Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

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A anatomia oculta da notícia

Por Luiz Weis em 20/04/2009 | comentários

Trinta e três chefes de governo ouviam o discurso do presidente Barack Obama na abertura da quinta Cúpula das Américas, em Port of Spain, na noite de sexta-feira, 17.


Mas ele não falava para eles. Falava para a imprensa.


Discursos de líderes políticos que sabem como se forma a opinião pública são estruturados para se transformar facilmente em textos jornalísticos. A sua concepção é a de uma matéria em potencial. Por isso contêm frases ou expressões cunhadas sob medida para serem as manchetes naturais do noticiário a seu respeito.


Daí que no sábado os jornais de meio mundo deram na primeira página que “Obama pede (ou propõe, ou procura) “um novo começo com Cuba”.


E deram, também, inexoravelmente, citações como “existem passos críticos que podemos tomar em direção a um novo dia”, “eu não estou interessado em falar por falar” e mais meia dúzia de disparos verbais de alta precisão.


Falar para a imprensa, mesmo quando a platéia não é de jornalistas, requer ainda concisão – nada de submeter repórteres e editores, correndo contra o relógio, a leituras intermináveis. Daí que o capítulo cubano de fala de Obama, o mais esperado por todos, ficou em 2m50s, cerca de um terço da alocução inteira.


Parafraseando o manual da revista britânica The Economist, parágrafos curtos, frases curtas, palavras curtas.


Naquela mesma noite, o presidente da Nicaragua, Daniel Ortega, tomou 50 minutos do tempo de sua audiência para desancar os Estados Unidos pelo que fizeram e ainda fazem à América Latina.


A imprensa só aproveitou uma frase – a comparação do boicote econômico a Cuba com o Muro de Berlim. E o improviso de Obama, agradecendo ironicamente a Ortega por não tê-lo culpado por coisas que aconteceram quando tinha três meses de idade.


Em conferências como a cúpula de Trinidad e Tobago, as sessões abertas servem para que os participantes falem “para fora” e as sessões fechadas servem para eles se dirigirem uns aos outros – sem a oportunidade de desfilar diante das câmaras, o que distorceria a interlocução toda.


O que se está tentando dizer é que em última análise a imprensa influi nos acontecimentos – especialmente nos acontecimentos políticos – pelo mero fato de cobri-los. A influência não resulta de uma escolha jornalística deliberada, nem deve ser confundida com a isenção, ou a parcialidade, no tratamento dos eventos relatados.


São os personagens do noticiário que, conhecendo a lógica e os procedimentos da indústria da informação, se ajustam a eles para tirar o proveito possível de suas preferências ou idiossincrasias. Mais ou como o cidadão que posa para uma foto não como gostaria, mas como sabe, ou imagina, que o fotógrafo prefere para a foto ser publicada.


E é nesse sentido que se diz que de há muito a imprensa deixou de fazer o registro passivo dos fatos para se tornar, por iniciativa de seus protagonistas, parte inseparável deles.


O leitor, naturalmente, não tem por que fazer ideia dessa ciranda e dos seus eventuais efeitos para o próprio desenrolar dos acontecimentos.


Quando lê que “Obama propöe um novo começo para Cuba”, por exemplo, entende que o jornal informa o que ele disse, não que o que ele disse foi calculado para sair na manchete do jornal e produzir determinadas reações.


Essa anatomia oculta da notícia, no entanto, é nítida para os outros atores. Ao ouvir o discurso de Obama, o presidente cubano Raúl Castro decerto sabe o que ele o está chamando, por assim dizer, para uma conversa, em condições que caberá a ambos definir.


O “novo começo”, nesse sentido, adquire um significado mais específico do que está ao alcance do leitorado em geral. O mesmo vale para o discurso de Raúl, às vésperas da Cúpula, em que ele disse que aceita discutir “tudo, tudo, tudo”, com os Estados Unidos. O que não é para ser tomado ao pé da letra, mas sinaliza uma intenção de engajamento.


Não deixa de ser curioso que os comentaristas, quando dissecam os pronunciamentos públicos dos políticos, só muito raramente levam em conta a possibilidade de terem sido calibrados a fim de que os jornais e a TV os divulguem sob a melhor luz e com o maior destaque. Se o fizessem, poderiam ajudar o leitor a perceber, caso a caso, o papel quase sempre central que os símbolos desempenham – via imprensa – no jogo político.

Todos os comentários

  1. Comentou em 23/04/2009 Ney José Pereira

    Daniel Ortega?. É o mesmo que já foi presidente da Nicarágua?. Pô, foi reeleito?. Essa Nicarágua, hein!. Precisa de reeleger Daniel Ortega?. Pô, desde a ‘revolução’ sandinista só dá Daniel Ortega?. E a tal Nicarágua continua naquela pobreza -material e política-!. Pô, nem mesmo um Chamorrinho tem vez na tal Nicarágua?. A Nicarágua será sempre ortegática?. O tal companheiro Daniel Ortega era’sindicalista’?. Se era está explicado. Mas, se não era como se explica?.

  2. Comentou em 23/04/2009 Jeverson -

    Olá! Por favor, será que dá pra apagar meu comentário das páginas:
    http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=444CIR003

    e

    http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=458TVQ001

    Meu nome está sendo captado pelo sistema de busca do Google e isto está afetando alguns setores da minha vida.

