Terça-feira, 17 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Uniformes iguais, times diferentes

28/04/2009 na edição 535

Nas reportagens sobre o quid pro quo (venia concessa, esta é a língua mais adequada ao tratamento do caso) no Supremo, a grande falha dos meios de comunicação foi ater-se ao sensacional – e superficial – e esquecer a divisão profunda entre os ministros do tribunal constitucional do país. Falou-se no estilo imperial de Gilmar Mendes, nas brigas de Joaquim Barbosa com diversos colegas (que, em dois casos, exigiram intervenção da turma do deixa-disso para que não chegassem à pancadaria), no estilo conciliador de Ayres de Britto.


Criou-se um clima de partida de futebol, com torcedores de ambos os lados cantando vitória. Mas faltou falar nas clivagens ideológicas, mais importantes que eventuais divergências pessoais (que, por piores que sejam, podem ser resolvidas com mais facilidade). Há o grupo mais técnico, há os que dão valor mais alto ao clamor popular; há os ministros favoráveis à interpretação mais ampla possível do direito de defesa, há os ministros (e provavelmente Joaquim Barbosa seja o mais radical nesse aspecto) favoráveis à expansão do limite das investigações. Nem sempre a divisão é partidária: o ministro Eros Grau, por exemplo, não fala com Barbosa, embora ambos tenham a mesma matriz ideológica e tenham sido nomeados pelo mesmo governo.


Já houve casos em que ficou claro que um ministro sequer tinha lido o processo que estava julgando em última instância; em outros casos, talvez outro ministro tenha lido o processo, mas sem prestar atenção suficiente, tanto que reclamou de fatos já devidamente esclarecidos e documentados nos autos.


É difícil cobrir o Supremo. Os ministros tendem a ser mais discretos do que outras autoridades e, frequentemente, quando falam, procuram amenizar as divergências. Mas há os ministros aposentados, que voltaram ao exercício da advocacia ou da política; esses não apenas conhecem o ambiente como se sentem mais livres para contar histórias, mesmo que seja em off. Dá para fazer; dá para avançar muito mais, nas reportagens, do que se avançou até agora.


Dois exemplos: o ministro Joaquim Barbosa se referiu aos jagunços que Gilmar Mendes teria no Mato Grosso; o ministro Eros Grau disse que Joaquim Barbosa batia em mulher. Algum repórter foi verificar essas histórias? Comandar jagunços é crime, bater em alguém (especialmente em mulher, mesmo antes da Lei Maria da Penha) é crime. E a matéria, onde é que está?


 


Competência 1


Excelente o trabalho que vem sendo realizado pela equipe do portal Congresso em Foco com base no Siafi, que controla as movimentações financeiras, porém não apenas nele, mas também em entrevistas (e, com certeza, em denúncias de gente insatisfeita), revelou toda a farra das passagens aéreas. O mais importante é que não são denúncias partidárias: as revelações atingem todas as legendas e mais da metade dos deputados federais. Nestes tempos de internet, um portal com redação pequena, apenas nove pessoas, consegue liderar toda a cobertura nacional dos meios de comunicação. É notável.


 


Competência 2


Vale a pena acompanhar também o Contas Abertas, com um belo trabalho, altamente técnico, de acompanhamento de gastos públicos. Foi o Contas Abertas que revelou que, usando algumas sobras de passagens, muitos parlamentares estão aproveitando a oportunidade para umas viagenzinhas ao exterior – afinal de contas, milagres acontecem, e pode ser que um dia acabe.


 


Econochutometria


Há quem diga que boa parte da ciência econômica consiste em explicar hoje por que falharam as previsões de ontem. Há quem diga que boa parte do jornalismo consiste em publicar hoje, como se fossem um achado, as previsões de quem errou tudo ontem, anteontem e na semana passada.


A última novidade na área é a previsão do FMI de que o PIB brasileiro, neste ano, vai cair 1,3%. Número redondinho: não é 1,31% nem 1,29%. Há três meses, completa a notícia, o FMI previa que o PIB brasileiro cresceria 1,8%.


