Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A avalancha de versões no caso bin Laden

Por Carlos Castilho em 05/05/2011 | comentários

A polêmica sobre as várias hipóteses da morte de Osama bin Laden mostra como na era da avalancha informativa provocada pela internet é cada vez maior o espaço ocupado pela exploração das nuances numa notícia, indicando as enormes dificuldades que o jornalismo tem para ater-se a uma de suas regras básicas, que é a identificação da verdade.

Todo o noticiário produzido após o evento se concentrou na exploração das dúvidas, contradições, omissões, desmentidos, especulações etc. envolvendo a execução do homem que o Pentágono classificava como mais perigoso terrorista na face da Terra.


Os fatos perderam espaço para as versões e isso não aconteceu apenas porque as dúvidas sobre a ação norte-americana eram muitas, mas também porque a própria situação era complexa e envolvia muitos protagonistas com interesses divergentes.


Este é um caso típico de eventos jornalísticos com os quais teremos que defrontar no futuro e onde os profissionais não poderão assumir que estão publicando a verdade. Há muitas verdades em torno do mesmo fato e nós somos incapazes de reproduzir ou contextualizar todas elas.


O caso de bin Laden mostra de forma clara como o jornalista tem sempre duas opções a tomar diante de cada fato com que se defronta: acreditar e assinar embaixo das versões ouvidas, ou adotar uma postura crítica, consciente de que não existe uma verdade absoluta.


Na primeira hipótese, o profissional, e também qualquer pessoa que se envolva numa atividade jornalística, assume, consciente ou inconscientemente, um forma de ver a questão e com isso influenciará a percepção que os seus leitores terão do problema, seja contra ou a favor.


Já na segunda alternativa, o fato de assumir uma postura crítica significa que ele está predisposto a não aceitar posições tipo certo ou errado, bom ou mau, justo ou injusto. Um posicionamento como este implica reconhecer que sempre haverá margem para uma nova perspectiva, e que em matéria de notícia não podemos no dar ao luxo de assumir verdades ou erros definitivos.


Não é fácil conviver com a segunda hipótese porque implica conviver com a incerteza e a insegurança. Teoricamente, isso deveria fazer parte do DNA dos jornalistas, mas a realidade é bem diferente. No ritmo industrial da produção de notícias somos levados pela rotina a buscar sempre abordagens dicotômicas na hora de recontar históras para os leitores. E como o caso bin Laden está mostrando mais uma vez, não há como escapar dessa realidade.

Todos os comentários

  1. Comentou em 10/05/2011 Ibsen Marques

    Nossa imprensa está tão emaranhada e imbricada com o sistema de poder que nos domina que não consegue se dar conta de que a verdade que prega é a ‘sua’ verdade, a verdade de sua promiscuidade com o poder. Acreditar na ‘verdade’ é o mesmo que reafirmar as existências absolutas do bem e do mal.

  2. Comentou em 10/05/2011 Ibsen Marques

    Não concordo muito com a utilização do termo nuances, pois foi exatamente o que a imprensa não fez, isto é, não houve exploração das nuances. O que houve foi uma divulgação acreditada de fatos não comprovados. A cada forma de matar Bin Laden divulgada pelos EUA, a imprensa ingeria o ópio prazerosamente. Nuances teria mais a ver com matizes de uma mesma notícia, das várias formas de interpretá-la e localizá-la no ambiente histórico-geográfico, filosófico-político e religioso. Quer me parecer que nossa imprensa se vendeu à teoria buchesca do bem contra o mal, como se defender interesses meramente econômicos e exploratórios fosse a correta definição de bem e o único viés do povo muçulmano é o fundamentalista. A imprensa sequer cogita a existência de um povo pacífico que quer viver sua própria vida sem ingerência do capitalismo ocidental. Parece mesmo que isso é visto como símbolo de um povo retrógrado. Pode ser que eles venham observando a forma com que nos degladimaos por aqui e nos exploramos e não desejem isso para si. E agora, com a queda do presidente egípcio, parece que a bola de cristal do ocidente falhou e a democracia não virá faciilmente, se é que um dia virá para os orientais. Nem passa pela cabeça de nossa tosca imprensa que a composição dos países árabes é muito mais tribal e muito menos homogenea que no ocidente, mas que fazer? Os matizes deram lugar a polarização.

