Sexta-feira, 14 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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A avalancha informativa coloca as redações diante de desafios inéditos

Por Carlos Castilho em 05/12/2008 | comentários

Os números sobre a avalancha de dados, fatos e notícias publicadas na Web são impressionantes, mas as suas conseqüências sobre a forma como absorvemos a informação começam a criar paradoxos que desafiam nossa capacidade de entender o que está acontecendo no campo da imprensa, por exemplo.


 


Um artigo dado na edição de novembro/dezembro da revista Columbia Journalism Review revela que em 2006 foram publicados na web documentos e dados equivalentes a 161 exabytes, e que se o ritmo for mantido, em 2010 este total subirá para 988 exabytes. Isto significa que dentro de pouco mais de um ano a web será um mega-arquivo 18 milhões de vezes maior do que o conteúdo de todos os livros publicados mundo desde Gutenberg até hoje.


 


Usando os dados publicados no informe How Much Information[1] e projetando-os para 2008[2]verifica-se que a produção informativa per capita atual seria de 2,76 gigabytes ou o equivalente a uma pilha de livros com 32 metros de altura ou um edifício de nove andares.  Este é um calculo óbviamente teórico, porque não leva em conta a abissal desigualdade humana na produção de capital intelectual.


 


Tanta informação dá a impressão de que nunca na história da humanidade os seres vivos tiveram tanta capacidade de tomar decisões adequadas às suas necessidades e desejos. Só que a realidade parece ser outra. A avalancha informativa está nos afogando num mar de notícias, e diante da incapacidade de “digerir” todo o conteúdo  disponível na internet, as pessoas começam a se tornar refratárias à informação.


 


Foi o que constatou uma pesquisa feita em 2007 pela agência de notícias Associated Press como parte de um esforço para reformular seu planejamento estratégico. A avalancha informativa intoxicou a mídia, que na tentativa de usar os novos recursos tecnológicos para produção, processamento e publicação, aumentou exponencialmente a oferta de conteúdos, favorecida pelos baixos custos operacionais na web.


 


Para Bree Nordenson, autor do artigo publicado pela CJR, a tentativa dos jornais de ganhar da concorrência oferecendo mais informação equivale a “um tiro no pé”. “Elas [as empresas jornalísticas] devem aumentar o valor da informação que produzem, em vez de reduzi-lo. Hoje elas fazem justo o contrário”, garante Nordenson, um ex-editor da Columbia Journalism Review, a mais prestigiada revista especializada em temas jornalísticos nos Estados Unidos.


 


A imprensa precisa dar-se conta de que se tornou sujeita às leis da chamada “economia da atenção”, onde a oferta informativa chegou a um tal ponto que a coisa mais difícil de obter é a atenção das pessoas. E isto não se consegue oferecendo mais do mesmo.


 


Um estudo da Escola de Administração da Universidade Northwestern, na cidade de Chicago, realizado no primeiro semestre de 2008, chegou à constatação de que o publico prefere ter menos informação para que ele possa avaliar melhor as causas e conseqüências do que está acontecendo. Verificou também que os leitores de jornais estão se concentrando em apenas alguns temas mais relacionados às suas necessidades e desejos, deixando de lado as notícias gerais.


 


Isto mostra que existe entre os leitores uma demanda não atendida por informação contextualizada, em vez de uma sobre-oferta de notícias pelo atacado. Revela também o papel fundamental no jornalista já não mais como produtor de “furos noticiosos”, mas como explicador de fatos e processos. Ele deixa de ser um elo privilegiado dos jornais com suas fontes de notícias e para se preocupar mais com o leitor e suas necessidades.


 


Convenhamos: isso vai exigir mais do que mudanças cosméticas nas redações.







[2] Estimativa feita tomando como base uma população mundial de 6,7 bilhões em junho de 2008.

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