Dá trabalho, e trabalho cansa. Mas que tal uma boa reportagem, como aquelas elaboradas em jogos de futebol, mostrando quantas vezes nos últimos tempos a turma da bola de cristal acertou as previsões? E, melhor ainda, quantas vezes errou? O jornalismo econômico está nos devendo alguma coisa nesse estilo: afinal de contas, sempre aceitou como boas as previsões e classificações de agências que tinham interesse direto na divulgação de suas opiniões. Pense só: se o caro colega tiver um bom dinheiro, qual investimento será melhor do que as ações de uma empresa ou os papéis de um país que, no dia seguinte, terão uma boa recomendação da agência da qual você é grande acionista?


 


Não é bem assim


A cada festa, o ministro José Múcio Monteiro pega o violão e canta um pouco (dizem, aliás, que canta bem). As colunas se deliciam, e contam que ele, quando estudava no Rio, tocava em barzinhos para ganhar a vida.


Ele podia tocar em barzinhos, mas não era exatamente para ganhar a vida. José Múcio é de família rica, de banqueiros, industriais e usineiros. E é Monteiro: diz a piada nordestina que, nos meios rurais, quem não é Monteiro é montado.


 


E rola a bola


Por falar em não é bem assim, o companheiro Mário Lima, excelente jornalista, notável locutor (foi, numa grande fase da Rádio Eldorado, membro do trio de ouro das melhores vozes, ao lado do José de Ávila Barroso e do Boris Casoy), cansou de ouvir aquela história de que, nos jogos em grande altitude, a bola fica mais leve e corre mais. Como bom repórter, Mário Lima foi ouvir os especialistas. E foi informado de que, como a bola de futebol tem massa muito pequena, o efeito da altitude é ‘desprezível’. Entretanto, o atleta, que tem de se esforçar mais para correr, acaba usando mais força também no chute. Por isso a bola erra o alvo e corre mais.


Pena que o Mário Lima seja ingênuo. Já cansou de mandar e-mails propondo que, em vez de dar informação errada, façam reportagens com especialistas. Pois não é que ele achava que o pessoal iria mesmo procurar serviço?


 


Preconceito


O tema é Susan Boyle, aquela cantora fantástica que explodiu num programa de calouros da TV britânica e que tinha sido esnobada por estar desempregada, ser feia e vestir-se mal. Susan Boyle, com as primeiras libras que ganhou, deu uma pequena reformada no visual. Nada muito profundo, até porque não houve tempo, até porque não adianta. E tome o título:


** ‘Quarentona foi flagrada com salto alto e jaqueta de couro’.


Alguém por acaso se lembrou da idade de Madonna? Por que ninguém a chama de ‘cinquentona’?


 


E eu com isso?


Temos a turma do Congresso em Foco e das Contas Abertas pondo fogo na cobertura política nacional. Temos o YouTube com a gravação da briga entre os ministros Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes no Supremo Tribunal Federal. Temos um jogador que, conforme parte da crônica esportiva, estava gordo, fora de forma e acabado para o futebol, mas participou do primeiro gol de seu time com um passe sensacional e liquidou a partida ao atingir 36 km/h num pique que deixou os marcadores jovens e magros muito para trás.


E há outras notícias:


** ‘Pub leiloa assento de privada usada por Camilla Parker’


** ‘Gaúcho conta mentira escabrosa e ganha carro 0 km’


** ‘Paris Hilton circula de vestido preto com o novo namorado em Londres’


** ‘Alexandre Borges lê revista em praia no Rio’


** ‘Ivete dá pista sobre gravidez e se diz feliz com mudanças no corpo’


** ‘Carolina Ferraz ajeita a calça depois de almoço com amiga no Rio’


 


O grande título


As manchetes ‘obra aberta’, que permitem ao leitor escolher o final do título, são cada vez mais numerosas:


** ‘Vaticano chama de ‘inaceitáveis’ as declarações de…’


Ou então:


** ‘`Casseta´ Maria Paula curte noite de Bailinho no Rio de…


Há o título curioso:


** ‘Jovem vai preso por invadir banheira de desconhecido’


E há um título fantástico, noticiando algo que passou despercebido por todos os meios de comunicação do país:


** ‘Hipertensão arterial acomete mais de 400 milhões de brasileiros e acarreta importantes deficiências cardiovasculares’


Quem é que sabia que a população brasileira tinha mais do que dobrado?

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Jornalista, diretor da Brickmann&Associados

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