Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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A avalancha informativa coloca as redações diante de desafios inéditos

Por Carlos Castilho em 05/12/2008 | comentários

Os números sobre a avalancha de dados, fatos e notícias publicadas na Web são impressionantes, mas as suas conseqüências sobre a forma como absorvemos a informação começam a criar paradoxos que desafiam nossa capacidade de entender o que está acontecendo no campo da imprensa, por exemplo.


 


Um artigo dado na edição de novembro/dezembro da revista Columbia Journalism Review revela que em 2006 foram publicados na web documentos e dados equivalentes a 161 exabytes, e que se o ritmo for mantido, em 2010 este total subirá para 988 exabytes. Isto significa que dentro de pouco mais de um ano a web será um mega-arquivo 18 milhões de vezes maior do que o conteúdo de todos os livros publicados mundo desde Gutenberg até hoje.


 


Usando os dados publicados no informe How Much Information[1] e projetando-os para 2008[2]verifica-se que a produção informativa per capita atual seria de 2,76 gigabytes ou o equivalente a uma pilha de livros com 32 metros de altura ou um edifício de nove andares.  Este é um calculo óbviamente teórico, porque não leva em conta a abissal desigualdade humana na produção de capital intelectual.


 


Tanta informação dá a impressão de que nunca na história da humanidade os seres vivos tiveram tanta capacidade de tomar decisões adequadas às suas necessidades e desejos. Só que a realidade parece ser outra. A avalancha informativa está nos afogando num mar de notícias, e diante da incapacidade de “digerir” todo o conteúdo  disponível na internet, as pessoas começam a se tornar refratárias à informação.


 


Foi o que constatou uma pesquisa feita em 2007 pela agência de notícias Associated Press como parte de um esforço para reformular seu planejamento estratégico. A avalancha informativa intoxicou a mídia, que na tentativa de usar os novos recursos tecnológicos para produção, processamento e publicação, aumentou exponencialmente a oferta de conteúdos, favorecida pelos baixos custos operacionais na web.


 


Para Bree Nordenson, autor do artigo publicado pela CJR, a tentativa dos jornais de ganhar da concorrência oferecendo mais informação equivale a “um tiro no pé”. “Elas [as empresas jornalísticas] devem aumentar o valor da informação que produzem, em vez de reduzi-lo. Hoje elas fazem justo o contrário”, garante Nordenson, um ex-editor da Columbia Journalism Review, a mais prestigiada revista especializada em temas jornalísticos nos Estados Unidos.


 


A imprensa precisa dar-se conta de que se tornou sujeita às leis da chamada “economia da atenção”, onde a oferta informativa chegou a um tal ponto que a coisa mais difícil de obter é a atenção das pessoas. E isto não se consegue oferecendo mais do mesmo.


 


Um estudo da Escola de Administração da Universidade Northwestern, na cidade de Chicago, realizado no primeiro semestre de 2008, chegou à constatação de que o publico prefere ter menos informação para que ele possa avaliar melhor as causas e conseqüências do que está acontecendo. Verificou também que os leitores de jornais estão se concentrando em apenas alguns temas mais relacionados às suas necessidades e desejos, deixando de lado as notícias gerais.


 


Isto mostra que existe entre os leitores uma demanda não atendida por informação contextualizada, em vez de uma sobre-oferta de notícias pelo atacado. Revela também o papel fundamental no jornalista já não mais como produtor de “furos noticiosos”, mas como explicador de fatos e processos. Ele deixa de ser um elo privilegiado dos jornais com suas fontes de notícias e para se preocupar mais com o leitor e suas necessidades.


 


Convenhamos: isso vai exigir mais do que mudanças cosméticas nas redações.







[2] Estimativa feita tomando como base uma população mundial de 6,7 bilhões em junho de 2008.

Todos os comentários

  1. Comentou em 08/12/2008 Guilherme Barreto

    A diferença que se vê hoje entre o estilo jornalístico utilizado nos dois veículos discutidos (TV e internet) é o dinamismo da internet pela predominancia de jovens como publico alvo principal e a ANÀLISE do jornal impresso como suplemento da notícia rápida encontrada nos sites informacionais. Esse fenomeno filtra os leitores, segregando-os e indo de encontro a diversidade encontrada hoje em qualquer setor social.
    Em relaçao às redações, será necessário cada vez mais jornalistas competentes e criativos para que seu texto atraia e prensa o leitor, contextualizando-o sob todos os pontos de vista do assunto discutido.

  2. Comentou em 08/12/2008 Fernando Pascoal

    Castilho,

    seus artigos são respeitáveis porque, diferentemente de outros que ocupam espaço neste site, suas opiniões são recobertas por estudos. Muito bom tê-lo entre nossos pesquisadores! Há algum tempo afirmei neste mesmo espaço que o jornalismo tal qual conhecíamos será extinto. E sempre me pareceu óbvio dadas as características da própria profissão, que se transformou ao longo dos tempos em mero transmissor de conteúdo – coisa que a internet faz melhor e mais barato.

    Sabemos que o jornalismo nasceu da opinião e lentamente caminhou para a objetividade. Agora, que o mundo transformou-se numa bola de vidro, a objetividade tornou-se menos necessária. Sem um prumo melhor, o jornalismo permanece à procura dos carteiros que mordem cachorro e, não se dá conta de que, pouco, ou quase nada nos é estranho – nesses tempos de revolução – mas tudo, ou quase tudo, carece de explicações. O leitor quer o fato, mas precisa também compreendê-lo para além dos acontecimentos, e isso o jornalismo não oferece – os blogs surgiram a partir dessa lacuna – e enquanto não oferecer vai caminhar lentamente para a própria extinção – e nada será pior para a humanidade, do ponto de vista social, do que isso.

    Infelizmente, poucas cabeças compreendem a revolução que vivemos. Por incrível que pareça, ainda parece ecoar a grita de Vanderbilt : ‘o público que se dane’.

  3. Comentou em 06/12/2008 Victor Barone

    ‘Revela também o papel fundamental no jornalista já não mais como produtor de “furos noticiosos”, mas como explicador de fatos e processos’

    Penso que esta reflexão define todo o processo.

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