos os dias.

‘O repórter Roberto Lameirinhas estava em La Paz quando o governo Morales anunciou a nacionalização do gás e do petróleo, conforme se pode ler no jornal de hoje.

‘A Bolívia não é tão longe.

‘Abraços riverplatenses’.

O Sandro falou, está falado: este colunista comeu mosca. Quanto aos abraços que enviou, referem-se a seu grande defeito pessoal: é palmeirense. É um homem de talento, que ocupa um dos cargos mais importantes da imprensa brasileira; é casado com a Vera, que é bonita, simpática e cozinha como poucos; tem uma filha lindíssima (que obviamente puxou a mãe). Infelizmente, não é corintiano. Não se pode ter tudo na vida.

O senhor dos gases

Alexandru Solomon

A ocupação ‘manu militari’ de nossas instalações ‘imperialistas’ na Bolívia não deve ser motivo de pânico, de indignação, muito menos de júbilo. Era uma ato previsível e, a menos da maneira pela qual foi perpetrado, rasgando contratos que poderiam perfeitamente ser renegociados sem essa coreografia repleta de efeitos pirotécnicos — legítimo.

Não se trata de devolver ao povo boliviano sua riqueza. O assunto é bem mais banal. Depois de ficar com apenas 18% da receita da venda do seu gás, o governo boliviano achou pouco os 50% já conseguidos e preferiu ficar com 82%. Questão de gosto. Se quiserem chamar esse pacote de manifestação de soberania, não há problema algum. O efeito prático é o mesmo. Diriam os idiotas da objetividade que se não houvesse a estrutura montada pelos ‘gringos brasileños’ não haveria exportação alguma, e receber 100% sobre zero seria um negócio desprovido de atrativos. Mas esse é um outro assunto.

Há apenas a necessidade de o nosso ‘guia espiritual’ assimilar uma lição: se quiser praticar cortesia com o chapéu do povo, como o tal perdão da dívida de US$ 52 milhões da Bolívia, não espere nada em troca.. O que a Petrobrás perderá, mesmo sem ser uma catastrófica troca de um investimento valendo 1,5 bilhão de dólares por bolivetas – ou qualquer título ‘soberano’ de valor nulo, será, de qualquer forma, um preço altíssimo pago em nome da empáfia e uma pá de cal às pretensões megalomaníacas de um presidente que, por força de hábito, nada sabe, mas adora praticar uma estridente ‘realpolitik’.

Quanto a nós, após negociações fraternas – dentro do modelo Abel/Caim – pagaremos mais caro pelo gás, apenas isso. De quanto será o prejuízo? O tempo dirá. Talvez a Petrobras, apesar de ser uma sociedade anônima, terá de bancar parte da conta, talvez haja repasse integral. De qualquer maneira, haverá um impacto inflacionário e vitupérios dirigidos ao Copom. Desabastecimento não haverá. O que faria o Senhor dos Gases, Evo Morales, se não vender para nós? Embarcaria para a Califórnia? Pode ser que a diplomacia boliviana contasse apenas com o impacto ufanista dessa medida sobre a população, para, a seguir, praticar a retirada do bode da sala. Na melhor das hipóteses, ficaremos com um belo susto e teremos de nos contentar com uma negociação cuja validade, sabe-se, só será conhecida a posteriori.

A moral algo surrealista é: vamos escolher cuidadosamente nossos ‘irmãos’. Ou na impossibilidade disso, vamos selecionar melhor nossos aliados.



Epa! Epa! Epa!

Esta notícia, publicada na quinta-feira (4/5) pelo blog de Juca Kfouri, é tremendamente importante: mostra que ainda existe um comportamento que se julgava extinto, o do jornalista que é pago pela entidade que cobre, e não pelo jornal onde escreve. Segue a notícia:

Relação ainda mais delicada (4/mai)

Em resposta a uma ação trabalhista movida pelo jornalista Alexandre Simões, que pede equiparação salarial ao repórter especial Jaeci Carvalho, o Estado de Minas se defende com a seguinte afirmação perante a Justiça do Trabalho:

‘O paradigma Jaeci, embora custeado pela CBF [grifo meu, C.B.], usava suas reportagens de cobertura da Seleção Brasileira fora do Brasil e internamente, em prol do jornal Estado de Minas, enquanto o Reclamante só fazia as coberturas da Seleção Brasileira nas viagens custeadas pelo Estado de Minas…’

Observação deste colunista: se o repórter é pago pela CBF, que independência tem para fazer a cobertura da CBF?



Sul-africanos na Abril

O presidente da Editora Abril, Roberto Civita, anunciou na sexta-feira (5/5) – e a notícia foi dada em primeira mão pelo jornalista Ricardo A. Setti, no excelente noblog) – a venda de 30% da Abril ao gigante sul-africano Nasper. Com os 422 milhões de dólares que receberá pela venda, a Abril elimina suas dívidas e, fortemente capitalizada, ganha condições ainda mais favoráveis num mercado, o de revistas, em que já é a empresa dominante.

Civita diz que os sul-africanos, donos de 30% da empresa, com lugar no Conselho de Administração, tendo investido essa montanha de dólares, não influirão na gestão dos negócios nem em seu conteúdo editorial. Claro! Não é evidente?



De que se trata?

Esta notícia saiu num portal da internet:

‘Mais uma indicação de que Halo 3 deve mesmo aparecer na E3 foi dada, desta vez pelo site IGN que diz ter ouvido a notícia de uma fonte ligada à Microsoft. Segundo o site, Halo 3 aparecerá em um trailer com dois minutos de duração’.

Quem entender a notícia receberá desta coluna a honrosa missão de explicar direitinho a letra de ‘Refazenda’, de nosso ministro Gilberto Gil – aquela que diz ‘enquanto o tempo não trouxer o abacate/ amanhecerá tomate/ e anoitecerá mamão’.

Informação inútil

O assíduo leitor Jacob Bider informa que, no dia 6 de junho próximo, em determinado horário, será tudo igual: 06h, 06m, 06s de 06/06/06.



E eu com isso?

Dos jornais, revistas, TVs, internet, rádios:

1. ‘Eu tô amando e quero me casar!’ diz Glória Maria para Xuxa

2. Susana Vieira assume noivado

3. Glória Maria leva enteados para as compras no Rio



Como é mesmo?

Dos mais diversos veículos de comunicação:

1. ‘Avião desaparecido é encontrado no Mar Morto’. Agora falta decidir: é desaparecido ou foi encontrado?

2. ‘Pimenta Neves chega caminhando para o seu julgamento’. E de que outra maneira compareceria ao tribunal?

******

Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem