Domingo, 18 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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Trópicos mais tristes

Por Evandro Carvalho em 10/11/2009 na edição 563

As relações que o indivíduo trava com o outro são o parâmetro principal que norteia os estudos sobre a nossa suposta civilização. É do senso comum o fato que a história se resuma a uma cíclica, intermitente e, por que não, etérea luta de classes. É claro que não só a história, mas também o modus operandi das civilizações modernas (estas principalmente) não funcionam tão unicamente com este mecanismo. Mas é certo que para que se almeje ou vislumbre um novo modelo de existência e de interação com o semelhante, alguém precisa estar em desvantagem, se é que este termo se aplica.

Em desvantagem, ou solapado por não se incluir em nenhum grupo que exerça influência de alguma forma, ou por não ter uma formação intelectual capaz de esclarecer quem o é ou em que contexto está, ou ainda pelo simples fato de contribuir tão somente com a mão-de-obra à produção de capital, ou ainda por outras circunstâncias, que vão desde o fanatismo religioso até a segregação racial, o homem que emerge na aurora do século 21 naturalmente buscará soluções para suas mazelas, mesmo porque a vida tornar-se-á insuportável nas próximas décadas, especialmente nos grandes centros urbanos onde, não por acaso, está boa parte da população mundial.

Amargas constatações

O legado do antropólogo ClaudeLévi-Strauss, que morreu aos 100 anos na terça-feira (3/11), foi tentar entender a disposição e funcionamento de sociedades primitivas ou que tipo de relação exerce o indivíduo destas sociedades com a natureza espacial, a natureza de seu semelhante e a natureza de suas divindades. Disposição e funcionamento bem diferentes das sociedades do homem emergente do século 21, mas não menos complexas. Assim, o estruturalismo, termo cunhado ao postulado científico de Strauss, consolidou-se como uma revolução na antropologia e alçou o nome do etnólogo no rol dos grandes pensadores do século 20.

Saudades do Brasil e Saudades de São Paulo, duas obras já crepusculares de Strauss, registram as memórias do antropólogo nos anos em que esteve no Brasil, seja imerso em comunidades indígenas ou lecionando na USP – Universidade de São Paulo, então recém-inaugurada, na década de 1930. Influenciado por outros dois vultos do pensamento moderno, o lingüista Roman Jakobson e o sociólogo Émile Durkheim, o também escritor Lévi-Strauss entende que estas duas últimas obras são amargas constatações de que o que ele viu e sentiu naquela época – o que foi decisivo para que se enveredasse pela antropologia – não existe mais. Homenageado há três anos numa universidade na Europa, o autor de Tristes Trópicos lamentou a maneira com que o homem trata o planeta. ‘O mundo começou sem o ser humano e terminará sem ele.’

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Jornalista

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