    Não é primeira vez que peço. Não entendo como um site que presa pela liberdade de expressão, que se julga em posição de criticar a conduta da imprensa, não atende ao pedido de alguém que colaborou com o site escrevendo um comentário e agora deseja não mais fazer.

    Espero que a demora em atender o meu pedido não passe de um mal entendido.

    Obrigado.

    PS: Favor apague este também. Escrevi aqui porque pelo ‘Fale Conosco’ a única coisa que obtive foi desrespeito da vossa parte.

  3. Comentou em 23/04/2009 Ney José Pereira

    Por que essa tal ilha de Cuba de propriedade do tal companheiro Fidel está todos os dias na imprensa?. E está todos os dias nas tais páginas ‘nobres’ dos tais jornais?. Por que essa tal Cuba é motivo de tanta ‘opinião’ e até mesmo de ‘editoriais’ nos tais jornais?. Pô, não basta ter Cuba nas páginas do Granma?. Acredito que até o companheiro Luiz Weis acha que há um ‘excesso’ de Cuba na imprensa deste país!. E o pior é que essa tal Cuba não tem nada -absolutamente nada- a oferecer a humanidade brasileira!. Acredito ser necessária uma anatomia ‘imprensática-cubática’ por parte da imprensa brasileira!. Ou seja, é necessário parar de gastar tinta e papel e tempo com Cuba. Que tal trocar a ditadura de Cuba pela ‘democracia’ do Brasil?!.

  4. Comentou em 23/04/2009 José Antonio Meira da Rocha

    Ótima aula de anatomia! Vou usar em minhas disciplinas no Curso de Jornalismo do CESNORS/UFSM.

  5. Comentou em 22/04/2009 Ivan Moraes

    ‘vc não tem o que comentar do texto’: a Opus Dei tambem nao.

  6. Comentou em 22/04/2009 Pedro Pereira Pereira

    Informo-partidária ideológica!! que neologismo é esse?
    Vc precisa ler Guimarares Rosa pra ter noçao do que é um neologismo,Quanto a vc entender, eu não esperava tanto..Imaginem um tico e um teco em baixas temperaturas.
    Sinapses curtas palavras curtas mente curta.. vc não tem o que comentar do texto,

  7. Comentou em 22/04/2009 Ivan Moraes

    Ok, Pedro, voce eh o maximo com seu neologismo de 14 silabas, curvo me de humilhacao com meu singelo ‘otorinolaringologisticamente’. Mas o que voce disse? Foi so pra falar otorinolaringologisticamente ou tava suposto a ter sentido tambem?

  8. Comentou em 21/04/2009 Pedro pereira Pereria

    ¨parágrafos curtos, frases curtas, palavras curtas¨.
    A melhor maneira de acabar com a verborragia discursiva e sem sentido da esquerda mundial.
    Concentrando os discursos Fidelistas e de Hoxha que duravam mais de 4 hs, salvava a apresentação, o resto , um besteirol sem sentido. Ganhamos todos porque o reporter ou jornalistas perde o espaço para fazer o proselitismo e a mania de querer mudar a humanidade e a realidade das coisas, ou seja menos espaço para esta podridão informopartidariaideologica bilateral de asssentaram nas poltronas dos jornais, principalmente no Brasil onde se concentraram num gueto e se reconhecem pelo cheiro.
    Deus salve a America e o Obama tbem.

  9. Comentou em 21/04/2009 Rubens Oliveira

    Comentário Pessimista

    O trabalho jornalístico tem a característica de produzir a matéria prima da história pela apresentação dos fatos históricos. No saudável movimento de interação entre a notícia e a divulgação desta notícia moldam-se os rumos da trajetória da humanidade.
    Infelizmente existe um viés maldito na relação entre os protagonistas dos fatos históricos e seus divulgadores que efetivamente interfere na difusão e conhecimento geral dos fatos. Trata-se do caráter de mercadoria que a notícia possui. Uma mercadoria é comercializada, tem um valor e precisa ser ou pelo menos parecer valiosa sob algum ponto de vista para ser considerada uma boa notícia.
    Pessoas como o Sr Luiz Weis possuem um dicernimento que os jornalistas das grandes empresas de mídia não podem ter ou se têm não podem demonstrar sob o risco de comprometer a qualidade de seu trabalho sob a ótica viesada dos diretores de redação adestrados para veicular notícias de forma a servir aos interesses do dono do jornal. Isto nãoé teoria conspiratória, é pura lógica de mercado. Finalmente o leitor está cada vez mais entorpocido pelo excesso de informação e cada vez tem menos tempo para ler, analisar ou refletir sobre qualquer notícia. Dito isto penso que a grande imprensa ficará cada vez pior numa tentativa desesperada de se auto-promover pela valorização ainda que artificial da notícia como melhor lhe convier.

  10. Comentou em 21/04/2009 Marcio Frota

    Interessante é analisar a partir deste enfoque o elogio ‘este é o cara’.Revendo o vídeo, é clara a intenção do Obama de que a bajulada seja captada pela câmera, e ao receber a tradução, Lula, macaco velho, puxa-o pelo braço para que não continue.
    Outro que soube utilizar bem este efeito foi o Chaves.Primeiro com a frase’quero ser seu amigo’ e depois com o (cavalo de tróia) presente ‘Las venas abiertas…’.
    É a luta midiática por corações e mentes agora ‘updated’ pela nova onda de presidentes carismáticos.

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