Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

CIRCO DA NOTíCIA > IMPRENSA & PODER

Torcida pelos dois times

Por Carlos Brickmann em 19/10/2010 na edição 612

O candidato oposicionista José Serra já brigou com a colunista Miriam Leitão, de O Globo, por uma pergunta absolutamente pertinente sobre o que acha da autonomia do Banco Central; já brigou com a apresentadora Márcia Peltier, do CNT, acusando-a de fazer perguntas (aliás, totalmente necessárias) formuladas pelo PT. Agora, brigou com um repórter do Valor e acusou o jornal de ‘cumprir uma pauta petista’, por perguntar sobre o caso Paulo Preto. Diante da pergunta, cabe ao entrevistado responder, não especular sobre as razões que levaram o repórter a fazê-la; pode dar uma boa resposta, pode dar uma resposta ruim. Não pode impedir que alguém faça uma pergunta inconveniente – mesmo porque não há perguntas inconvenientes. O que pode haver é uma resposta inconveniente.

Dilma e o presidente Lula também brigam com a imprensa (além de estimular o Ministro da Verdade Absoluta a lutar pelo ‘controle social da mídia’, apelido que conferiram à censura). Dilma, enquanto não foi obrigada pelos fatos, respondia às perguntas rigorosamente profissionais sobre Erenice Guerra dizendo que era tudo factóide; e o presidente se queixa da imprensa a cada discurso (e não são poucos). A coisa chega a tal ponto que a ala chapa-branca da comunicação acusa a imprensa de tramar um golpe contra o governo. Deve haver alguma confusão entre a ‘Coluna do Castello’ e o marechal Castello.

Havia reis, antigamente, que mandavam matar os portadores de más notícias. Este colunista já foi ameaçado de prisão, na época da ditadura, por esperar no aeroporto que o avião do presidente da República decolasse (o que foi interpretado pelo comandante militar de Congonhas como torcida para que houvesse um acidente na decolagem). É até compreensível que a imprensa não seja bem-vista pelo Poder: o repórter que é repórter não está ali para elogiar o figurino real, mas para verificar se o rei não está nu. O que é difícil de compreender (exceto se considerarmos que o autoritarismo vem de dentro, do fígado) é que a oposição também considere que a imprensa é a fonte de todos os males.

Enfim, como diz o esplêndido jornalista Ricardo Setti, que agora volta à atividade diária em seu blog, se os dois lados criticam a imprensa, isso significa que alguma coisa certa a imprensa anda fazendo.

 

Opinião é crime?

O Ministério Público Eleitoral entrou com ação no Tribunal Superior Eleitoral pedindo que o jornalista Paulo Henrique Amorim seja multado por publicar, em seu blog, um ‘explícito pedido de votos’ a Dilma. Há aí dois fatos a considerar:

1. Desde que Dilma foi lançada, Paulo Henrique Amorim apóia sua candidatura (e, em contraponto, opõe-se ferozmente à candidatura de José Serra). Entrar com uma ação contra ele é pelo menos extemporâneo: não está fazendo nada diferente do que normalmente faz, e que figura entre as prerrogativas do jornalista.

2. Se dá opinião, e daí? Um jornalista não tem direito a dar opinião? Achar que há crime em manifestar uma opinião, achar que há crime em oferecer argumentos a seus leitores para que sigam sua opinião, isso tem nome: censura. E censura é proibida pela Constituição, embora alguns juízes ainda não tenham se conformado com isso.

Concorde-se ou não com Paulo Henrique, isso não faz a menor diferença: ele, como todos os cidadãos brasileiros, tem direito a expressar suas opiniões. Tem também o direito de, preferindo-o, não expressar suas opiniões. Aliás, quem não concorda com Paulo Henrique tem obrigação ainda maior de defendê-lo num caso como este: é óbvio que somos todos a favor de nossa liberdade. O grande teste democrático é defender a liberdade dos que pensam diferente de nós.

 

Boa notícia judicial

O espetáculo foi aquele de sempre, a que todos estamos acostumados: a polícia, com as equipes de TV devidamente avisadas e a postos, invadiu a casa de uma cidadã, prendeu-a, cometeu as arbitrariedades de costume, deu aquelas entrevistas a respeito de como a moça presa era culpada sabe-se lá do que.

Acontece que, também como de hábito, a moça não tinha nada a ver com o crime que motivou o espetáculo, tanto que foi liberada no mesmo dia. Mas o estrago de imagem estava feito. Agora, por decisão da 3ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de Santa Catarina, o governo do estado foi condenado a pagar R$ 30 mil de indenização à vítima.

Falta completar o trabalho: punir os policiais exibicionistas que expõem pessoas que levianamente consideram culpadas, antes de qualquer julgamento, a situações constrangedoras e prejudiciais à reputação de que desfrutam.

 

E o barco?

