Sábado, 24 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1051
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Temer, impoluto e desmemoriado

Por Alberto Dines em 21/04/2009 na edição 534

O atual presidente da Câmara dos Deputados tem 69 anos, está no seu sexto mandato, já ocupou a presidência da Casa duas vezes e sentou interinamente na cadeira de presidente da República outras duas.


A biografia oficial de Michel Temer não registra o que fazia em 1964, mas um político com este currículo não tem o direito de ignorar o que se passou no Brasil naquele ano nem, muito menos, fazer a seguinte declaração nas ‘Páginas Amarelas’ de Veja (edição 2109, com data de capa de 22/4, páginas 17-21):




‘O Legislativo só é enaltecido quando o país está saindo de um regime autoritário. Na história brasileira sempre foi assim. Em 1964, o Congresso estava com sua imagem no chão, o que deu no regime militar, instaurado com o aplauso da maior parte da população.’


Em 1964, o Congresso não estava desmoralizado nem o golpe militar foi desferido em função do que lá se passava. A oposição a João Goulart e sua base de apoio eram compostas por parlamentares da melhor qualidade. Os debates na Câmara – embora sem o brilho de legislaturas anteriores – eram seguidos com grande interesse pelos jornais e seus leitores. Os repórteres cobriam o plenário, lá estava o centro nervoso do país.


Em nenhum momento, antes, durante ou em seguida ao 1º de abril de 1964 registrou-se qualquer manifestação contra a atuação do Legislativo – os militares queriam derrubar Jango. O Congresso foi preservado e as cassações que se seguiram não o deslustram, ao contrário, só comprovam a coragem e o desprendimento daqueles que se rebelaram contra a ilegalidade.


Detalhe esquecido


Na frase seguinte o ‘historiador’ Michel Temer ainda ousa dizer que ‘o Legislativo praticamente não existiu até 1982’. Tremenda burrada: o Legislativo resistiu bravamente, o Pacote de Abril (1977) não foi decretado para punir as bandalheiras de congressistas, mas para atalhar a sua capacidade de resistir ao arbítrio.


Essas absurdas ‘releituras’ da nossa história política não são acidentais nem surtos de amnésia de um quase setentão. A estratégia adotada pela dupla Temer-Sarney pretende confundir o cidadão e mostrar que o Congresso sempre foi corrupto, inconfiável, por isso foi instaurada uma ditadura de 21 anos. Se não queremos repetir a dose – raciocinam eles – devemos deixar que os parlamentares avacalhem o país.


Conclui o impoluto Temer: ‘É preciso preservar a instituição dos erros de poucos.’


Na segunda-feira (20/4), dois dias depois da publicação da entrevista, o site Congresso em Foco revelava que o presidente da Câmara viajou a Porto Seguro, durante o recesso de janeiro de 2008, acompanhado de quatro familiares, todos com as passagens pagas pelo contribuinte. Esqueceu disso quando concedeu a entrevista.

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