  3. Comentou em 08/05/2011 Fernando Vaz

    Mais um ESTÓRIA para boi e alienados dormir.

    Nesse excelente documentário:
    http://www.youtube.com/watch?playnext=1&index=0&feature=PlayList&v=6pSmdxixjFo&list=PL6CA129BBBCDEB418

    você amigo(a) vai ter todas as provas de que o 11 de Setembro foi na verdade uma grande farsa, que ele foi perpetrado pelo próprio governo americano (EUA) para poder ter uma desculpa para começar uma Guerra contra os Países Árabes.
    Osama foi uma criação americana. E agora que não é mais necessário, o descartaram, sem direito a julgamento. MUITA MENTIRA…
    Agora com essa, o Barack Obama renova a esperança dos psicopatas de levar o Mundo para a Grande Guerra.

  4. Comentou em 08/05/2011 Diego Mascarenhas

    E então criamos a editoria Exploração de Nuances rsrsrs excelente artigo, Carlos.

  5. Comentou em 08/05/2011 Diego Mascarenhas

    Ficou mais difícil estabelecer e criar consenso em torno da versão oficial. Políticos são,
    alèm da verdade, os mais prejudicados. Ainda acho que o Bin está vivo ou em poder dos
    USA ou em alguma caverna naquela região montanhosa. Esse negócio de matar e nào
    mostrar o corpo é difícil de engolir. Ainda mais em tempos de photoshop e suas milhões
    de montagens etc.

  6. Comentou em 07/05/2011 Jaime Collier Coeli

    Não é que ficou difícil seguir os mandamentos do Zend-Avesta? A velha Estrada da Seda que, uma vez bloqueada, sugeriu a procura da rota da Asia aos portuguêses, passava por um desfiladeiro, então denominado Bactriana (atual Afeganistão), palco de inumeras lutas entre o Bem e o Mal. Alexandre, sovieticos e americanos contribuiram para que o velho Zeitgeist (em alemão fica mais atual) belico se mantivesse intacto, esquecendo-se que outro fantasma se apressa em assumir o papel ainda vago nessa luta metafisica entre o Bem e o Mal: o navio fantasma de Zheng He, travestido de nave comercial, exibe mais robustez para assegurar a luta entre Ocidente e Oriente. Para os fiéis, promete ser um prato cheio. Bom apetite!

  7. Comentou em 07/05/2011 Cristiana Castro

    Pois é, Ney, e isso aí que tá enrolado. Pilatos eu sei quem é ( o outro eu
    não sei não )mas, numa guerra entre Oriente e Ocidente a gente deveria
    ser Ocidente ou Pilatos, né isso? Não dá pra ser assim. Veja a minha
    situação, sou atéia, não entendo nada de religião e ao que parece, sou
    muçulmana desde criancinha. Isso tá bizarro, saiu do controle;alguém
    pirou. O que o sul-americano tem em comum com o Islã? Nada. Então o
    que está identificando esses grupos? Não sei. Mas o fato é que há uma
    identificação que pode até vir de um sentimento de identidade de
    oprimido mas ainda acho pouco. Vou insistir na mídia, sobretudo a
    televisiva, eles erraram na mão; ou, talvez, tenham acertado e a idéia
    seja essa mesmo, um conflito Oriente/Ocidente e cada um que assuma o
    peso de sua opção. Não consigo entender o que está acontecendo mas o
    que quer que seja é proposital. Se tiver uma vaga na casa do Eremito (
    para fumantes ), tô dentro.

  8. Comentou em 06/05/2011 Ney José Pereira

    Bíblia?. Credo!. PS. Deveríamos estarmos como Pilatos em Credo nessa desavença osamática/obamática!. Deveríamos, né!.

  9. Comentou em 06/05/2011 Ney José Pereira

    Nem Caifás nem Pilatos. Muito menos Jesus. Barrabás!.