Em março último, o presidente da República, levando a tiracolo sua candidata e aquela comitiva que cada vez aumenta mais, comemorou em Pernambuco o lançamento ao mar do navio João Cândido, construído por um estaleiro de Suape. Batizado o barco, feito o lançamento, os meios de comunicação se esqueceram totalmente do assunto. Estamos em outubro, sete meses depois da festa; e o barco continua no estaleiro, para onde voltou depois que o cordão da propaganda foi embora. A data prevista para que o navio seja mesmo lançado ao mar é março de 2011, um ano após seu batismo. Alô, repórteres! Cadê o João Cândido?

 

Liberdade, liberdade

Um grupo de intelectuais lança nesta semana, na PUC paulista, um manifesto de apoio à candidatura de Dilma. Perfeito: colocam-se claramente na luta política. Mas há um trecho de seu manifesto que pode provocar algumas dúvidas:

‘Nos últimos anos, a liberdade de manifestação de idéias fluiu no País. Não houve um ato sequer do governo que limitasse a expressão do pensamento em sua plenitude. E são essas liberdades que devem ser mantidas.’

1. Como enquadrar nesse parágrafo a tentativa de expulsão do país do repórter Larry Rohter, do The New York Times, casado com uma brasileira, para puni-lo por uma reportagem? Ricardo Kotscho e Márcio Thomaz Bastos, vitoriosos na luta para mantê-lo no país, têm histórias a contar sobre esse tema.

2. O Estado de S.Paulo está sob censura há mais de um ano. Quem pediu a censura foi Fernando Sarney, que comanda o império empresarial do senador José Sarney (PMDB-AP), presidente de um dos Poderes da República, importante aliado do presidente Lula, que até forçou o PT maranhense a apoiar a candidatura de sua filha Roseana ao governo do estado.

A liberdade de imprensa, efetivamente, mais sofre ameaças verbais do que é efetivamente atingida. Mas não se pode dizer que não houve nada contra ela.

 

Coisa feia!

Uma grande agência brasileira de publicidade está sendo acusada de plágio pelo designer britânico Mico, autor de uma interpretação gráfica semanal de citações de letras de músicas. O desenho que, segundo Mico, teria sido copiado para um anúncio de automóvel no Brasil, se refere a uma letra da banda Dire Straits. A denúncia não foi levada à esfera judicial: Mico sugere apenas que os leitores de seu site mandem e-mails à agência brasileira com opiniões sobre o caso.

 

Como…

De um grande portal noticioso, sobre o julgamento de Neymar pela Justiça Desportiva:

** ‘(…) por assumir qualquer conduta contrária à disciplina ou à ética desportiva não triplificada pelas demais regras (…)’

Não, não pensem mal: deve ter algo a ver com triplicar. Ou não. Ou, sei lá, talvez.

 

…é…

Do press-release sobre o lançamento de um novo tipo de cadeira para bebês:

** ‘A cadeira (…) é uma alternativa prática ao antigo caldeirão.’

Deve ser a primeira cadeira em que o bebê não apenas pode sentar-se para almoçar como também para ser fervido.

 

…mesmo?

De um portal especializado em esportes:

** ‘Há nove pontos do G4, Toninho quer pensar em um jogo por vez’

Um dia, podem ter certeza, todos os brasileiros, ou pelo menos todos os jornalistas brasileiros, saberão a diferença entre ‘a’ e ‘há’. Só que nesse dia, podem ter certeza, já não ‘averá’ mais essa diferença.

 

Mundo, mundo…

O cavalheiro tinha fortes suspeitas de que a namorada o presenteara com uma peruca de touro. Por via das dúvidas, agrediu-a a socos e pauladas, trancando-a em seguida. E ainda disse à polícia que a vítima ‘estava lhe traindo’ em pensamento.

Idiota completo: considera-se corno, não conhece regência verbal e é espancador de mulheres. Se ainda houvesse prazo, poderia perfeitamente ser candidato ao Congresso.

 

…vasto mundo

Susan Sykes, candidata a modelo, fez o maior sucesso num show de talentos na Alemanha: consegue esmagar latas de cerveja com os seios. Taí uma nova especialidade em que, aparentemente, ninguém pensou por aqui: no sutiã de uma jovem como esta deve caber uma grande quantidade de dólares. Nada comparável a uma boa cueca, mas poderia servir para quantias um pouco menores.

 

E eu com isso?

Eles são famosos porque aparecem em publicações especializadas em famosos, mas no fundo são gente como a gente. Veja:

** ‘Angelina Jolie e Brad Pitt dividem lanche em set’

** ‘Lázaro Ramos encara fila na farmácia’

** ‘Marido de Celine Dion desmente boato de que cantora teria marcado data para o nascimento dos gêmeos’

** ‘Angélica diz pensar em fazer até mandinga para ter uma menina’

** ‘Isis Valverde almoça com o noivo e o cachorro no Rio’

** ‘Juiz espanhol concede a casal guarda compartilhada de cachorro’

A turma da pouca roupa continua em alta:

** ‘Peladão é flagrado vendo pornografia no trabalho’

** ‘Mulheres peladas leem livros em público’

Parece que o objetivo é estimular o hábito da leitura entre os jovens. As moças, peladinhas, leem as histórias, e esperam com isso que os ouvintes, curiosos para saber como o livro termina, acabem por lê-lo. Parece que funciona: um ou outro até presta atenção na história que as moças peladas estão contando.

