A aposta arriscada do novo Le Monde | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Domingo, 19 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
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A aposta arriscada do novo Le Monde

Por Carlos Castilho em 08/11/2005 | comentários


Um ícone da imprensa mundial acaba de passar por uma cirurgia plástica que mudou completamente a sua fisionomia, agravando ainda mais a polêmica entre os que acham que a salvação dos jornais diários está no conteúdo informativo e os que apostam tudo no visual.


O vespertino frances Le Monde saiu esta semana de cara nova e está cada vez mais parecido com os demais tablóides europeus. Uma reforma tão radical que, a rigor, poupou apenas o tradicional logotipo criado em 1944, quando o jornal foi fundado.




Não pretendo discutir as vantagens e desvantagens da reforma gráfica, mas sim a estratégia escolhida pela direção do jornal, que hoje é parcialmente controlada pelo conglomerado francês Lagardère e pelo grupo espanhol Prisa, depois que a cooperativa de funcionários cedeu parte do poder decisório para evitar a falência do jornal.


O novo Le Monde aparantemente segue a linha dos demais jornais europeus que decidiram apostar no formato tablóide e na distribuição gratuita para tentar estancar a contínua evasão de leitores e principalmente a queda dos índices de leitura entre os jovens.


Eric Azan, o diretor técnico do Le Monde justificou as mudanças como necessárias para tornar o visual mais leve e atrair o público com menos de 30 anos. Mas esta estratégia apenas nivela o jornal com seus concorrentes europeus, num momento em que a salvação depende mais da inovação e da diferenciação do que de soluções já tentadas por outros.


O grande diferencial do Monde sempre foi o texto e a informação analítica. O jornal não publicava fotos, desafiando a tendência hegemônica na imprensa mundial e só raramente aceitava um desenho ou caricatura.


Não há duvidas de que o Le Monde precisava mudar porque os hábitos do leitor contemporâneo já não são os mesmos de vinte anos atrás. O problema é que a crise dos jornais acabou dando mais poder aos executivos financeiros do que aos jornalistas.


Os executivos sanearam o fluxo de caixa usando a receita que eles conhecem de cor, mas foram incapazes de inovar na parte jornalística, principalmente na diversificação de agendas noticiosas.


Aqui parece residir o grande calcanhar de Aquiles do Le Monde e também da imprensa mundial, já que ela não consegue libertar-se da agenda do poder, enquanto a sociedade se afasta cada vez mais da política governamental, dos jogos eleitorais e das manobras partidárias. Até a economia está perdendo o interesse dos leitores comuns, enquanto outros itens surgem na lista de preocupações, sem que a imprensa dê a eles a devida atenção.


É velha a constatação de que a mídia só se preocupa com segurança pública, saúde, educação, grupos étnicos ou emprego quando há interesses dos partidos ou dos grandes lobbies econômicos em jogo. Fora daí, estes assuntos somem das manchetes.


O Le Monde foi um jornal que se tornou referência mundial porque procurava seguir um enfoque próprio dentro da grande agenda da imprensa européia. Hoje ele perdeu boa parte de seus diferenciais e só o logotipo ainda sobrevive incólume.


Aos nossos leitores: Serão desconsiderados os comentários ofensivos, anônimos e os que contiverem endereços eletrônicos falsos.

Todos os comentários

  1. Comentou em 25/11/2005 Jorge Generoso do Nascimento

    Depois que a ‘A Gazeta’ mandou seus leitores ‘sif…’, qualquer coisa no mundo dos jornais não será tanta novidade. Talvez a Europa, e particularmente a França, precise de uma missão artístico-jornalistica, digamos, como uma ‘Missão Debret’. Mas para tanto,precisariam novamente ter a monarquia. Mas acho que fácil: quem já foi rei não perde a majestade.

  2. Comentou em 25/11/2005 Jorge Generoso do Nascimento

    Depois que a ‘A Gazeta’ mandou seus leitores ‘sif…’, qualquer coisa no mundo dos jornais não será tanta novidade. Talvez a Europa, e particularmente a França, precise de uma missão artístico-jornalistica, digamos, como uma ‘Missão Debret’. Mas para tanto,precisariam novamente ter a monarquia. Mas acho que fácil: quem já foi rei não perde a majestade.

  3. Comentou em 25/11/2005 Jorge Generoso do Nascimento

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