Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A anatomia oculta da notícia

Por Luiz Weis em 20/04/2009 | comentários

Trinta e três chefes de governo ouviam o discurso do presidente Barack Obama na abertura da quinta Cúpula das Américas, em Port of Spain, na noite de sexta-feira, 17.


Mas ele não falava para eles. Falava para a imprensa.


Discursos de líderes políticos que sabem como se forma a opinião pública são estruturados para se transformar facilmente em textos jornalísticos. A sua concepção é a de uma matéria em potencial. Por isso contêm frases ou expressões cunhadas sob medida para serem as manchetes naturais do noticiário a seu respeito.


Daí que no sábado os jornais de meio mundo deram na primeira página que “Obama pede (ou propõe, ou procura) “um novo começo com Cuba”.


E deram, também, inexoravelmente, citações como “existem passos críticos que podemos tomar em direção a um novo dia”, “eu não estou interessado em falar por falar” e mais meia dúzia de disparos verbais de alta precisão.


Falar para a imprensa, mesmo quando a platéia não é de jornalistas, requer ainda concisão – nada de submeter repórteres e editores, correndo contra o relógio, a leituras intermináveis. Daí que o capítulo cubano de fala de Obama, o mais esperado por todos, ficou em 2m50s, cerca de um terço da alocução inteira.


Parafraseando o manual da revista britânica The Economist, parágrafos curtos, frases curtas, palavras curtas.


Naquela mesma noite, o presidente da Nicaragua, Daniel Ortega, tomou 50 minutos do tempo de sua audiência para desancar os Estados Unidos pelo que fizeram e ainda fazem à América Latina.


A imprensa só aproveitou uma frase – a comparação do boicote econômico a Cuba com o Muro de Berlim. E o improviso de Obama, agradecendo ironicamente a Ortega por não tê-lo culpado por coisas que aconteceram quando tinha três meses de idade.


Em conferências como a cúpula de Trinidad e Tobago, as sessões abertas servem para que os participantes falem “para fora” e as sessões fechadas servem para eles se dirigirem uns aos outros – sem a oportunidade de desfilar diante das câmaras, o que distorceria a interlocução toda.


O que se está tentando dizer é que em última análise a imprensa influi nos acontecimentos – especialmente nos acontecimentos políticos – pelo mero fato de cobri-los. A influência não resulta de uma escolha jornalística deliberada, nem deve ser confundida com a isenção, ou a parcialidade, no tratamento dos eventos relatados.


São os personagens do noticiário que, conhecendo a lógica e os procedimentos da indústria da informação, se ajustam a eles para tirar o proveito possível de suas preferências ou idiossincrasias. Mais ou como o cidadão que posa para uma foto não como gostaria, mas como sabe, ou imagina, que o fotógrafo prefere para a foto ser publicada.


E é nesse sentido que se diz que de há muito a imprensa deixou de fazer o registro passivo dos fatos para se tornar, por iniciativa de seus protagonistas, parte inseparável deles.


O leitor, naturalmente, não tem por que fazer ideia dessa ciranda e dos seus eventuais efeitos para o próprio desenrolar dos acontecimentos.


Quando lê que “Obama propöe um novo começo para Cuba”, por exemplo, entende que o jornal informa o que ele disse, não que o que ele disse foi calculado para sair na manchete do jornal e produzir determinadas reações.


Essa anatomia oculta da notícia, no entanto, é nítida para os outros atores. Ao ouvir o discurso de Obama, o presidente cubano Raúl Castro decerto sabe o que ele o está chamando, por assim dizer, para uma conversa, em condições que caberá a ambos definir.


O “novo começo”, nesse sentido, adquire um significado mais específico do que está ao alcance do leitorado em geral. O mesmo vale para o discurso de Raúl, às vésperas da Cúpula, em que ele disse que aceita discutir “tudo, tudo, tudo”, com os Estados Unidos. O que não é para ser tomado ao pé da letra, mas sinaliza uma intenção de engajamento.


Não deixa de ser curioso que os comentaristas, quando dissecam os pronunciamentos públicos dos políticos, só muito raramente levam em conta a possibilidade de terem sido calibrados a fim de que os jornais e a TV os divulguem sob a melhor luz e com o maior destaque. Se o fizessem, poderiam ajudar o leitor a perceber, caso a caso, o papel quase sempre central que os símbolos desempenham – via imprensa – no jogo político.

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