Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

CIRCO DA NOTíCIA > CRITÉRIOS LINGUÍSTICOS

Uma América que não é latina

Por Mauro Malin em 26/10/2011 na edição 665

Entrevistado pelo ator Lázaro Ramos no programa Espelho (edição de 23/10), do Canal Brasil, o escritor e ativista cubano Carlos Moore, exilado de seu país desde 1963, chamou a atenção para o sem-sentido de se usar a expressão “América Latina”.

A maioria dos habitantes do continente ao sul do Rio Grande não é “latina”: é mestiça, índia, negra.

Em vista disso, parece melhor usar as denominações de base cartográfica: Américas do Sul e Central, Caribe e América do Norte. Dir-se-á que assim o México fica ligado aos Estados Unidos. Fica. Mas alguém tem dúvida de que os destinos do México e dos Estados Unidos estão inextricavelmente ligados?

A designação “América Latina” foi cunhada para demarcar tudo que não é anglo-saxão, baseada na supremacia de línguas derivadas do latim.

Mais recentemente, serve para tomar distância, nem que seja retoricamente, dos Estados Unidos (e do Canadá; mas o Quebec não seria “latino”?).

Há nisso duas patentes ironias. A primeira é que o qualificativo “latino” remete ao colonizador ibérico e francês. A segunda é que nos Estados Unidos se passou a usar exatamente o mesmo termo para designar todos os imigrantes provenientes do sul do Rio Grande. Os “latinos” formam um grande caldeirão que abarca falantes de centenas de línguas, e cores de pele que vão do negro haitiano ao branquíssimo descendente de alemães, poloneses etc.

Mas a mídia não deixará de usar “América Latina”. Principalmente a mídia “latino-americana”.

Ser negro em Cuba

Moore chamou a atenção para o fato de que Cuba, 52 anos depois da revolução, é dirigida por “uma microscópica elite de descendentes de espanhóis”. Disse que os negros em Cuba são grande maioria, mas sofrem forte e constante discriminação. Principalmente se filhos de imigrantes de países como a Jamaica (é o seu caso), ou, mais ainda, do Haiti. “A pior coisa que pode acontecer a um negro em Cuba é ser descendente de haitianos”, afirmou.

Uma entrevista como essa torna inevitável reiterar a constatação de que o tratamento dado aos assuntos cubanos na mídia periódica brasileira é calcado em danosa falta de informação e conhecimento.

Nos noticiários não há distinção entre cubanos. Quando muito, entre burocratas que vivem com algum conforto e o resto, pessoas que sobrevivem aguilhoadas por necessidades de todo tipo.

A indistinção entre cubanos calha bem à defesa de uma ideologia em que o povo figura unido. Ideologia instrumental para a manutenção de um regime, e, dentro dele, de um continuísmo governamental que só tem paralelo em países como Coreia do Norte, Síria, Angola, nesse sentido comparáveis a monarquias do Oriente Médio e da Ásia.

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