** ‘Bebum perde rumo de casa e toma banho na vizinha’

A dona da casa se assustou com o barulho, chamou a polícia e o bêbado apareceu nu, bem a tempo de ser preso.

** ‘Médico erra no diagnóstico e homem vende tudo’

Foi como no filme: ele vendeu tudo e foi gastando, já que ia morrer logo. Mas não ia – e já prepara o processo multimilionário contra o médico.

 

O grande título

Há cérebros, caro colega, em que a malícia prepondera. Temos dois bons títulos nesta semana dedicados especialmente a esse tipo de cérebro:

** ‘Em teste de direção, homem destrói entrada de órgão de habilitação’

Nada disso: o órgão citado no título é departamento de trânsito.

** ‘Brasil de Mano já sente falta de Ganso e busca novo esquema ofensivo’

Parece que, sem o Ganso fazendo o vai e vem, as bolas não chegam à zona do agrião.

Mas o melhor título só tem a ver metaforicamente com o tema. Refere-se a um hábito típico das Filipinas:

** ‘Agentes da Receita dançam para entreter clientes nas Filipinas’

Porque aqui, historicamente, quem dança nunca é o pessoal da Receita.

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/10/2010 José Aprigio Nogueira

    O colunista se permite criticar uma leitora por um pequeno erro (mais provavelmente de digitação do que de concordância), mas não se pronuncia quanto as cinco ou seis explicações de leitores sobre lançamento ao mar de navios. Parece que a referência a ter sido empregado de Maluf ainda causa traumas…

  2. Comentou em 22/10/2010 Marcus Vinicius Coelho

    Meu caro Brickman:
    Opinião, é claro, não é, nem pode ser, crime. É direito, bem como sua expressão, inclusive em editorial. Crime é expressar opinião sob a forma de noticiário, distorcendo os fatos de modo a que eles passem a refletir a opinião de quem os reporta, o que vem sendo feito de maneira contumaz por diversos órgãos de imprensa. Por sua idade e experiência,você já devia saber disso.
    Quero, também, informá-lo que, em todo o mundo, na construção naval há duas datas relevantes: o lançamento ao mar (marcado pelo batimento da quilha) – quando a embracação sai da doca seca e passa a ser contruída já flutuando (mas continua sendo construída) – e a entrega – quando a embarcação é finalizada e, após testes de navegação, é entregue aos compradores. O João Cândido foi lançado foi lançado ao mar, mas sua construção seguirá, até a entrega. Por favor, procure se instruir antes de fazer acusação velada.

  3. Comentou em 21/10/2010 Walmor Gomes

    Se ambos os lados nessa disputa eleitoral estão descontentes com a imprensa, talvez a imprensa esteja realmente cometendo abusos. Não gosto da forma como pressiona para enterrar o PNDH; são temas que carecem de discussão, inclusive o famigerado controle social. Não sou insensível aos medos da imprensa, porém, numa democracia, deveríamos ser livres para discutir qualquer idéia, principalmente as espinhosas.

  4. Comentou em 19/10/2010 Dante Caleffi

    Lança-se o casco ao mar e não o navio completo.A propósito ,coragem de governante de batizar navio com o nome do ‘ Almirante Negro’.Parabéns Lula! Nunca imprensa foi tão livre. Qual seria o destino de jornalista brasileiro que fizesse referências caluniosas a um presidente, recém eleito, em país que não o seu?Censura praticou o Estadão defenestrando sua articulista.É o espírito Mesquita,aquele mesmo, que se opunha `alfabetização das massas,alegando que isso acabaria coma mão de obra servil.

  5. Comentou em 28/09/2010 Bruno Protzner

    Prezados senhores, bom dia. Gostaria de uma informação. O Correio Braziliense, edição de 27/09/2010 publicou uma notícia da extensão da campanha de vacinação antirrábica para cães e gatos no DF. Antes disso, somente no domingo, 26/09 era o dia de vacinar. Eu levei minha gata e minha cadela para tomarem a referida vacina. Acontece que a gata ficou muito mal, com febre, muita dor, sem comer e beber. Eu então, comentei a notícia no site do jornal, a fim de alertar os donos dos bichos. O Correio, então, vetou esse comentário, e não o publicou. Eles podem fazer isso? Essa prática é legal? Agora, por um erro no site, não consigo pedir explicações ao jornal. Isso não caracterizaria um tipo de censura à minha liberdade de expressão, ou expressa algum tipo de má fé (pra dizer o mínimo) do jornal? Agradeço a atenção.

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