Quinta-feira, 21 de Junho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº992
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A batalha pelo controle do The New York Times pode marcar o fim da era das grandes dinastias na imprensa americana

Por Carlos Castilho em 13/03/2008 | comentários

A família Sulzberger, dona do The New York Times (*) desde 1896, trava uma batalha de vida ou morte pelo controle do jornal diante de mais uma investida de grandes capitalistas financeiros – mais interessados em lucros do que em qualidade jornalística.


 


Caso os Sulzberger não consigam resistir à violenta pressão dos investidores, chegará ao fim o reinado da última família norte-americana a controlar um jornal impresso de grande circulação. Pode ser também o fim do derradeiro reduto significativo da resistência jornalística contra a o controle cada vez maior de grupos financeiros na produção informativa na mídia norte-americana.


 


A nova ofensiva contra o sistema de ações preferenciais que garante à família o controle de 90% das decisões no jornal, apesar de ter apenas 19% das ações, é o segundo grande confronto entre corretores de Wall Street e os Sulzberger em menos de um ano.


 


Os fundos Harbinger Capital Partners e Firebrand Partners, ambos formados por investidores com no mínimo um milhão de dólares em carteira, controlam 19% das ações comuns do NYT e pretendem tirar da família Sulzberger o controle da direção do jornal.


 


No final do ano passado, a corretora de valores Morgan Stanley tinha 7,2% das ações comuns quando deflagrou um ataque surpresa exigindo o fim do sistema acionário que garante a hegemonia dos Sulzberger, que conseguiram manter o controle do jornal.


 


Entre os jornalistas americanos, a nova ofensiva dos fundos de investimentos sobre a direção familiar do The New York Times é vista como uma espécie de batalha final entre os que acreditam na primazia da informação e os que vêem a imprensa apenas como um negócio.


 


Na verdade a questão não é tão simples e nem tão filosófica. No fundo são duas estratégias distintas para ganhar dinheiro. A família Sulzberger alega que o programa de transição para uma imprensa baseada na internet está dando resultados e que a sobrevivência do conglomerado jornalístico não está ameaçada.


 


Os capitalistas financeiros, por seu lado, querem mudanças mais rápidas e usam o temor de investidores sobre a falta de perspectivas claras para a rentabilidade dos jornais como um elemento para acabar com a administração familiar. Este seria o primeiro passo para um posterior desmembramento e venda de ativos materiais e não-materiais do conglomerado Times.


 


O medo dos investidores provocou, em 2005, a implosão do segundo maior império jornalístico dos Estados Unidos, a rede Knight Ridder, que controlava 32 jornais no país. O fundo Capital Partners Management tinha apenas 19% das ações do conglomerado, mas foi o suficiente para pôr o chefe do clã, Tony Ridder, de joelhos ante a perspectiva de uma debandada de acionistas.


 


A Knight Ridder vendeu seus jornais para a cadeia McClatchy, que já no ato da compra anunciou a revenda das 12 publicações menos lucrativas. Começou aí a liquidação de um império e o sucateamento de jornais diante da pressão de investidores interessados apenas em lucros de curtíssimo prazo.


 


O cemitério de grandes impérios jornalísticos familiares nos Estados Unidos inclui também o clã dos Chandlers, que controlava a rede Times-Mirror, e a família Bancroft, que acaba de vender o Wall Street Journal.


 


O mesmo capital financeiro que foi saudado como a grande esperança da imprensa nos anos 1980 e 90 tornou-se agora o seu principal algoz. Na época, os jornais navegavam em lucros obscenos, da ordem de 20% a 30% ao ano. Hoje, caíram para 7% a 8%, normais em termos capitalistas, mas aquém da expectativa dos especuladores.


 


A transição do foco analógico para o digital nos negócios da imprensa é um processo de maturação lenta no que se refere a faturamento. O The New York Times não está à beira da falência. Muito pelo contrário, é o mais bem-sucedido projeto de notícias online dos Estados Unidos.


 


Ironicamente, o destino da Dama Cinzenta (apelido dos nova-iorquinos para o NYT) está agora atado ao futuro da guerra de foice entre os que defendem a informação como um serviço público, onde o lucro é condicionado a fatores sociais, e o capital financeiro, obcecado pelo retorno monetário imediato.


 


(*) O texto original continha, após a palavra Times, uma vírgula que foi retirada depois da publicação. Agradeço ao leitor André Aguiar, a identificação do erro.

Todos os comentários

  1. Comentou em 17/03/2008 André Cruz de Aguiar

    Acho que há uma vírgula a mais no trecho: ‘… dona do jornal, desde 1896…’. Peço verificar.

  2. Comentou em 14/03/2008 José Orair Silva

    Infelizmente, em todo o mundo capitalista a mídia está sendo vista como um negócio como qualquer outro. Somente no Brasil, uma imprensa livre, plural, democrática e isenta encara a sua missão como um sacerdócio, a serviço da mais nobre das causas. Natural é, nessas circunstâncias, constatar esse desamor pelo dinheiro materializado num muro intransponível entre as redações e os departamentos comerciais dos órgãos de mídia. De fato o jornalista, na sua sagrada labuta diária, deve manter o espírito elevado e pairar como uma águia acima dessas mesquinhas preocupações materiais que afligem os comuns mortais…

  3. Comentou em 14/03/2008 carlos cotrim

    ah!pra quem trabalhava,trabalha o NYT ?
    vai tarde.

  4. Comentou em 13/03/2008 Ivan Moraes

    Servico publico? Entao ja era. Todas as extensoes GOVERNAMENTAIS no mundo todo estao ruindo sozinhas ou caindo perante o capital; a media ja foi o que ja foi e vai ser abrasileirada nos EUA *abertamente* daqui em diante. O que nos deixa na posicao de ter governos do mundo inteiro que sequer garantem o dinheiro que fabricam, nem garantem os investimentos dos investidores, nem garantem os precos dos imoveis, nem garantem os valores dos seus proprios produtos, nem da informacao que disseminam, nem dos politicos. Quando o padrao-papel se atropela, o preco do ouro e do petroleo sobem aas alturas por causa de grandes -sim, grandes- especuladores aa procura de mais privatizacao de dinheiro. Como extensao governamental o NYTimes foi excelente enquanto durou. Goodbye, NYTimes… hello, Veja.

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