Quinta-feira, 27 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1043
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Uma ilha virtual

Por Luiz Gustavo Pacete em 30/06/2009 na edição 544

O mundo virtual vive dias intensos. A vida e o dia-a-dia das pessoas convergem cada vez mais em múltiplas plataformas. Aqui no Brasil, muitos não possuem apenas um blog, mas vários. As finalidades são inúmeras, para distintos temas; a veiculação de informação é livre e os debates são os mais variados possíveis, desde a marca mais popular até campanhas sociais. Entretanto, ainda há lugares nos quais as pessoas podem ser presas simplesmente por se expressarem em um blog, dizendo o que pensam. Cuba é um exemplo disso. Muitos blogueiros não podem acessar sua própria página, bloqueada no país, e as publicações seriam impossíveis não fosse a ajuda de amigos no estrangeiro. Um caso emblemático e que passou a ser conhecido em todo o mundo é o da blogueira Yoani Sánchez.

Nos últimos três anos, a rotina desta filóloga cubana mudou radicalmente, após ter decidido criar um blog em 2007, o Geração Y. Segundo Yoani, o blog começou como um diário pessoal em que pudesse expor suas ideias e compartilhar o dia-a-dia dos cubanos. Por meio dessa ferramenta ela foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, em 2008, pela revista Time. Além disso, conquistou diversos prêmios internacionais que não pôde receber, pois o governo não permitiu que ela saísse de seu país.

Processo embrionário

Para blogar, Yoani vai três vezes por semana a uma lan house e envia para amigos fora de Cuba os posts que já digitou no computador de sua casa. Seus amigos publicam, pois seu blog é bloqueado no país. Depois disso os comentários voltam para seu e-mail. Ela mesma se considera uma blogueira offline (que não navega na internet).

Os temas discutidos em seu blog vão da educação de seu filho às necessidades materiais de Cuba; de cultura e história às mudanças políticas que ocorrem em seu país. Yoani é um símbolo e, além disso, movimenta o exército de outros blogueiros cubanos que, como ela, sonham em um dia ter liberdade de expressão. O movimento blogueiro cubano, encabeçado por Yoani, se reúne periodicamente para aprender a criar estratégias de se expressar mesmo em meio à repressão e a otimizar o tempo ao acessar a internet, já que as conexões são pagas e chegam a R$ 18,00 por hora.

Yoani foi notícia recentemente na BBC, na CNN e no New York Times. A TV estadunidense Martí, que é anti-Fidel e transmite desde Miami, exibe constantemente matérias com a blogueira. Ela é um novo símbolo da blogosfera no mundo. Seus posts chegam a ter mais de 1.500 comentários diários e os acessos passam de 2 milhões. Isso é prova da força que um blog tem e de que nem os regimes mais autoritários podem mais conter a onda digital. Como ela mesma diz, a blogosfera cubana, que está num processo embrionário, tira o sono de Fidel Castro.

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Como surgiu a iniciativa de criar um blog?

Yoani Sánchez – Em abril completei dois anos desta experiência. Surgiu como uma urgência de colocar para fora meus devaneios, livrar-me de um pesado fardo. Enquanto vi os primeiros blogs na internet pensei que também poderia ter um, me pareceu uma loucura, porém ao final criei e me dei conta de que fiz a escolha certa.

Qual é seu objetivo com este blog?

Y.S. – Como já disse, o objetivo inicial era fazer um exorcismo, tirar meus devaneios do medo e da frustração. Quando descobri que havia leitores e logo quando começaram os comentaristas a debater no espaço que eu tinha aberto, me dei conta de que existia um objetivo mais elevado em manter funcionando essa praça pública virtual de onde os cubanos discutem nossos problemas.

Você foi coagida por se expressar no blog?

Y.S. – Somente uma vez fui citada na estação de polícia e fui advertida de que não poderia fazer uma reunião no blog. A outra maneira que escolheram para me penalizar foi não permitindo que eu saísse da ilha nas ocasiões em que solicitei. Tenho a certeza de que me vigiam, escutam meu telefone, controlam minhas visitas e cada vez que podem me acusam de ser um invento fabricado pela CIA.

Censura e controle preventivo

Como você faz para postar em seu blog, considerando as dificuldades de conexão?

Y.S. – Nunca posto online, em primeiro lugar porque uma hora de conexão custa aproximadamente cinco ou seis euros, de maneira que tudo o que faço em casa levo em um pendrive a um local público. Não posso administrar diretamente meu blog porque ele está bloqueado para os leitores dentro de Cuba. Desta forma, envio os textos e fotos a amigos e eles se conectam. Ao mesmo tempo, os que me ajudam me enviam os comentários para que eu possa ter o retorno dos leitores.

Além de manter o blog, quais são os planos para o futuro?

Y.S. – Tenho adiante duas etapas. A primeira e imediata acontecerá antes que as coisas mudem em Cuba. Neste tempo quero publicar livros e ajudar na formação de novos blogueiros. Na segunda, que é quando escrevemos Futuro com maiúscula, os planos são desmesurados. Ficaria encantada de participar de projetos de novos meios de difusão e editoriais e não te conto mais para não parecer delirante.

Como falar de liberdade de imprensa em Cuba?

Y.S. – A liberdade de imprensa, por sorte, não é total em nenhum lugar do mundo. Internet é talvez o ponto mais alto e em Cuba não está ao alcance da população, bem porque não existem recursos bloqueados. Todos os jornais, revistas, estações de rádio e televisão que funcionam no país estão absolutamente controlados pelo Partido Comunista, nem se quer pelo governo.

Como trabalha um jornalista em Cuba?

Y.S. – Isso depende do veículo em que esteja. Existem algumas publicações em que os jornalistas têm horários abertos e outras oportunidades em que a rotina de trabalho se parece com uma fábrica. Por regra geral os jornalistas dos meios oficiais se especializam nos setores de produção, serviços, cultura ou esportes. Em cada um as regras são diferentes, porém em todos funciona a censura e o controle preventivo do que se deve ou não publicar.

Colaborações e participação em eventos

Quais são as maiores necessidades do povo cubano?

Y.S. – As necessidades materiais são moradia, que talvez seja o problema mais difícil, alimentação, transporte, vestuário, utilidades domésticas, enfim, quase tudo. Porém, há outro tipo de necessidade como a de ter informação, liberdade para opinar ou para se associar.

O que mudou em sua vida cotidiana depois que se tornou conhecida mundialmente?

Y.S. – Sigo vivendo no mesmo apartamento de arquitetura socialista, onde a substituição de elevadores soviéticos por elevadores russos me condena a subir 14 andares de escada há seis meses. Não tenho carro, me visto com o que aparece limpo, também não tenho secretária. Respondo a muitas entrevistas para o rádio, a televisão, jornais e revistas de quase todo o mundo. Também me pedem colaborações jornalísticas e participação em eventos, algo de que o governo não me deixa participar.

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Estudante de Jornalismo, São Paulo, SP

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