Sexta-feira, 18 de Outubro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1059
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Trabalhar dá prejuízo

Por Carlos Brickmann em 13/07/2004 na edição 285

A Folha de S.Paulo está de parabéns: mostrou, na edição de 11 de julho, que quem aplicou dinheiro a juros ganhou muito mais do que quem se meteu a investir. Mais precisamente, o quádruplo. Vamos enfatizar: quem vendeu sua empresa há alguns anos e aplicou o dinheiro ganhou muito mais do que o trouxa que se dedicou a produzir, pagar impostos e gerar empregos. Tudo bem, a gente sentia isso na pele, a gente sabia que isso acontecia, mas a Folha foi fazer as contas e mostrou que o fato é real – e que, se o Brasil não mexer nessas coisas, vamos acabar comendo certificados.

A Folha fez outro gol no dia seguinte: mostrou que os bancos, à medida que aumentam seus lucros, pagam menos impostos.

Continua sendo necessária, neste país, a sintética Constituição proposta por Capistrano de Abreu: ‘Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha na cara. Revogam-se as disposições em contrário’.



Transposição

A propósito, os jornalistas deveriam ser obrigados a escrever com atenção, mesmo quando se trate de legendas de fotos. Chamar Fernanda Montenegro de Fernanda Torres, como aconteceu no caderno de um grande jornal, é um pouco demais da conta.



Recriação biológica

Publicado no dia 9: o ministro da Saúde, Humberto Costa, comemorou seu 47º aniversário num bar em Brasília, com cerveja, caldo de feijão e uma porção de ‘língua de pernil assado’. Que será ‘língua de pernil’? Que estranho animal será esse, que tem a boca na coxa?



Recriação lingüística

Transcrição: ‘David Beckham, o jogador inglês destaque do Real Madrid, contratou o escritório (…) para evitar que não haja utilização indevida de seu nome no Brasil’. Evitar que não haja? Significará essa estranha construção verbal que ele está irritadíssimo com a falta de divulgação indevida de seu nome no Brasil?



Quanto?

O novo governo da Índia, pelo que fomos informados, está pronto a gastar ‘bilhões’ em programas sociais. A notícia seria excelente se soubéssemos: a) quais programas sociais? b) quantos bilhões? c) em que moeda?



Na trave

A imprensa noticiou que a Corte Internacional de Haia, aquela que celebrizou Ruy Barbosa, condenou a construção do muro israelense. Não é bem assim: condenou a construção do muro em territórios que, a seu entender, não fazem parte de Israel. A construção do muro dentro das fronteiras israelenses, disse a Corte, não está incluída na declaração de ilegalidade.



É culpado!

Em nota simpática sobre a família de Law Kim Chong, falando do bom conceito de seus filhos perante os colegas, repetem-se dois vícios que se tornam cada vez mais comuns no jornalismo. Law é chamado de ‘chinês’ e de ‘megacontrabandista’. Primeiro, não é chinês: nasceu em Hong Kong, na época uma colônia britânica, e se naturalizou brasileiro. Portanto, se quiserem se referir a ele pelo local de nascimento, é britânico. Se pela nacionalidade, é brasileiro – apesar dos olhos amendoados, apesar da aparência oriental. Segundo, está preso, mas a acusação não é de contrabando: é de ter oferecido propina ao deputado Luiz Antônio Medeiros, do PL paulista, presidente da CPI da Pirataria. A Polícia costuma acusar Law Kim Chong de contrabandista (e talvez ele até o seja); mas onde anda aquele preceito legal, e do bom jornalismo, que manda considerar qualquer pessoa inocente até prova em contrário?



Negrão, sim

No filme Pelé eterno, muitos dos admiradores do craque se referem a ele como ‘Negrão’ e ‘Crioulo’. Racismo? Não: exatamente o contrário. As duas expressões sempre foram utilizadas num contexto de admiração e de reconhecimento de sua superioridade como craque de futebol. E que bola jogava o Negrão!

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados Comunicação; (carlos@brickmann.com.br)

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