  10. Comentou em 06/05/2011 Ney José Pereira

    É. Realmente essa tal guerra contra o terrorismo está mesmo muito vulgar!. Essa história de Ocidente contra Oriente é mesmo muito vulgar!. A civilização contra a barbárie está muito vulgar. A cada ‘acontecimento’ (violência política) a vulgaridade aumenta mais. Osama foi vulgar. Obama é vulgaríssimo. E se o Terror é vulgar o Estado Terrorista é ainda mais vulgar. PS. Acho que o Obama é um ‘herói’ (americano) muito chateado com o seu ‘heroismo’. Há alternativas ao terrorismo e ao heroismo?!.

  11. Comentou em 06/05/2011 Ney José Pereira

    O meu amigo Ermito é feliz. O meu amigo Ermito está certo. O meu amigo Ermito não tem a mínima noção de quem sejam esses tais Osama e Obama. Ou Obama e Osama. O meu amigo Ermito não sabe nem sequer das tais ‘versões’. Acho que o meu amigo Ermito não sabe nem o que são ‘versões’.

  12. Comentou em 06/05/2011 Cristiana Castro

    Pois e, Castilho, diante disso, o que os jornalistas, sobretudo os nossos, deveriam ter feito, era dizer, OBAMA diz que matou OSAMA, beijo me liga e ponto final. Empurravam pro cara a responsabilidade da afirmação e não se queimavam divulgando cheios de caras e bocas, essa estorinha sem-vergonha. Mas não, tem que fazer a pirotecnia, chamar especialistas, veicular peças publicitárias de quinta categoria enaltecendo os soldados… Aí paga mico mesmo. Isso foi um vexame pior que o da #bolinhadepapel; é a #bigornadepapel. A TV Globo, como sempre, no afã de receber medalhas, saiu na frente, veiculando toda a sorte de loucuras tentando justificar o injustificável. Vai piorando pq cada dia é uma estória nova. Até coelhinhos dados de presente pro vizinho do esconderijo, eu já vi. É inegável que é divertido mas a credibilidade de nossos veiculos de comunicação tá indo pro buraco. As crianças me mostraram fotos de Bin Laden com roupa de mergulhador, no fundo do mar; outra com Bin Laden, Bob Esponja e Patrick, os dois do desenho correndo a frente e os dizeres: A guerra não acabou, só mudou de lugar! Enfim, se até as crianças estão levando isso na zoação é pq alguma coisa não deu certo. Ninguém tá levando isso a sério, o que é muito triste. Não sei o que a mídia nativa está esperando ou o que pretende.

  13. Comentou em 06/05/2011 Eduardo Santana

    A mídia jornalística no Brasil salvo raríssimas exceções se tornou um verdadeiro lixo, comandada pela Rede ‘Bobo’ de Televisão, a Fábrica de Idiotas… É um absuro o sensacionalismo e o pouco apego pelos fatos nessa cobertura medíocre, tá certo que imparcialidade não existe no meio jornalístico, mas agir como ‘líderes de torcida’ para o espetáculo americano é um pouco demais, a mídia tomou posição e assumiu as dores dos americanos, é um absurdo, o Bin Laden que vemos, é o Bin Laden que os EUA criou, ele não é inimigo do mundo, ele é inimigo do imperialismo…

  14. Comentou em 06/05/2011 Jaime Collier Coeli

    Pois é, Castilho, o jornalismo está mergulhado até o pescoço na atualidade. Na falta de um ‘século de ouro’, com uma única ‘verdade’ imperando (diz-se, mas não se comprova, que a Idade Média foi assim), adota-se a velha teoria zoroastrica da luta entre o bem e o mal, dividindo a classe entre pró e contra autoridades, sejam elas entidades de fé, governo, ou apenas os patrões. De fato, elementares construções históricas de uma atualidade sempre mutável que exibe as resultantes de seus próprios procedimentos com asco. Mas isso foi claramente demonstrado logo no início da Era em que vivemos. Afinal, tanto Pilatos quanto Caifás representavam ‘verdades’. O mais odiado dos dois, todavia, tinha alguma noção do que estava fazendo, porque perguntou: ‘O que é a verdade?’.

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